Carreira Supermercado revive história com exposição de relíquias preservadas pela família

Para celebrar os 62 anos de história em Campo Mourão, o Carreira Supermercado criou dentro do próprio estabelecimento um espaço dedicado à memória do comércio local. A iniciativa reúne objetos originais, verdadeiras relíquias, utilizadas nas primeiras décadas de funcionamento do empreendimento familiar, fundado em 1964.

A exposição reproduz o antigo “Comercial Carreira”, nome utilizado no início das atividades. O espaço foi montado com itens preservados pela família e também com peças que estavam no acervo do Museu Municipal, emprestadas especialmente para a mostra.

Entre os objetos expostos estão balcão de madeira, balanças antigas de balcão, balança utilizada para pesagem de produtos em sacaria, rádio de madeira, ferro elétrico antigo, pé de ferro para conserto de calçados, bomba de querosene para latas de 20 litros, latão de leite de cinco litros, suporte de papel de embrulho, registradora, duas máquinas de somar, cédulas antigas e uma folha de calendário de 1969.

Na imagem, uma reprodução de como era o Carreira em seus anos iniciais de funcionamento. Acima, Antônio (em memória), um dos fundadores do mercado. A abaixo, da esquerda para a direita, os sócios-proprietários: Marcelo; Carlos; o tio Armindo, um dos fundadores do estabelecimento; e Paulo

Os itens representam a rotina de funcionamento de um comércio nas décadas de 1960 e 1970, período em que praticamente todo o atendimento era feito de forma manual. Segundo o sócio-proprietário do supermercado, Paulo Antônio Marques Carreira, 55 anos, a proposta é aproximar clientes da história do supermercado e também da própria cidade.

“É uma forma de mostrar para as pessoas, principalmente os mais jovens, como era um comércio naquela época, quando tudo era feito manualmente”, afirma.

A trajetória da família no comércio começou em 19 de março de 1964, quando os irmãos Carreira – na época, Antônio (em memória) e Armindo – adquiriram uma pequena venda do senhor Valdomiro Carvalho pelo valor de 700 mil cruzeiros. As atividades iniciaram poucos dias depois, em 25 de março do mesmo ano. Naquele período, a estrutura urbana da cidade ainda era bastante limitada. As ruas próximas ao comércio não eram pavimentadas e o acesso dependia das condições do tempo.

Nos dias de chuva, o barro dificultava a circulação de clientes. Em períodos de estiagem, o problema era a poeira. Dentro do estabelecimento, uma das soluções utilizadas era espalhar pó de serra umedecido no chão, evitando que a poeira levantasse durante a limpeza e atingisse as mercadorias.

O espaço, com objetos originais utilizados nas primeiras décadas de funcionamento do empreendimento familiar, fundado em 1964, foi instalado no interior do mercado e tem chamado a atenção dos clientes

Memória preservada

A ideia de expor objetos históricos não é nova na trajetória do supermercado. Em 2004, quando o empreendimento completou 40 anos, a família organizou uma pequena mostra com equipamentos antigos utilizados nas primeiras décadas. A iniciativa foi bem recebida pelos clientes e acabou inspirando a nova exposição montada neste ano.

Parte das peças utilizadas naquela época havia sido doada ao Museu Municipal de Campo Mourão há cerca de duas décadas e agora retornou temporariamente ao supermercado para compor o espaço histórico. Após o encerramento da exposição, os itens voltarão ao acervo do museu.

Entre os objetos expostos estão balcão de madeira, balanças antigas de balcão, balança utilizada para pesagem de produtos em sacaria, rádio de madeira, ferro elétrico antigo, pé de ferro para conserto de calçados, entre outros

A prateleira utilizada na montagem foi produzida por um marceneiro local, seguindo o estilo dos móveis utilizados no comércio nas décadas passadas. Segundo Paulo Carreira, a exposição tem provocado reações emocionais entre os visitantes. Muitos frequentavam o mercado ainda na infância e hoje retornam acompanhados de filhos e netos. Ao reconhecer objetos da época, acabam recordando experiências do passado. “É emocionante ouvir as histórias que eles contam. Alguns riem, outros se emocionam e até choram lembrando da infância”, relata.

Entre as lembranças mais comentadas, segundo o empresário, está a antiga garrafinha de sodinha, considerada um luxo para muitas famílias da época. Segundo Paulo, conforme os relatos dos clientes, a bebida era consumida apenas em ocasiões especiais, como Páscoa e Natal. Para que durasse mais tempo, muitas pessoas faziam apenas um pequeno furo na tampa.

Outros visitantes apontam para itens como o chuveiro de lata e contam que utilizavam equipamentos semelhantes em casa. “Há também momentos de humor. Ao observar os doces expostos no balcão antigo, alguns clientes brincam imaginando quantas “baratinhas” passavam pela vitrine durante a noite”, diz Paulo, aos risos.

Salão comercial em alvenaria, em 1967, quando os irmãos Antônio e Armindo compraram o terreno em que o estabelecimento está instalado até os dias atuais

História ligada à cidade

Para a família Carreira, alguns objetos possuem valor simbólico especial, principalmente o balcão e a balança utilizados no início das atividades.

Foi nesse espaço que o pai e o tio de Paulo iniciaram o atendimento aos primeiros clientes, estabelecendo relações de confiança que atravessaram gerações. Ao longo das décadas, o supermercado acompanhou o crescimento de Campo Mourão e enfrentou diferentes desafios.

Um dos períodos mais marcantes, diz Paulo, foi a pandemia de Covid-19, quando o controle de público obrigou clientes a aguardarem atendimento do lado de fora do estabelecimento. Mesmo diante das dificuldades, o empreendimento se manteve ativo e consolidado na cidade.

Os irmãos Armindo (à esquerda) e Antônio (em memória), à direita, nos anos iniciais do Carreira Supermercado

Hoje, ao olhar para a trajetória construída ao longo de mais de seis décadas, a família afirma que a história do supermercado se confunde com a própria evolução do município. “Crescemos junto com Campo Mourão. E temos certeza de que a escolha de construir nossa história aqui foi a correta”, afirma Paulo.

Segundo ele, a expectativa é continuar ampliando o atendimento à comunidade. “Com a bênção de Deus, queremos seguir oferecendo sempre o melhor para nossos clientes.”

Família guarda relíquias que eram utilizadas antes do surgimento das novas tecnologias, incluindo a primeira máquina de fazer contas. Ao fundo, um retrato de Antônio