Orelhões saem definitivamente das ruas; Comcam ainda tem oito em uso
O ano de 2026 marca o fim de uma era no Brasil, no Paraná e também na região de Campo Mourão. A retirada, agora por completo, dos telefones públicos, os famosos orelhões, começa a ser executada a partir deste mês em todo o território brasileiro. A medida extinguirá um equipamento que, por décadas, fez parte da paisagem urbana e da rotina de muitas pessoas. A desativação ocorre após a popularização do telefone celular e mudanças regulatórias que encerraram a obrigatoriedade de manutenção do serviço público.
Na região de Campo Mourão, a presença dos aparelhos já é residual, ou seja, grande parte já foi retirada. De acordo com a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), restam ainda oito telefones públicos em operação em sete municípios. Barbosa Ferraz tem dois equipamentos. Campina da Lagoa, Engenheiro Beltrão, Iretama, Luiziana, Moreira Sales e Nova Cantu ainda têm um cada. Campo Mourão não possui mais orelhões ativos.
Os equipamentos entram em retirada após a queda no uso ao longo dos anos. O avanço da telefonia móvel tornou o serviço praticamente obsoleto, especialmente nas áreas urbanas. Dados da Anatel indicam que cerca de 38 mil aparelhos ainda existiam no país, muitos sem utilização efetiva.
Criados no início dos anos 1970, os orelhões começaram a ser instalados em 1972, com projetos assinados pela arquiteta e designer Chu Ming Silveira. Durante anos, foram o principal meio de comunicação fora de casa, sobretudo em um período em que possuir telefone fixo era privilégio de poucos. O auge ocorreu entre as décadas de 1970 e 1990, quando filas ao redor dos aparelhos eram comuns, principalmente em datas comemorativas e horários de pico.
Para quem viveu essa fase, o desaparecimento dos orelhões carrega um significado que vai além da tecnologia. “Eu fazia entregas o dia inteiro e o orelhão era praticamente meu escritório. Era ali que avisava atraso, confirmava endereço e resolvia problema na hora”, relembra Arnaldo Vieira Cordeiro, de 72 anos. Ele trabalhou por anos nas ruas de Luiziana. “Hoje tudo está no celular, mas naquela época, sem o orelhão, a gente ficava isolado”, disse.
Maria Dolores Nobre, 68, moradora de Engenheiro Beltrão, também associa os aparelhos a um tempo de maior distância entre as pessoas. Ela disse que sua filha morava longe. “Eu juntava ficha para ligar no fim de semana. Depois passou a ser com aqueles cartões colecionáveis. Às vezes a ligação era curta, mas matava a saudade”, contou. “Era o único jeito de ouvir a voz de quem estava em outra cidade”, falou.
Com a retirada progressiva dos equipamentos, os poucos orelhões ainda existentes na região devem desaparecer definitivamente nos próximos meses. Em Campo Mourão, eles já deixaram as ruas, restando apenas na memória coletiva de quem viveu uma época em que comunicar-se exigia ficha, paciência e um endereço decorado.

