Encontro discute acidentes e mortes de trabalho e cria comitê estratégico
Representantes dos 25 municípios da Comcam participaram nessa quinta-feira (9) de um encontro regional promovido pela 11ª Regional de Saúde de Campo Mourão e Ministério Público do Trabalho. O evento foi realizado na sede do Senac, em Campo Mourão, reunindo um grande público. O debate teve como objetivo discutir o número de acidentes e mortes de trabalho na região. O saldo aumenta a cada ano e preocupa as autoridades em Saúde.
Na ocasião, foi criado também o Comitê Regional de Investigação de Acidentes de Trabalho, formado pelo Ministério Público do Trabalho, Sindicatos de Trabalhadores, Universidades, profissionais da saúde, entre outros. O papel do comitê é analisar as mortes e acidentes graves de trabalho na região e junto com o Ministério Público promover ações de inspeção nos ambientes de trabalho onde estão ocorrendo mortes e acidentes, planejando estratégias coletivas de prevenção.
De acordo com Silvia Eufênia Albertini, do Centro Estadual de Saúde do Trabalhador, da Secretaria de Saúde no Comitê Estadual de óbito e Amputações Relacionada ao Trabalho (CEIOART), que participou do encontro, as mortes e acidentes graves é um problema bastante sério. Segundo ela, o Sistema Único de Saúde (SUS) precisa ter profissionais capacitados que tenham um poder de interferir nestes processos de trabalho para evitar doenças, acidentes e as mortes relacionadas ao trabalho.
Silvia informou que estudos apontam que 100% dos acidentes de trabalho e mortes poderiam ser evitados. Esta é a função da saúde pública junto com estas outras instituições que atuam no processo de fiscalização, evitar estas ocorrências, falou, ao comentar que atualmente, no Paraná, morre no mínimo um trabalhador por dia. Muitos destes trabalhadores não têm segurança no trabalho e não tem também seguridade social, e com a morte dele a família toda fica sem um sustento. Isso fora a perda por uma causa que poderia ser evitada, observou.
De acordo com Silvia, conforme estudos, o ramo que mais registra mortes é o da construção civil por queda ou choque elétrico. O conselho vai chamar os empresários da construção civil para adotarem medidas de saúde e segurança no trabalho para evitar estes óbitos, falou. Outra área também com altos índices de adoecimento e acidentes é a frigorífica.
Silvia acrescentou que além das subnotificações, a questão da saúde do trabalhador não é uma política que esteja focada para os gestores do SUS. Estamos cada vez mais mostrando esta realidade para que os gestores do SUS e também outros órgãos que tem o papel de fiscalização dos ambientes de trabalhos comecem a dar visibilidade para este problema, argumentou.
Ela disse que atualmente os profissionais da atenção primária em saúde nos municípios pouco questionam quando o trabalhador chega para ser atendido para fazer nexo entre o adoecimento e o trabalho. O Centro Estadual de Saúde do Trabalhador vem no estado inteiro capacitando os profissionais seja para atuar na vigilância dos ambientes de trabalho nos diversos ramos ou na atenção primária de saúde para que os profissionais vejam aquele usuário que está chegando como trabalhador e se aquele problema de saúde pode estar relacionado com o trabalho, acrescentou.
De acordo com Paula Fiorin, do setor de Saúde do Trabalhador da 11ª Regional de Saúde de Campo Mourão, a Regional vem assessorando os municípios da região em relação ao assunto. Segundo ela, os profissionais de saúde são orientados a fazerem as notificações sempre que surgirem casos. Chegou o trabalhador acidentado na porta de entrada do município, a orientação é para que receba o paciente e faça a notificação para fazermos a investigação do que aconteceu e como aconteceu. Se necessário fazemos até a intervenção para que o acidente não aconteça mais, explicou.
Paula disse que existe um número alto de notificações na região. Muitos trabalhadores que chegam para ser atendidos com ferimentos muitas vezes o município não faz a notificação como deveria ser feito. Muitas vezes os profissionais tratam o problema em si nas unidades de saúde e não investigam porque a pessoa achegou com o problema. É onde não é feita a notificação. Por isso estamos trabalhando com os municípios a todo tempo nisso, frisou.

Em 4 anos, região teve 1.073 acidentes de trabalho e 78 mortes
O saldo de acidentes de trabalho e mortes na região é preocupante. De acordo com dados repassados pela 11ª Regional de Saúde de Campo Mourão, na Comcam foram notificados 1.073 acidentes graves de trabalho nos últimos quatro anos (2014-2018), resultando em um total de 78 mortes sendo que 37 óbitos são de pessoas menores de idade.
Conforme os dados, o ano com maior número de ocorrências foi em 2014, com 303 acidentes. Em 2015 foram 259; 2016, 190; 2017, 184; e 2018, 137. Já o ano com o maior número de mortes no período foi 2016 (24). Em 2014 foram 13 óbitos; 2015, 11; 2017, 16; e 2018, 14. No período foi registrada a morte de uma vítima de 13 anos; duas jovens de 14 anos; cinco de 15 anos; 13 de 16 anos; e 16 de 17 anos;
De acordo com a enfermeira da Seção de Vigilância Sanitária, Ambiental e Saúde do Trabalhador da 11ª Regional, Elizabete Mitiko Konno de Lozada, os números podem ser maiores já que é grande a quantidade de subnotificações nos municípios. Segundo ela, o problema é que muitas pessoas, quando sofrem um acidente de trabalho não informam que a situação está relacionada a esta situação e em muitos casos o profissional que prestou o atendimento também não faz a apuração.
A orientação aos municípios é que os serviços de saúde sempre notifiquem os acidentes de trabalho. Sempre que houver o registro, o profissional de saúde deve sempre perguntar se o acidente foi ou não relacionado ao trabalho, isso é muito importante para que possamos ter dados estatísticos atualizados e buscando também soluções de prevenção, falou.
O mesmo deve acontecer com casos de doenças ocupacionais. Há estudos que indicam que os registros de acidentes de trabalho incluem doenças relacionadas ao trabalho, ou seja, aquelas contraídas devido à exposição a fatores de risco, assim como aquelas desencadeadas ou agravadas pelas condições de trabalho, falou ela.
Números
Acidente de trabalho é aquele que ocorre pelo exercício da atividade profissional a serviço da empresa ou pelo exercício dos segurados especiais, provocando lesão corporal ou perturbação funcional, permanente ou temporária, que cause a morte, a perda ou a redução da capacidade para desenvolvimento do trabalho.
Segundo dados do Ministério Público do Trabalho (MPT), o Brasil ocupa o quarto lugar no ranking mundial no que diz respeito aos acidentes de trabalho. A cada 48 segundos ocorre um acidente e a cada 3h38 um trabalhador perde a vida pela falta de uma cultura de prevenção à saúde e à segurança do trabalho no país. Ainda conforme o levantamento, a maior parte dos acidentes e mortes no trabalho ocorre com homens na faixa etária de 18 a 24 anos e exercem atividades de baixa remuneração.

