Aos 79 anos, Campo Mourão revisita a transformação que veio do campo

Campo Mourão completa 79 anos de emancipação política neste sábado (10), em um ano que também marca meio século de um acontecimento ligado à sua formação econômica: o lançamento do Plano Nacional de Conservação de Solos. Em 1976, o município sediou a apresentação de uma política nacional voltada à preservação da terra, três anos depois de seus primeiros produtores começarem a adotar o plantio direto.

A coincidência das datas permite olhar para a história da cidade a partir de uma mudança que aconteceu nas lavouras. Ao substituir o preparo convencional do solo pela semeadura sobre a palha, agricultores da região participaram da introdução de um sistema que se espalharia pelo país. Campo Mourão foi o segundo município brasileiro a adotar a técnica, depois de Rolândia.

A mudança alterou a relação dos produtores com a terra. A manutenção da cobertura vegetal ajudou a reduzir a erosão e a conservar o solo, enfrentando um problema que comprometia as lavouras. Mais do que incorporar máquinas ou ampliar áreas de cultivo, era preciso encontrar uma maneira de continuar produzindo sem perder, a cada chuva, parte do terreno preparado para a próxima safra.

O lançamento do plano nacional, em 1976, deu projeção a essa experiência. Cinquenta anos depois, o episódio ajuda a compreender o lugar da agricultura na trajetória mourãoense e sua ligação com a cidade, onde a atividade rural se conecta ao comércio, aos serviços e ao trabalho de diferentes gerações.

O município criado em 1947 tem uma história anterior à emancipação. As informações históricas apresentadas à TRIBUNA pelo historiador Jair Elias situam sua formação em um território ocupado por povos indígenas muito antes das expedições e da chegada das famílias que constituíram o núcleo urbano.

Entre o fim de 1769 e o início de 1770, uma expedição sob o comando geral de Afonso Botelho de Sampaio e Sousa reconheceu os campos da região. O nome “Campos do Mourão” homenageava Dom Luís António de Sousa Botelho Mourão, o Morgado de Mateus, então governador da Capitania de São Paulo, à qual o território paranaense estava subordinado.

Mais de um século depois, em 1903, José Luiz Pereira, seus irmãos e familiares se estabeleceram na região. Outras famílias chegaram nas décadas seguintes, ampliando o núcleo de moradores e dando início à formação do povoado que se tornaria a cidade.

Esse processo também envolveu decisões sobre onde construir. Conforme o histórico apresentado por Jair Elias, houve propostas e divergências sobre a localização da sede do patrimônio. Em 1924, Edmundo Mercer propôs um projeto próximo ao Rio 119, descartado pela proximidade com o curso d’água.

A escolha que orientou o traçado urbano recaiu sobre a área da atual Praça Getúlio Vargas, definida pelo engenheiro Sady Silva. Ao topógrafo polonês Eugênio Zaleski coube desenhar o arruamento, com ruas largas e um traçado em grelha. A organização daquele núcleo estabeleceu a base sobre a qual a cidade cresceria.

Da emancipação à mudança nas lavouras

Campo Mourão se emancipou de Pitanga pela Lei Estadual nº 2, de 10 de outubro de 1947. A instalação do município ocorreu em 5 de dezembro daquele ano, com a posse do primeiro prefeito eleito, Pedro Viriato de Souza Filho, e da primeira legislatura da Câmara Municipal.

Nas décadas seguintes, a agricultura passaria por mudanças que se tornariam parte da história local. A adoção do plantio direto, iniciada em 1973, colocou produtores mourãoenses entre os pioneiros brasileiros de uma técnica que exigia abandonar práticas até então habituais no preparo da terra. O avanço foi gradual. No fim da década de 1970, a região já registrava cerca de 10 mil hectares cultivados no sistema. Em 1984, eram aproximadamente 60 mil hectares, segundo o levantamento histórico apresentado por Jair Elias. “Ao completar 79 anos, Campo Mourão reúne essas duas trajetórias: a construção de uma cidade e a transformação do trabalho no campo”, avaliou o historiador.