Salão Diplomata reúne gerações após três décadas
Quem entra pela primeira vez no salão Diplomata percebe rapidamente que o tempo ali tem outro ritmo. O ambiente preserva características de outras épocas, com atendimento próximo, conversa fácil e o tradicional cafezinho sempre à disposição dos clientes.
Em meio ao crescimento das barbearias modernas, que apostam em novos conceitos e experiências, o salão dos irmãos segue um caminho diferente, baseado na tradição e no vínculo construído ao longo dos anos com os clientes — uma marca que ajuda a explicar a permanência do negócio ao longo das décadas.
O que começou ainda na década de 1990 se transformou em uma história de persistência e fidelidade em Campo Mourão. O salão Diplomata, comandado pelos irmãos Sergio Luiz Rodrigues, de 65 anos, e Márcio Rodrigues, de 50, completa 31 anos de atividade, mantendo até hoje uma clientela construída ao longo de décadas.

A trajetória teve início em 5 de agosto de 1994, na Rua São Paulo. Anos depois, o salão mudou de endereço e passou a funcionar na Rua Interventor Manoel Ribas, onde permanece até hoje. A mudança, inclusive, virou uma lembrança marcante na história dos irmãos. No dia 30 de abril de 2000, eles atenderam os últimos clientes no antigo endereço e iniciaram a mudança. O trabalho seguiu durante a madrugada e só terminou por volta das 5 horas da manhã de 1º de maio, já com tudo pronto para reabrir e atender novamente no novo espaço. Desde então, nunca mais saíram do local.
Antes mesmo da abertura do salão, a história dos irmãos com a profissão já estava em construção. Sergio relembra que começou a trabalhar ainda em uma relojoaria, no centro da cidade, quando foi incentivado por profissionais de um salão vizinho a ingressar na área.
Sem experiência, ele aceitou o desafio e foi levado para Maringá, onde fez curso em uma escola de cabeleireiros. A rotina era intensa: passava o dia inteiro em formação e, sempre que possível, acompanhava o trabalho prático no salão.
“Eu abria a escolinha e fechava. Ficava o dia inteiro. Às vezes saía 20h, 22h. A gente pegava o máximo possível de aprendizagem”, lembra.
Após cerca de três meses de curso intensivo, Sergio passou a trabalhar com os profissionais que o incentivaram, permanecendo com eles até 1994, quando decidiu abrir o próprio negócio.
Já Márcio teve um caminho diferente até chegar à profissão. Ele trabalhava na agricultura antes de se mudar para Campo Mourão e iniciar a formação como cabeleireiro.
Pouco tempo depois, também seguiu para Maringá, onde passou por mais de uma escola em busca de aperfeiçoamento.

“Ele sempre falava que tinha que buscar experiência em várias escolas para chegar bem na profissão”, conta, referindo-se ao irmão, que o orientou no início da carreira.
A parceria entre os dois se consolidou ao longo dos anos. Apesar das diferenças naturais, nunca houve rompimento.
“Às vezes a gente não concorda com alguma coisa, mas nunca teve problema de separar. Sempre trabalhamos juntos”, afirma Márcio.

Clientes que atravessam gerações
Mais do que o tempo de existência, o que chama atenção é a relação construída com os clientes. Sergio conta que atende pessoas desde antes mesmo da abertura do salão.
“O cliente mais antigo que eu atendo começou em março de 88. E hoje, além dele, tem o filho dele que ele traz junto para cortar cabelo”, relata.
Segundo ele, há diversos clientes que permanecem desde as décadas de 1980 e 1990. Muitos, inclusive, já não moram mais em Campo Mourão, mas mantêm o hábito de retornar ao salão.
“Tem muito cliente que eu atendo daquela época ainda. Uns moram fora, mas sempre vêm nos visitar. A gente pode mudar de endereço e eles acompanham”, afirma.
Além da clientela local, o salão também recebe pessoas que hoje vivem em outros países.
Clientes que se mudaram para lugares como Inglaterra, Espanha, Portugal, Estados Unidos, além de países vizinhos e até o Japão, mantêm o costume de voltar ao salão quando retornam ao Brasil.
Para os irmãos, essa fidelidade representa mais do que uma relação comercial.
“Isso é uma gratificação para nós, cabeleireiros. A pessoa sair da cidade dela para vir até a gente é muito bom”, completa Sergio.
Rotina e movimento
Mesmo após mais de três décadas de funcionamento, o salão segue com movimento constante. Segundo Márcio, não há um controle exato da quantidade de atendimentos, mas a rotina segue ativa todos os dias.
“A gente não para. Começa cedo. Durante o dia às vezes é mais tranquilo, mas no fim da tarde e à noite o movimento aumenta”, explica.
Ele afirma que a clientela é considerada satisfatória e mantém o funcionamento do espaço ao longo dos anos.
O momento mais difícil
Ao longo de mais de três décadas, o período mais desafiador foi durante a pandemia de Covid-19, que atingiu o mundo inteiro e deixou milhões de mortos. Em Campo Mourão, foram mais de 300 vidas perdidas e milhares de casos registrados, com impactos diretos no funcionamento do comércio.
Segundo Márcio, a situação foi inédita na trajetória dos dois.
Mesmo com clientes procurando atendimento, o salão precisou interromper as atividades em determinados períodos e seguir as restrições impostas.
“Foi um momento muito difícil. Os clientes pediam para a gente atender, mas não podia. Nunca tinha acontecido isso na minha vida”, lembra.
Uma história de permanência
Mesmo diante das dificuldades, o salão seguiu em atividade, sustentado principalmente pela relação construída com o público ao longo dos anos.
Hoje, o espaço segue como um ponto tradicional no centro da cidade, reunindo clientes antigos e novos em um ambiente que carrega mais do que serviços: carrega histórias, memórias e vínculos que atravessam gerações.


