Há 38 anos, Maciel transforma memórias e reflexões em tradição na ‘Coluna do Maciel’

Há quase quatro décadas, um espaço reservado nas páginas do Jornal Tribuna do Interior se tornou ponto de encontro entre o escritor e o leitor. É ali que, semanalmente, o sociólogo, advogado e professor José Eugênio Maciel compartilha reflexões sobre a vida, a cultura, a história e o cotidiano de Campo Mourão na tão conhecida “Coluna do Maciel”. Nesta sexta-feira (10), ele alcança uma marca importante: 38 anos ininterruptos assinando sua coluna, escrita de forma voluntária para o jornal.

Quando começou a escrever, Maciel não imaginava que chegaria tão longe. Nem mesmo quando comemorou a centésima publicação, ainda nos primeiros anos, acreditava que um dia estaria prestes a completar quatro décadas de textos. “Eu não imaginava chegar tão longe. Lembro de um texto em que fazia referência à centésima coluna. Naquela época, para mim, já era muito tempo escrevendo”, recordou. Ao longo dos anos, a coluna deixou de ser apenas um espaço de opinião para se transformar em uma tradição entre os leitores. O próprio autor reconhece que o tempo consolidou esse vínculo. “Posso dizer que ela, gostem ou não, se tornou uma espécie de tradição. São quase quatro décadas, uma marca que não se encontra com facilidade nos jornais brasileiros.”

Em 38 anos de publicações, alguns textos ganharam vida muito além das páginas do jornal. Houve artigos que se transformaram em tese acadêmica, outros inspiraram uma peça de teatro e também homenagens aos escritores mourãoenses, tendo a própria coluna como referência. Mas uma das histórias que mais marcaram Maciel nasceu de um encontro inesperado. Numa manhã de garoa fina, próximo ao Pronto Socorro de Campo Mourão, ele encontrou um bilhete caído na calçada. Era uma declaração de amor, repleta de sentimentos e de um pedido de compreensão, mas sem assinatura. A cena inspirou uma crônica. Dias depois da publicação, recebeu um telefonema. A autora da carta agradecia. Segundo ela, a pessoa a quem o bilhete era destinado havia lido a crônica e entendido que aquelas palavras eram para ela. A história teve um final feliz. “Não perguntei quem eram as pessoas. Preferi evitar qualquer constrangimento. A ligação terminou apenas com o agradecimento”, contou.

Outro texto que provocou, recorda, foi publicado durante o período mais crítico da pandemia de Covid-19. Na ocasião, Maciel defendeu o fechamento do comércio e criticou um documento divulgado pela Acicam contrário às medidas adotadas pelo então prefeito Tauillo Tezelli. Embora tenha recebido críticas, também foi procurado por diversas pessoas que manifestaram apoio ao posicionamento. “Muitos concordaram com o texto, mas disseram isso de forma reservada, porque temiam represálias ou envolvimento em polêmicas”, relembrou.

Depois de centenas de colunas publicadas, Maciel afirma que o maior desafio nunca deixou de ser o mesmo: começar um novo texto. Para ele, cada publicação exige responsabilidade, reflexão e respeito ao leitor. “Um novo texto é um texto novo. Exige cuidado para argumentar, expor ideias e examinar a própria consciência antes de preencher esse espaço. O tempo amadurece qualquer pessoa, mas é preciso refletir e dialogar sempre com o leitor, respeitando-o”, resumiu.

Se depender dos planos do colunista, a trajetória ainda está longe do fim. Maciel pretende chegar aos 40 anos de coluna, coincidindo com os 60 anos de fundação da Tribuna do Interior. Até lá, outra novidade já está em andamento: o lançamento de um livro reunindo algumas das principais crônicas publicadas ao longo da trajetória. A seleção inicial dos textos foi realizada pelo historiador Jair Elias dos Santos e ainda receberá atualizações. Segundo o autor, os próprios leitores poderão sugerir quais crônicas gostariam de ver na obra.

Para o diretor do jornal, Nery José Thomé, a permanência de Maciel, como é conhecido, por quase quatro décadas representa um patrimônio do jornalismo regional. “É um privilégio disponibilizar nas páginas e na plataforma digital do jornal a ‘Coluna do Maciel’. Uma enciclopédia viva da história de Campo Mourão. Sua leitura sempre engrandece quem tem a oportunidade de acompanhá-la. É um privilégio tê-lo como colaborador voluntário e, mais ainda, poder considerá-lo amigo”, destacou.