Muito além de quem manda: quando o poder diminui pessoas

Quando pensamos em relações de poder, é comum imaginar grandes estruturas: governos, empresas, instituições. Mas talvez o poder seja muito mais presente, e mais sutil, do que isso. Michel Foucault, filósofo e pensador francês, nos ajuda a perceber, que o poder não está apenas em quem manda. Ele circula. Está nas relações, nos discursos, nas regras, nos silêncios e nas pequenas escolhas que fazemos todos os dias.

E talvez seja justamente aí que apareçam as chamadas “síndromes dos pequenos poderes”. Não necessariamente como grandes abusos, mas naquela necessidade cotidiana de controlar, de impor, de mostrar autoridade, de deixar claro quem sabe mais, quem decide, quem merece ser ouvido. São pequenos poderes que, isoladamente, podem parecer banais, mas que, repetidos diariamente, moldam relações e ambientes.

No mundo do trabalho, isso aparece de muitas formas. Está no chefe que confunde liderança com obediência. No colega que acredita que sua escolaridade lhe dá mais razão. Na pessoa que usa a idade como argumento definitivo. No profissional que entende que seus muitos anos de empresa lhe conferem uma espécie de autoridade permanente. E também em quem transforma cargo, salário, conhecimento ou proximidade com a liderança em instrumentos para estabelecer uma hierarquia que nem sempre existe no organograma.

Gestão de pessoas, nesse sentido, deveria olhar para além dos processos. RH não deveria ser apenas o lugar que administra regras, políticas e conflitos depois que eles acontecem. Existe uma dimensão humana nas relações de poder que precisa ser percebida antes que vire cultura. Afinal, uma organização também ensina, todos os dias, quais comportamentos são tolerados, recompensados ou silenciosamente aceitos.

Mas talvez o mais interessante seja perceber que isso não acontece apenas dentro das empresas.

Nas relações pessoais, também somos capazes de criar pequenas estruturas de poder. Existem amizades em que uma pessoa precisa sempre estar certa, relacionamentos em que o afeto vem acompanhado de controle, famílias em que idade ou condição financeira determinam quem pode falar e quem deve apenas ouvir. Há relações em que a culpa é usada como moeda, o silêncio como punição e a fragilidade do outro como instrumento de controle.

São relações que podem se tornar tóxicas não necessariamente por causa de um grande acontecimento, mas pela repetição de pequenas coisas: “você não entende”, “eu sei mais”, “você precisa de mim”, “depois de tudo que fiz por você”, “aqui quem decide sou eu”. Pequenas frases, pequenas imposições, pequenas concessões, até que, sem perceber (será mesmo?), uma pessoa já ocupa quase todo o espaço e a outra aprendeu a diminuir o próprio.

Talvez seja aqui que caiba uma referência quase inevitável ao Homem-Aranha: “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. A frase fala de super-heróis, mas também pode servir para nossas relações mais comuns. Não precisamos ter superpoderes para exercer influência sobre alguém. Basta ocupar uma posição de liderança, ter mais conhecimento, dinheiro, experiência, idade, prestígio ou simplesmente perceber que o outro se importa conosco.

O desafio, portanto, não é imaginar uma sociedade sem relações de poder. Isso provavelmente não existe. O desafio é reconhecer os poderes que exercemos e assumir responsabilidade por eles.

Talvez uma boa gestão de pessoas comece quando entendemos que liderança não é mandar, experiência não é superioridade, conhecimento não é licença para diminuir o outro e afeto não deveria ser instrumento de controle.

No trabalho e na vida, antes de perguntar quem tem poder, talvez seja mais importante perguntar: o que estamos fazendo com o poder que temos?

Rosinaldo Nunes Cardoso é administrador, especialista em Gestão de Pessoas e Inteligência Competitiva, mestre em Administração com foco em Empreendedorismo, Inovação e Mercado. Atualmente, é Diretor de Pesquisa e Gestão do IPPLAN e Professor do curso de Administração da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR)