O perigo de menosprezar o diploma em plena crise de evasão no ensino superior

Volto aqui, mais uma vez, para falar sobre educação e, especialmente, sobre o ensino superior. Retornei o tema porque, nos últimos dias, uma fala de um agente público ganhou repercussão ao afirmar que “o diploma tem cada vez menos relevância”. Essa declaração me fez pensar sobre como discursos públicos moldam percepções, especialmente entre jovens que já enfrentam dúvidas, pressões e barreiras para permanecer estudando.

É verdade que o mercado vem passando por transformações importantes. Há, sim, uma mudança legítima: habilidades práticas, experiência e capacidade de adaptação são cada vez mais valorizadas. Mas transformar essa evolução em antagonismo “habilidades vs. diploma”, é cair em um falso dilema que não ajuda ninguém a compreender a complexidade do cenário. Formação acadêmica e competências práticas não competem entre si; elas se somam.

E por isso a fala preocupa. Quando alguém com responsabilidade pública afirma que o diploma está perdendo relevância, não está apenas comentando uma tendência: está enviando um recado desmobilizador num momento em que o país precisa exatamente do contrário. A construção de uma trajetória acadêmica envolve anos de estudo, investimento familiar e social, dedicação pessoal e políticas públicas que tornam o acesso possível. Reduzir tudo isso a uma frase de efeito é ignorar o impacto real que a universidade tem na vida das pessoas e no desenvolvimento do país.

Os dados mostram isso com clareza. O Censo da Educação Superior 2024 aponta que a evasão permanece elevada, com taxa em torno de 17% entre 2023 e 2024. É um sinal de alerta importante: perder estudantes significa perder potencial humano, produtividade futura e capacidade de pesquisa e inovação. Diante desse quadro, o papel do poder público deveria ser o de estimular a permanência, fortalecer políticas de acesso e valorizar a educação, não relativizá-la.

Pesquisas mostram que concluir o ensino superior amplia significativamente as oportunidades de emprego e renda. No Brasil, por exemplo, um estudo do IBRE/FGV apontou que, no segundo trimestre de 2024, trabalhadores com ensino superior completo recebiam, em média, 126% a mais do que aqueles com ensino médio ou superior incompleto.

Além disso, segundo o relatório Education at a Glance 2025 da OCDE, adultos com formação de pós-graduação (mestrado ou doutorado) ganham, em média, 83% a mais do que os que têm apenas ensino médio (ou equivalente). Esses dados não são meras estatísticas abstratas, mas refletem impactos concretos na vida de quem decide investir tempo e recursos nos estudos.

Mas o valor da universidade vai além da renda. Um amplo corpo de literatura científica demonstra que níveis mais elevados de escolaridade estão associados a ganhos cognitivos, melhor desempenho em funções executivas e maior capacidade de raciocínio, tomada de decisão e resolução de problemas. Essas competências são essenciais para inovação, liderança e adaptação em um mercado de trabalho dinâmico. A universidade, portanto, não é apenas um caminho para o primeiro emprego; é um ambiente que expande repertório, desenvolve pensamento crítico e fortalece a autonomia intelectual.

Por isso, quando um agente público minimiza esse papel, o problema não é apenas retórico, é político, social e econômico. Quem governa deveria reforçar a mensagem de que estudar vale a pena: garantindo acesso, investindo em permanência estudantil, cuidando da qualidade dos cursos e aproximando a academia das demandas reais do mercado. Valorizar habilidades práticas é importante, claro, mas isso deveria vir acompanhado do incentivo à conclusão da formação, e não da sua banalização.

Para jovens e adultos que já enfrentam barreiras econômicas, geográficas, sociais ou raciais, a mensagem precisa ser inequívoca: o ensino superior amplia horizontes. Reduzir publicamente sua importância é empurrar ainda mais pessoas para fora das salas de aula e reforçar uma cultura de baixa ambição formativa. Se o desejo é valorizar competências, ótimo, então que se façam políticas públicas que integrem formação técnica, educação continuada, inovação pedagógica e incentivo à conclusão dos cursos. O que não podemos aceitar é um discurso que desmobiliza justamente quem mais precisa de apoio.

Em suma: habilidades importam. Diplomas têm valor. E o papel do gestor público é somar essas verdades, jamais colocá-las como antinomias. A retórica que desestimula o ensino superior é um tiro na perna do nosso futuro coletivo.

Rosinaldo Nunes Cardoso é Administrador, Especialista em Gestão de Pessoas e Estratégias Competitivas, Mestre em Administração com foco em Empreendedorismo, Inovação e Mercado.