Mais conhecido por “Chico Polaco”, Francisco Kessey, mora no pacato distrito de Nova Brasília, município de Araruna. Lá ele deveria ser chamado de “Chico Coveiro”, pois apesar da idade avançada, é o único homem responsável pelos enterros no cemitério local. Além de preparar as covas, ele cuida com muito carinho do “campo santo”, fazendo o trabalho de capinagem e plantando flores. A profissão foi herdada do padrasto, há 50 anos. “Eu ajudava meu padrasto, que era coveiro. Quando ele morreu, em 1960, assumi o serviço e não parei mais. Nunca cobrei nada pelo serviço, pois para mim não é nenhum trabalho. É melhor que ficar no boteco sem fazer nada”, comenta ele, demonstrando muito bom humor.
De barba e cabelos brancos e usando apenas um chinelo surrado nos pés, ele emenda uma história a outra durante a conversa com a reportagem da TRIBUNA, interrompendo sempre a entrevista para contar uma piada. “Sou contador de anedota. Na verdade já fui quase tudo nessa vida: de médico a mendigo, toquei time de futebol e fiquei preso seis meses em Peabiru por ter matado um homem. No dia do julgamento o juiz me pediu para contar uma anedota. Disse que entre a vida e a morte, preferi me abraçar com a vida, pois era ele (a vítima) ou eu. Fui absolvido”, recorda.
Chico Polaco nunca se casou e não tem filhos. Mora com uma família de amigos em Nova Brasília, onde possui uma chácara de cinco alqueires, que está arrendada. Diz que não bebe e não fuma. Como o distrito possui poucos moradores, ele quase não tem serviço. “Poucos morrem por aqui”, ressalta. Mas o cemitério traz muitas lembranças ao coveiro: “Já sepultei 18 parentes aqui, que vão desde padrasto, mãe, irmãos, tios e primos. Na verdade esse cemitério é pequeno, mas já tem mais de 500 pessoas enterradas, pois é um dos primeiros da região de Araruna. Um acabou sendo enterrado em cima outro, pois é o único lugar onde os inimigos podem ficar juntos que não brigam”, brinca ele, que não perde uma oportunidade de fazer piadas.
Na semana passada ele preparou o cemitério para as visitas no Dia de Finados, que será comemorado amanhã. “Vai ser celebrada uma missa aqui e também prometeram inaugurar um novo Cruzeiro. O cemitério está bem bonito, cheio de flores que eu mesmo plantei”, orgulha-se. Apesar de gostar de trabalhar no cemitério, ele dispensa investimentos em melhorias. “A prefeitura deve investir em casas para as famílias carentes, não no cemitério. Enquanto tiver forças vou continuar sepultando as pessoas, mas quando eu morrer, se meu corpo prestar, quero doar para a ciência. Se servir para estudo já estará bom”, diz ele. Chico Polaco é o retrato do voluntariado. “Já trabalhei muito nessa vida e cobrei de poucos. Até hoje, quando morre uma pessoa, se a família não tem condições ainda ajudo a comprar o caixão.”
Por Clodoaldo Bonete, da Redação



