Nunca é tarde: aos 62 anos, Martin é aprovado em Medicina em Campo Mourão

Martin Valter Kunkel tem 62 anos. É marido. Pai. Avô. Carrega no currículo décadas de trabalho, mudanças de rota e decisões difíceis. Agora, soma mais uma: foi aprovado no curso de Medicina do Centro Universitário Integrado, em Campo Mourão, o mais disputado da cidade e da região. Não houve cursinho. Não houve preparação específica. Em seu caso, houve experiência de vida.

Agora calouro de Medicina, Martin construiu sua trajetória profissional no comércio exterior. Foi empresário no ramo de fabricação e importação de equipamentos médico-odontológicos. Sempre circulou próximo da área da saúde, ainda que fora dos hospitais. Aos 50 anos, decidiu mudar tudo outra vez. Foi para os Estados Unidos com a ideia de permanecer três meses. Ficou dez anos. “No início a ideia era ficar 90 dias. Acabei ficando 10 anos… Vivi, trabalhei, estudei Cultura Americana e me tornei Americano”, contou o “sessentão”. Ele voltou ao Brasil com dupla cidadania e uma bagagem ainda maior.

O desejo de cursar Medicina não nasceu na juventude. Surgiu recentemente. De forma natural. “Talvez pelo fato de ter sido fabricante e importador de equipamentos médico-odontológicos, me fez sentir atração por este curso”, explicou. A decisão de tentar o vestibular veio em um momento de reflexão pessoal. Mesmo com experiência profissional e bagagem internacional, Martin passou a enfrentar dificuldades de recolocação no mercado de trabalho. Segundo ele, o preconceito etário pesa. “Tenho sentido muita dificuldade para recolocação profissional nas entrevistas que tenho feito, pois o etarismo, muito forte aqui no Brasil, infelizmente”, afirmou. Para ele, trata-se de um erro do mercado. “As empresas não sabem o que estão perdendo”, alertou.

Foi nesse contexto que surgiram as dúvidas. “Será que estou velho? Será que sou incompetente? Será que estou desatualizado?”, lembrou. A resposta foi prática. “Pensei: vou tomar uma atitude.” E veio o desafio. “Por que não tentar fazer um vestibular difícil como Medicina?”, questionou a si mesmo. A ideia era clara. “Seria uma forma de testar meus conhecimentos, minha experiência e saber se estou atualizado com o mercado e tecnologia hoje em dia”, contou o calouro em entrevista à TRIBUNA.

O vestibular foi feito em silêncio. Martin não contou a amigos nem à família. Apenas a esposa, Mariza, sabia. “Foi ela quem me incentivou a realizar o vestibular”, revelou. A prova, segundo ele, foi encarada com certa tranquilidade. “Já foram tantos desafios e provações na minha vida que era somente mais outro motivo para vencer.” A ansiedade veio depois. “A expectativa de saber se ainda tenho competência para novos desafios era grande.”

Ele não esperava passar logo na primeira tentativa. “Com certeza, não”, admitiu. O motivo era o próprio peso simbólico do processo seletivo. “Criou-se um monstro, o tal do vestibular.” Martin acompanha jovens que fazem cursinhos e treinamentos específicos e, mesmo assim, enfrentam dificuldades. “Imaginei que depois de quase 30 anos do meu último vestibular, eu não conseguiria”, disse.

A surpresa veio com o resultado. O sentimento foi intenso. “Uma mistura de alegria, de capacidade e conhecimento, de orgulho e satisfação”, descreveu. Para o calouro, a aprovação trouxe uma confirmação importante. “Por vezes achamos que estamos desatualizados e ultrapassados”, argumentou.

Sem cursinho, sem rotina rígida de estudos, Martin atribui o desempenho a hábitos construídos ao longo da vida. “Meu preparo veio muito mais de hábitos que mantenho no dia a dia”, afirmou. Leitura constante, notícias, filmes, séries e livros fazem parte da rotina. “Leio em diferentes idiomas e tenho curiosidade por temas variados”, complementou. Na véspera da prova, revisou a redação. “Mais como uma forma de organização mesmo”, falou. Matemática e química foram os maiores desafios, segundo ele. “Nunca foram meu forte”, admitiu.

A família soube depois. Vieram surpresa e orgulho. “Minhas filhas, familiares e netas ficaram muito orgulhosas”, contou. Também vieram as brincadeiras. Se fizer o curso completo, estará com quase 70 anos ao se formar. Mas Martin disse não se incomodar com isso. Sobre dividir a sala de aula com colegas muito mais jovens, ele é direto. “Não teria problema nenhum.” A experiência, segundo ele, já foi vivida outras vezes. “Ao contrário, inclusive alguns daqueles jovens são amigos meus até hoje”, garantiu. Para Martin, a maturidade ajuda. “A maturidade nos traz as experiências de vida, de conhecimento, de aventuras, de erros e acertos. O segredo é nunca parar de buscar conhecimento e ter desafios.”

Se chegar até o fim do curso, pensa em atuar como clínico geral. “Pelo fato da minha idade, gostaria de ser um clínico geral mesmo.” A motivação é clara. “Principalmente ajudar os mais necessitados.” Dinheiro, conforme explicou ele, não é o foco. “Mais como missão. Dinheiro não é tudo”, resumiu. O conselho que deixa aos demais é simples e direto. “Não desistir de se sentir jovem.” Para ele, envelhecer não está ligado à idade. “Quem pensa que já passou da idade, já estará velho”, observou. Martin lembra que hoje a qualidade de vida é diferente e que muitas pessoas seguem vencendo desafios aos 80 ou 90 anos.

A aprovação, segundo o agora calouro de Medicina, representa resistência. “Sou um homem com capacidade. Já tive muitas derrotas, muito sofrimento. Mas continuo em pé e não desisto nunca.” E resume a própria trajetória com um lema que carrega há décadas: “O insucesso é apenas uma oportunidade para recomeçar de novo com mais sabedoria”Henry Ford.

Aos 62 anos, Martin não venceu apenas um vestibular. Provou, para si mesmo, que ainda há muitos caminhos pela frente. Ele não se acha exemplo. Mas é. Sem discurso pronto. Sem fórmula. Apenas alguém que decidiu não parar.

O olhar da instituição

O diretor da Escola de Medicina do Centro Universitário Integrado, Heber Amilcar Martins, afirmou que a aprovação de um aluno de 62 anos traduz o que a instituição defende. Segundo ele, o ensino superior não tem idade. Tem preparo e motivação. “O vestibular avalia conhecimento, raciocínio e argumentação. A idade não entra nessa conta”, disse.

Para o Integrado, trajetórias fora do padrão não são exceção. São enriquecimento. A instituição diz estar preparada para acolher alunos com diferentes perfis, com apoio pedagógico, acompanhamento docente e incentivo ao diálogo entre gerações.

Em um curso concorrido como Medicina, Heber avalia que a aprovação de Martin amplia o debate sobre inclusão e quebra estigmas. “A universidade tem papel social. Precisa mostrar que recomeçar é possível”, observou.

Para ele, alunos mais velhos trazem maturidade, senso crítico e experiência humana. Qualidades essenciais à formação médica. A mensagem, segundo o diretor, é direta: nunca é tarde para aprender. Nem para sonhar. Nem para começar de novo.