Sérgio Kffuri não queria correntes. Queria liberdade

Não há nesta vida um segundo João Sérgio Kffuri. Revolucionário, poderia ter fundado uma guerrilha. Ou ter sido muitas outras coisas. Mas num mundo paranóico, preferiu ser ele mesmo. São inúmeras as qualidades. Poucos os defeitos. “Turco”, como era chamado pelos seus próximos, morreu aos 73 anos. Foi em fevereiro de 2019. A ficha ainda não caiu aos amigos. Parece ter sido ontem. Custam acreditar. Era um homem sem frescuras. Vivia o presente. E sempre, acompanhado de alegria. Quase nunca foi visto triste. Carregava um livro de histórias. E elas eram contadas às gargalhadas. Com seu jeitão frenético, a mil por hora, era o presidente das resenhas. Dominava as rodas de boteco. E dava o tom da prosa. Quem o conheceu diz que o tempo o levou cedo demais. A saudade dói. Mas fazer o que? Todos o queriam por perto. Desta vez o requisitaram pras bandas do outro mundo. E eles lá, devem estar ouvindo o “Sérjão”. Certeza que está ditando as prosas.

Kffuri veio de uma família libanesa. Seus pais, Chicre e Esmeralda, deixaram o Líbano em meio a Primeira Guerra Mundial. Chegaram ao Brasil nos idos de 1920. Depois ao Sul. Paraná. Malet. Era o caçula de sete irmãos. E teve três filhos: João Gabriel, Carlos Eduardo e Soraya. “Biel”, o mais velho, lembra de um pai amoroso. Era um sujeito coração com os meninos. Embora, do seu jeito. “Me deixou lições importantes. Trabalhar. Ter ética. Respeito às pessoas. Entender como elas são”, disse. 

Sérgio chegou em Campo Mourão aos dois anos de idade, em 1948. Os pais foram donos da primeira serraria a vapor da cidade. Ainda jovem, trabalhou numa padaria. Distribuía o pão numa Kombi. Já adulto, trabalhava em uma serraria com Constantino Miguel. Depois, em 74, passou ao ramo imobiliário. Seu último ofício antes de partir. Mas o trabalho mesmo era cativar as amizades. Tinha muitas. Nos botecos da cidade não há uma única mesa que não tenha se sentado. E em cada canto deles, sua voz rouca, forte, alta, ainda ecoa. Viveu aos amigos. Sua paixão eterna. 

Política

Com suas loucuras humanas, aprendeu a torcer. Mas não para um time. Para três. Adorava a Portuguesa de São Paulo. Botafogo do Rio. Atlético do Paraná. Coisas do Sérgio. Ia aos jogos em Curitiba com Biel. Era um torcedor fanático. Também se aventurou na política. Foi vereador na década de 70. E candidato a deputado federal nos anos 80. E este era um dos assuntos que dominava. A alguns amigos teria confessado que, pela ética, preferiu sair de cena e ficar apenas nos “bastidores”. Ficou decepcionado. Era melhor falar de política no boteco. Uma forma mais descente de compreender o mundo. 

“Kiffa”, como também era chamado, não existe mais. Assim como não existe quem tenha alguma queixa dele. Foi um cara além do seu tempo. Certa vez, descontente com a política nacional, arrumou um caminhão lotado de bananas. Emprestou um burro. Os levou ao centro da cidade. O burro representava o povo. As bananas, o que o povo recebia. Em tom de ironia, parava todos os carros. E dava as bananas. Um tapa na cara da classe política. Muita gente ficou com raiva do “Turco”. “E daí”, ironizava ele. 

O movimento fez parte das ações da extinta Boca Maldita de Campo Mourão. Na verdade, um grupo de amigos que tocava o terror pro bem da cidade. Nunca ganhou nada com isso. Mas dormia tranquilo frente a tentativa de despertar o senso crítico dos mourãoenses. Sérgio sempre foi destemido. Não ligava ao que falavam. Muitas vezes nadava contra a própria correnteza. Tinha sua própria opinião. E ela não mudava. Talvez, a liberdade fosse o maior presente que teve em vida. Era ela quem ditava seu caminho. Possivelmente, um pássaro com asas longas demais. Ou um barquinho a vela. Navegando em águas tranquilas. Precisava apenas das velas e do leme.    

Paixão pela vida

“Turco” vivia o momento. Idolatrava a vida. Era viciado pelo hoje. Não ligava para o preço de um bom restaurante. De um vinho. “Assim como ia ao céu no momento, também ia ao inferno financeiramente”, diz o amigo Nilmar Piacentini. Ele lembra que Sérgio era muito generoso. Se estava bem, gastava. Se não estava, dava um jeito. E gastava com os outros. Sempre levava presentes a alguém. Flores as esposas dos amigos. Mimos de um gentleman. Piacentini era um amigo irmão. Confidente. Íntimo. Solícito. Camaradas de um plano terreno ainda não compreendido.

Mas a vida nem sempre foi fácil. Com a generosidade exposta, Sérgio foi alvo fácil de aproveitadores. No ramo imobiliário, foi passado para trás inúmeras vezes. Ainda acreditava naquela conversa do fio do bigode. Na palavra do ser humano. Os amigos diziam para botar os contratos e acordos no papel. As vezes não fazia. Tomava pau. Deixou de receber comissões legítimas. Recebeu “nãos”. Falsas promessas. Encarou mentiras. Lidou com pilantras. Mas também com gente boa. E, mesmo assim, continuava acreditando nas pessoas. Igual ao Sérgio, nunca mais.  

Irmã mais próxima de Sérgio, Rose conta sobre um menino arteiro. Hiperativo. Certa vez a mãe, dona Esmeralda, o vestiu com roupas das irmãs. Ela não queria que ele saísse de casa naquele dia. Mas não teve jeito. Foi pra rua brincar com os amigos de calcinha e vestido. “Ele dava risada. Levantava o vestidinho aos meninos pra mostrar a calcinha”, lembra. Noutra vez, ainda aos quatro anos, baixou o freio de mão da famosa “Baratinha” do pai. Uma descida. Rose estava no banco ao lado. Juntos desceram a ladeira. Bateram o carro. Sobrou para os dois. 

Se estivesse viva hoje, dona Esmeralda teria 110 anos. Enquanto viva, morava com Rose. E quase todos os dias era visitada por Sérgio. Ele chegava. Olhava. Perguntava se tava tudo bem. Se precisavam de algo. Depois ia embora. Como um relâmpago. Como um pit stop de Fórmula 1. Por causa disso, a mãe o apelidou de Beija Flor. “Ela perguntava se o Beija Flor já tinha ido embora”, lembra Rose.   

Amigos

Nilmar define Kffuri como seu guru. “Ele via as coisas onde nós não víamos nada”, revela. Segundo ele, Sérgio sentia cheiros. Observava paisagens. Encontrava beleza onde as pessoas nada viam. Em dias de chuva, gostava de se molhar. Olhava aos céus e encarava a água naturalmente. Parecia um menino. Tinha a alma de criança. “A beleza do Sérgio estava nas atitudes. Nós precisamos de adereços pra sermos belos. Mas ele não. Ele era elegante sem nada. Apenas pelos gestos. Pelas palavras. Pela sua generosidade”, afirma. O escritório de Sérgio era onde os chegados se encontravam para um café, à tarde. E era lá onde se reuniam para planejarem, juntos, a conquista do mundo.  

Sérgio era um galanteador. Sempre elegante. Andava ereto. Calça e sapatos sociais. Camisa passadinha. Cabelos penteados. Há quem o comparasse a Al Pacino. Embora fosse libanês. Gostava de whisky. Mas acabou minimizando as doses. Passou a cerveja. Depois ao vinho. Acreditava em Deus. Nos últimos tempos mais ainda. Em outubro de 2018, teve problemas estomacais. Passou mal. Emagreceu. Aos amigos disse se tratar apenas de uma diarréia. Mas não era só isso. Escondeu uma hepatite de todos. Mentiu à família e aos próprios amigos. Depois disso, notou-se que “Kiffa” não era mais o mesmo. Pela primeira vez, o sorriso não era igual. Ele aguentou calado a dor. Preferiu não compartilhar o próprio drama. Certamente, para não quebrar a alegria que semeava nas rodas de amigos.   

A doença

Mas o drama estourou em fevereiro de 2019. Foi internado com hepatite. Cirrose. Úlceras. Ficou quase uma semana. Entrou no hospital. Não saiu mais. Um dos melhores amigos, Ricardo Widerski, permaneceu com ele nos últimos dias de vida. “Mesmo hospitalizado, não dividiu comigo a sua doença. E, ainda assim, me recebia com o sorriso de sempre”, lembra. Ricardo era mais que amigo. Um irmão terreno. Coisa de outras vidas. Ajudou Sérgio a sair da cama. Ir ao banheiro. Enfim… Mas aconteceu algo que não se esquece. Generoso como sempre, Sérgio recebeu a notícia que havia ganhado uma boa comissão do trabalho. Pediu ao filho que levasse a grana ao hospital. Biel não entendeu. Mas levou. Sérgio tentou distribuir o dinheiro aos profissionais da saúde. Pela ética, não aceitaram. 

Widerski resume o “Turco” como uma “alma branca”. Não possuía maldades. Ajudava a todos. Mesmo que fosse prejudicado. Arrumava bons negócios. Dava conselhos. Compartilhava festas. No seu mundo, não existiam distinções de religiões. De raças. Preconceito zero. Pra tudo. Pra todos. Ele queria apenas viver. Amava a vida. E sempre aberto à conversa. Na cidade foi um dos fundadores da APAE. Um dos idealizadores da Boca Maldita. Remodelou o Carneiro no Buraco. Ao lado do finado Tony Nishimura, levou o prato típico de Campo Mourão aos quatro cantos do mundo.       

Mas no dia 12 de fevereiro, o sorriso de Sérgio parou. Foi enterrado sob os olhos de inúmeros amigos. E dos filhos. Soraya, a filha, entoou a letra de uma música. “Voa passarinho. Voa”. Naquela manhã, os amigos pararam. Choraram. Mas acabaram entendendo que, um sujeito que prezava tanto a liberdade, não podia ficar preso a uma doença. A um corpo adoecido. Sérgio agora está sorrindo pras bandas de lá. “Kiffa” não queria uma corrente. Queria velas e lemes. Liberdade. Queria voar. Ou talvez, apenas viajar por águas tranquilas. Pra sempre.