Catarina, o mecânico que transformou paixão por motores em títulos no arrancadão

Desde a adolescência, o barulho do motor em alta rotação acompanha a trajetória do mecânico e empresário Valdinez Antônio Piccoli, 56 anos. No meio do automobilismo de arrancada, porém, ele é conhecido simplesmente como Catarina, nome que se tornou referência entre os competidores da modalidade.

A relação com as pistas começou cedo. Catarina conta que, ainda aos 14 anos, já acompanhava provas e buscava espaço nas competições. Décadas depois, continua no topo de um dos cenários mais disputados do arrancadão, integrando a lista dos Top 20, ranking que reúne os pilotos mais rápidos da categoria. No momento, ele ocupa o primeiro lugar.

A competição funciona em formato de desafios periódicos, geralmente realizados a cada um ou dois meses, reunindo os principais pilotos em disputas diretas. Cada evento reúne os 20 melhores colocados da lista, enquanto outros competidores tentam entrar no ranking por meio de uma divisão chamada Shark Tank.

Segundo Catarina, os eventos também atraem participantes de diferentes regiões do país, especialmente nas provas conhecidas como Armagedon, que concentram pilotos de diversos estados. “É um esporte bem evoluído hoje. Vem gente do Brasil inteiro para competir”, afirma.

Além de piloto, Catarina também é o responsável direto pela preparação do próprio carro

A Saveiro de mil cavalos

Nas pistas, Catarina pilota o que ele chama de “fiel escudeira”: uma Saveiro ano 2000 completamente modificada para o arrancadão. O veículo passou por diversas adaptações. Hoje é equipado com tração 4×4, câmbio reforçado e motor Audi de 20 válvulas preparado para altas pressões de turbo. O conjunto chega próximo dos 900 cavalos de potência, podendo atingir cerca de 1.000 cavalos com maior pressão de turbina.

Na pista de 201 metros utilizada nas provas, o desempenho impressiona.
“A gente já passou a 216 quilômetros por horas. Dá para chegar perto de 230”, relata. O tempo para percorrer a distância é igualmente agressivo: cerca de cinco segundos.

Nem sempre, porém, a velocidade termina em vitória. Em uma das etapas de 2025, durante uma disputa decisiva em Maringá, Catarina sofreu um acidente que assustou público, equipe e familiares. Ele estava na corrida que definiria as primeiras posições da etapa quando ocorreu a quebra de um componente mecânico. “Na terceira marcha quebrou o semi-eixo. O carro puxou muito rápido para a esquerda e eu perdi o controle.”

O veículo saiu da pista e entrou em uma área de vegetação. Apesar do susto, Catarina escapou ileso. “Graças a Deus foi só dano material”, resume, ao lembrar que lutava pelo segundo lugar da competição. “Rocei uns 40 metros de capim colonião”, lembrou aos risos, apesar do grande susto.

Nas pistas, Catarina pilota o que ele chama de “fiel escudeira”: uma Saveiro ano 2000 completamente modificada para o arrancadão. O veículo passou por diversas adaptações, entre elas, é equipado com tração 4×4 e tem motor Audi de 20 válvulas preparado para altas pressões de turbo

Além de piloto, Catarina também é o responsável direto pela preparação do próprio carro. Em uma das etapas mais recentes, chegou a reconstruir o motor do veículo às pressas depois de uma falha interna. Segundo ele, uma válvula comprometeu a pressão de óleo e provocou a quebra do motor poucos dias antes da prova. Faltavam apenas dois dias para a competição.

“Refizemos o motor e fomos para a pista. Voltamos campeões”, afirma.
O resultado garantiu ao piloto a terceira coroa conquistada na categoria, título simbólico entregue ao vencedor do ranking. Agora ele tenta defender a posição.
Para ficar definitivamente com o troféu, precisa manter a liderança por três disputas consecutivas. A próxima disputa será em Maringá em data ainda a ser confirmada.

Paixão que custa caro

Apesar dos títulos e da visibilidade nas pistas, Catarina reconhece que competir no arrancadão exige investimento elevado. Os custos incluem pneus especiais, combustível, manutenção constante, reposição de peças, transporte do veículo e deslocamentos para as provas. “O custo é alto. A gente tem alguns patrocinadores, mas ainda é pouco. Mesmo assim a gente vai, porque gosta”, diz.

As competições de arrancada, segundo Catarina, costumam atrair público diverso, reunindo desde crianças até pessoas mais velhas nas arquibancadas.
Para o piloto, o ambiente das pistas é parte do que mantém a motivação ao longo dos anos. “É um ambiente familiar. As pessoas vão para assistir, torcer. É muito gratificante.”

Mesmo sendo conhecido pela velocidade nas pistas, Catarina faz questão de reforçar uma orientação para quem se interessa pelo esporte. Correr, segundo ele, só em lugar apropriado. “Quem gosta deve correr em pista de arrancada. Na rua não pode. O lugar certo é a pista.”

Enquanto prepara o carro para as próximas etapas, o piloto mantém o mesmo objetivo que o acompanha desde a juventude: seguir acelerando e defender a coroa nas pistas do arrancadão brasileiro.

Nem sempre a velocidade termina em vitória. Em uma das etapas de 2025, durante uma disputa decisiva em Maringá, Catarina sofreu um acidente que assustou público, equipe e familiares