Unespar forma primeiros mestrandos africanos em Campo Mourão

Três estudantes africanos concluíram o mestrado no Programa de Pós-Graduação Sociedade e Desenvolvimento (PPGSeD), da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), campus de Campo Mourão. Eles são os primeiros estrangeiros formados pelo programa. Os pesquisadores vieram de Angola e Moçambique em busca de qualificação acadêmica. Ofelia Aida Victorino, de 29 anos, é moçambicana. Albano Dias Malundo, de 28, e João Augusto Domingos, de 29, são angolanos.

O trio desenvolveu pesquisas em áreas ligadas ao desenvolvimento social, com abordagem interdisciplinar. As dissertações foram defendidas entre fevereiro e março deste ano, no campus de Campo Mourão. Durante o período de formação, os estudantes enfrentaram desafios de adaptação cultural, acadêmica e pessoal. Parte do grupo residiu em moradia subsidiada pela universidade, compartilhando espaço com outros estudantes.

Ofelia destacou as dificuldades iniciais, especialmente relacionadas à convivência e às diferenças culturais. “Residir com seis colegas, sendo a única mulher, foi um exercício de resiliência e afirmação”, relatou. Graduada em Contabilidade, ela desenvolveu pesquisa sobre transparência digital no Brasil e em Moçambique. O estudo analisou portais eletrônicos e comparou práticas entre os dois países.

A pesquisadora também apontou diferenças no uso da língua portuguesa como um dos principais obstáculos. “As variações exigiram um esforço constante de adaptação”, afirmou.

Apesar disso, destacou a relação com professores como fator positivo. Segundo ela, o ambiente acadêmico brasileiro é mais acessível e aberto ao diálogo.

João Augusto já atuava na área de população e desenvolvimento antes de ingressar no mestrado. Ele trabalhou com o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), em Angola. No programa, desenvolveu pesquisa sobre políticas de combate à pobreza e à fome em seu país. O trabalho abordou desafios estruturais e estratégias para desenvolvimento sustentável.

Ele apontou como principal desafio a mudança de abordagem. “Tive que deixar de pensar de forma disciplinar para pensar de forma interdisciplinar”, afirmou.

Albano Malundo também destacou as dificuldades iniciais, principalmente relacionadas à adaptação ao clima e à rotina acadêmica. Com o tempo, segundo ele, houve integração com colegas e professores. Sua pesquisa analisou a produção do espaço urbano em Luanda, com foco em áreas periféricas e informais. O estudo combinou diferentes áreas do conhecimento, como Geografia, Economia e Políticas Públicas.

Os três pesquisadores participaram de atividades acadêmicas fora da sala de aula, incluindo eventos e debates em outras cidades. As experiências ampliaram a formação e contribuíram para a construção de redes de contato.

Após a conclusão do mestrado, os estudantes seguem no Brasil. João Augusto cursa doutorado em Demografia, em Belo Horizonte. Ofelia e Albano também planejam continuidade na formação acadêmica antes de retornar aos países de origem.