As três mortes de “Ribeirão”
O corpo enterrado no lote 1219, no cemitério de Moreira Sales, definitivamente, não é o de um homem comum. No túmulo ainda inacabado, apenas com tijolos, descansa José Sebastião dos Santos. Ele morreu pela terceira e última vez em 1997. Não tinha super poderes. Não era de outro mundo. Pelo contrário. Era um homem simples demais. “Ribeirão”, como era conhecido, sofria de um mal chamado catalepsia. Morte aparente. Em duas ocasiões, na década de 50, seu coração parou. Foi velado. Mas acordou dentro do próprio caixão durante os dois sepultamentos.
“Ribeirão” sempre foi da roça. Nasceu na zona rural de Minas Gerais. Na cidade de Cabuí. Veio de uma família humilde. De pais lavradores. Com o tempo, cresceu e virou um trabalhador braçal. Deixou Minas e acabou na pequena Moreira Sales – 68 Km de Campo Mourão. Nas terras vermelhas do Paraná, jamais casou. Oficialmente, também não teve filhos. Mas no final da década de 90, acabou os dias num lar de idosos da cidade. Ele morreu, de verdade, no dia 8 de novembro de 1997. Não deixou nada. Nem mulher. Filhos. Casa. Objetos. Foi como veio ao mundo. Viveu na simplicidade. Mas viveu intensamente.
José tornou-se um sujeito conhecido na região. Sua saga o transformou em lenda. Ainda em 1997, lúcido, concedeu entrevista a este repórter. Estava abrigado no Lar dos Idosos. Contava que tinha 69 anos. Mas diziam que já beirava os 100. Jamais estudou. Morreu analfabeto. Contava que não era “estudado”. José era a simplicidade em pessoa. Um sujeito do bem. Com muitas histórias por contar. Diferente da maioria dos homens, buscou a solidão. E jamais se arrependeu disso.
A morte
A lenda teve início por volta de 1947, num sítio do município. Ele trabalhava quando sentiu fortes dores na região do tórax. Passando mal, sentou. Depois, se deitou. Acordou horas mais tarde dentro de um caixão. Do próprio caixão. Era velado. Viu velas. Flores. E um menino que o olhava assustado. O garoto saiu aos gritos. Pessoas correram para ver o que havia acontecido. Nada demais. A não ser, “Ribeirão” sentado no caixão. Uma cena surreal.
Nervoso, José perguntou aos presentes o que havia acontecido. Explicaram que havia passado mal. O coração parou. Não respirava. Começaram a velá-lo. Apenas isso. Ele então saiu do caixão. E se sentou numa das cadeiras. O enredo rendeu muita prosa. Por longos anos. “Ribeirão” contou a história às gargalhadas. Achou divertido o fato. Principalmente, porque, depois disso, muitos passaram a ter medo dele.
O fenômeno é raro. Já foi muito estudado pela medicina. Chama-se catalepsia. Uma morte aparente. O indivíduo não respira. Não tem batimentos cardíacos. Se comporta exatamente como um morto. Por várias horas. Existem casos em que alguns catalépticos chegam a ser enterrados, morrendo depois por asfixia. Mas isso não aconteceu com José. Pelo menos na década de 50. Quando passou pelo segundo susto.
Contou ele que por volta de 1955, comeu algo estragado. Novamente se sentiu mal e, de repente, apagou. Começava tudo novamente. Até abrir os olhos e enxergar a tampa do caixão, já fechada. Desta vez estava sendo carregado rumo ao cemitério. Naquele tempo não existiam carros. O cortejo era a pé. Desesperado, bateu na madeira. Os amigos escutaram. Teve início uma correria. Devagar, colocaram o caixão no chão. Abriram. E lá estava, mais uma vez, José com os olhos esbugalhados.
Os seguidores do funeral corriam. Gritavam. Deram no pé. Sobraram os carregadores do caixão, que explicaram a José o que estava acontecendo. Tudo narrado, levaram “Ribeirão” ao médico. Lá, foi examinado e constatado que estava mais vivo do que nunca. O médico teria dito pra ele guardar o caixão e mostrar aos amigos. “Falei umas bobagens ao doutor. Imagina se eu ia carregar um trem daqueles pela rua. Só pra mostrar aos outros”, disse na época. Ainda em 1997, no asilo, “Ribeirão” se recuperava de um derrame. Mas dizia que não tinha medo de morrer. Apenas não queria sentir dores antes de partir. “Quando morrer mesmo, terão que aguardar um pouco mais pra ter certeza. Né”, disse.
Amigos
José Francisco de Lima, hoje com 83 anos, foi amigo de “Ribeirão”. Trabalhava no abrigo quando ainda estava vivo. “Eu ajudava a cuidar dos internos. Fiquei amigo dele”, disse. Conhecido como “Zé do Leite”, porque mexia com laticínios em tempos remotos, Lima lembra que ele não tinha ninguém na vida. “Nunca soube que possuía mulher ou filhos. Foi por isso que terminou seus dias sozinho naquele abrigo”, explica. Para ele, “Ribeirão” era um bom sujeito. Tinha quase dois metros de altura. Magro. Quieto. Mas adorava contar as histórias de quando “morreu”.
“Lagarto” hoje é um senhor de 71 anos. Tem esse apelido de tanto beber a gema de ovos. Como o próprio bicho. Acredita que a imponência de sua saúde se deve aos galináceos. Conta que também foi amigo de “Ribeirão”. Trabalhou ao seu lado nas regiões da Quarta Missão e do 50 Alqueires, ambas em Moreira Sales. Ainda na década de 60, como bóias frias, colhiam café e algodão. Walter Pimenta Quirubin está muito bem de saúde. É a alegria em pessoa. Não para de sorrir. E lembra bem do velho amigo. “Era uma boa pessoa. Não teve família. Às vezes gostava de tomar umas”, disse rindo. Para ele a vida é bastante misteriosa. Faz com que algumas pessoas especiais vivam ao seu lado. Como o amigo de “três vidas”.
José Sebastião dos Santos morreu às 14h30 do dia 8 de novembro de 1997. Meses antes, teve um derrame. Tudo o que se tem dele na cidade, hoje, é um papel emitido pela prefeitura. Ali, no cadastro 188, consta que a morte foi ocasionada por parada cardiorrespiratória. Está enterrado no lote 1219 do cemitério local. Uma cova simples. Sem nem ao menos ser terminada. Tijolos e uma pequena cruz de ferro enferrujada são as únicas benfeitorias. Nem seu próprio nome foi colocado. Consta apenas “Ribeirão”. Moradores locais lembram de seu último enterro. Um dia de céu cinza. Quase ninguém presente. Um dia triste. Ali permanece o corpo de um homem que “viveu” três mortes.

