Orcelina, a costura de uma vida

“Se a vida é o tecido e o amor é a linha, o tempo é a agulha que costura tudo. Não espere o fim 
do carretel para dar o primeiro ponto; a única costura que segura a alma é feita no agora”. 
Suedson Corey

Não seria ofender se alguém rejeitasse o nome Orcelina, soa estranho, antigo.  Mas o que significa Orcelina? A origem é italiana: Força, determinação, personalidade vibrante, repleta de vida, proteção, carinho, solidariedade.

Conheci uma boníssima pessoa que corresponde bem mais ao modo de ser Orcelina, ela sabia viver intensamente com entusiasmo, fé. Inteiramente apegada a família e amigos. Dedicou-se às causas humanitárias, se compadecia com as agruras do próximo. Os mais necessitados encontravam nela todo acolhimento humano e material.

Paulista de Riolândia, nasceu no dia 20 de maio de 1940. Casou-se com Antônio Aldrigue em Floresta, Paraná, quando a região era praticamente inóspita.

Depois se estabeleceram em Engenheiro Beltrão. Seu Antônio foi dono de um movimentado bar na Estação Rodoviária. A esposa Orcelina na madrugada preparava todos os salgadinhos, garantido estufa sempre guarnecida e com muita saída. Entre preparar a massa e carne, numa fritada e outra, depois encaminhava os filhos para a escola, atenta a todos eles: Mário, Carlos, Paulo, Arlete, Tânia e Márcia. Lá deixaram amigos que ela fazia questão de visitá-los.

Janeiro, 1974, dia 18, a família fixa residência em Mamborê, onde a criançada de outrora tinha uma vida tão feliz que hoje sempre rememoram, entrelaçados nas figuras centrais dos amados pais Antônio e Orcelina.

Costureira ágil e criativa, bem mais do que manda o figurino, não foram apenas os filhos a terem roupas feitas por ela. Ensinou muitas mulheres a arte do coser em tecidos novos ou reaproveitar qualquer veste, pois a vida também é de rearranjo, o famoso remendo renovador que vence o puído e o esgarçado.

Fez história com generosidade e empenho ao dirigir a APMI de Mamborê – Associação de Proteção à Maternidade e à Infância. Estimulou centenas de mães ensinando-as a fazer como na parábola, não dando peixe, mas capacitando a pescarem. Orcelina permanentemente estava de coração e braços abertos, com singular sensibilidade pelos despossuídos. Numa de suas buscas por apoio, encontrou no querido e saudoso João Machnic a doação do terreno destinado a citada entidade. Antes, os cursos para aquelas mulheres eram feitos na garagem da casa dela. Orcelina alinhavava a vida de cada uma e em relação aos filhos, vestindo a todos de esperança e dignidade. Não faltam testemunhos dessa época, gratidão, reconhecimento. Ela atribui as abundantes bênçãos, divinas e humanas.

Enviuvou aos 42 anos, 1982. O coração do marido Antônio não resistiu, ele  um incentivador das causas sociais que Orcelina promovia, esposo também  fundamental na criação dos filhos. Mais tarde outra perda, o filho Carlos, enfarto. Mas a vida tinha que prosseguir. Os demais filhos foram crescendo, constituindo famílias passando a morar noutros lugares.

Duas filhas, Arlete e Márcia, foram morar na Itália. Orcelina foi visitá-las, então foi ficando, ficando, permanecera por lá em parte para superar a perda do esposo, vindo a residir também, sem abrir mão da nacionalidade brasileira, país que não deixou de visitar para rever os filhos e amigos. Em 2002, na italiana Florença conheceu Ércole Giannattasio, companheiro por uma década Se completaram tanto que ele se apaixonou pelo Brasil.

É provável que a chamada última vez passou a ter feições humanas e espirituais  marcantes. Ao ser informada com um ano de antecedência pela filha Tânia sobre o casamento com este escrevinhador, Orcelina, transbordada pela incontida felicidade, o regresso dela a Campo Mourão para o enlace começou pela costura do vestido da noiva, da daminha e dos pajens que integrariam a cerimônia, além de outras vestes engalanadas para a cerimônia. No enlace celebrado com os filhos, recebi dela bênçãos e confiança. Ela afirmara ser um dos dias mais felizes da vida dela! Também éramos nós embevecidos pelo entrelaçar daquelas vidas lá presentes.

Agora o silêncio da máquina de costura, tesoura, carretel, linhas, alfinetes,  dedal, botões, tecidos, fitas…

A ausência da voz, olhos atentos de ternura. Da companhia gentil, diálogo afável, generosa e contemplativa para com todos os seus.

Ao chamá-la, carecia de um anjo, dessa vez Deus não escreveu certo por linhas tortas, mas ouso dizer, escreveu certo pelas linhas corretas, a alinhavar e costurar a vida de todos, Orcelina idem. Ela chegou no infinito azul, desde maio, 16, 86 anos.

Fases de Fazer Frases (I)
A morte não é definitiva para quem fica.

Fases de Fazer Frases (II)
Juntar ou separar as tristezas não afetam a grandeza do sofrimento.

Olhos, Vistos do Cotidiano (I)
Na margem da rodovia BR 272, próximo ao perímetro urbano, o posto de combustíveis homenageia a história, Pinhalzinho, antes o nome de Janiópolis.

Farpas e Ferpas
O dilema é lema da dúvida?

Sinal Amarelo
Fale com o tempo, não com o relógio.

Trecho e Trecho
“A paz não tem preço, tem valor”. [Wilson Alberto].
“A felicidade só cria recordações”. [Honoré de Balzac].

Reminiscências em Preto e Branco – Doutor Celso, médico de coração
“Entre as artes, a medicina, por sua utilidade eminente, deve sempre ocupar o lugar mais alto”. [Henry Thomas Buckle].

Generoso coração, um dia diminui o ritmo até parar definitivamente, a repousar até o transcender, superior ao tempo. Celso Ramos era mineiro, mas ao chegar aqui, para exercer a medicina, logo mourãoenseou-se, criou  vínculos profissionais, familiares e de amizade. Atuou profissionalmente com dignidade assistindo aos  pacientes, tratamento zeloso e humanizado na rede de saúde pública ou no consultório particular, por mais de meio século.

Além dos colegas médicos que sempre o respeitaram e tinham admiração, é nos pacientes que, no legítimo reconhecimento ganhou o carinhoso apelido: limpa fila. Desde o dia 17 um legado de exemplos inspiradores, a bater, pulsar em cada grato coração, a ele, vida encerrada aos 77 anos.

José Eugênio Maciel | [email protected]

* As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do jornal