Campanha chama atenção para saúde mental masculina e alerta para suicídio

O mês junho tem ampliado o debate sobre um tema que ainda encontra resistência entre muitos homens: o cuidado com a saúde mental. A campanha de conscientização voltada ao público masculino chama atenção para um cenário preocupante no Brasil, onde os homens representam a maior parte das mortes por suicídio e continuam sendo os que menos procuram ajuda emocional e psicológica.

Dados de saúde pública apontam que o país registra, em média, cerca de 42 mortes por suicídio por dia. Deste total, aproximadamente 33 envolvem homens e 9 mulheres. Os homens representam cerca de 78% dos casos registrados.

Para o neuropsicólogo Frank Duarte, doutor em Psicologia, os números precisam ser compreendidos para além das estatísticas e analisados também sob o aspecto social e cultural. Segundo ele, ainda existe uma construção social que associa masculinidade à obrigação constante de demonstrar força, controle emocional e capacidade de resolver problemas sem demonstrar fragilidade.

“O homem é colocado em uma posição em que precisa demonstrar capacidade o tempo todo: ser forte, resolver problemas, cuidar da família e não demonstrar fragilidade. Quando ele sente que não pode sofrer, ele também deixa de mostrar que precisa de apoio”, explica.

Na avaliação do especialista, essa lógica contribui para que muitos homens tenham dificuldade de reconhecer o sofrimento emocional e buscar acompanhamento profissional. “Chorar, demonstrar tristeza ou falar que está sofrendo ainda é visto por muitas pessoas como sinal de fraqueza. Isso faz com que muitos homens escondam suas necessidades e tentem enfrentar tudo sozinhos”, destacou.

Os dados nacionais indicam ainda que o impacto é mais expressivo entre algumas faixas etárias. Jovens entre 15 e 29 anos concentram parcela importante dos registros, enquanto entre homens adultos o grupo entre 26 e 35 anos também aparece como período de maior vulnerabilidade.

Prevenção

Para Frank Duarte, o comportamento de resistência em procurar ajuda não aparece apenas na saúde mental, mas também nos cuidados preventivos da saúde física. Ele compara que, historicamente, as mulheres costumam aderir mais aos acompanhamentos preventivos, enquanto muitos homens acabam adiando o cuidado até que os sintomas se tornem mais intensos.

“O homem muitas vezes não cuida da própria saúde física, quem dirá da saúde mental. Existe uma resistência em procurar suporte, e isso aumenta os riscos”, afirma.

De acordo com o neuropsicólogo, o sofrimento emocional nem sempre se manifesta de forma evidente. Em muitos casos, aparecem mudanças graduais de comportamento que acabam sendo percebidas primeiro por pessoas próximas.

“Um dos sinais é quando aquilo que antes dava prazer deixa de fazer sentido. A pessoa para de praticar atividades que gostava, se isola e muda o comportamento”, explica.

Alterações no sono, irritabilidade frequente, afastamento social, perda de interesse por atividades habituais e aumento no consumo de álcool ou outras formas de tentativa de aliviar o sofrimento são sinais que merecem atenção.

Na prática clínica, Frank relata que raramente o homem procura ajuda sozinho. Em muitos casos, familiares acabam funcionando como ponte para o cuidado. “Geralmente quem procura ajuda primeiro é a esposa, o filho, a filha, a mãe ou alguém próximo. É essa rede que percebe que aquele homem mudou e precisa de apoio”, disse.

Campanha

A campanha reforça que falar sobre saúde mental não diminui ninguém e que pedir ajuda é uma atitude de cuidado e prevenção. No Brasil, o atendimento pode ser buscado na rede pública de saúde e nos serviços especializados em saúde mental. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188. Reconhecer limites, conversar sobre sentimentos e aceitar apoio são atitudes que podem abrir espaço para cuidado e proteção da vida.