Carreira Supermercado: um endereço que viu Campo Mourão crescer
Carreira Supermercado está instalado há 62 anos na Avenida Goioerê, acompanhou parte das transformações de Campo Mourão, que completa 79 anos no próximo dia 10 de outubro. Desde a pequena mercearia aberta em 1964, a família viu o asfalto avançar, os bairros crescerem e os hábitos de consumo mudarem, enquanto adaptava o estabelecimento para permanecer no mesmo trecho da cidade.
Quando os irmãos Antônio (em memória) e Armindo Marques Carreira iniciaram o negócio, Campo Mourão ainda tinha infraestrutura limitada. Segundo o sócio-proprietário Paulo Carreira, filho de Antônio, o asfalto se concentrava na área central, principalmente na Avenida Capitão Índio Bandeira. Fora desse trecho, predominavam as ruas de terra. “A cidade estava começando. A infraestrutura era precária. Com o passar dos anos, o asfalto foi chegando aos bairros, mas isso aconteceu aos poucos”, recorda.
Na época, os serviços de pavimentação eram diferentes dos atuais. Paulo lembra do chamado “burro preto”, um tanque de piche puxado por um trator e utilizado na aplicação do material que antecedia a colocação das pedras e do pedrisco. As ruas de chão batido, que se transformavam em lama nos dias de chuva, deram lugar à malha urbana atual.

O supermercado começou em um imóvel de madeira alugado, com cerca de 60 metros quadrados. Em 1967, os irmãos compraram um terreno a menos de 100 metros dali e construíram o primeiro prédio próprio, com 120 metros quadrados, ampliado gradualmente nas décadas seguintes.
Nos primeiros anos, o cliente entregava a lista de compras e os produtos eram separados pelos comerciantes. No final da década de 1970, o balcão deu lugar ao autosserviço e aos primeiros caixas registradores. O consumidor passou a circular pela loja e escolher diretamente as mercadorias. “A compra ficou mais rápida. As pessoas se sentiam bem porque elas mesmas escolhiam os produtos”, conta Paulo.
Depois vieram o código de barras, as balanças eletrônicas e os sistemas informatizados. O caderno utilizado para consultar preços foi substituído pelo computador. Atualmente, o supermercado possui 2 mil metros quadrados de área de vendas e emprega diretamente entre 90 e 100 trabalhadores. Apesar da expansão, a família optou por concentrar a operação em uma única loja. “Achamos melhor ter uma loja bem cuidada do que três mal administradas”, resume o empresário.
Paulo revelou à TRIBUNA que existe um projeto para reposicionar o supermercado em um terreno próximo, na Rua Pitanga, ao lado da estrutura atual. A família, porém, ainda avalia o momento econômico antes de executar o investimento. Não há prazo definido para a mudança.
Transformações
As transformações da cidade também alteraram a relação do supermercado com os clientes da área rural. No passado, muitos produtores chegavam a Campo Mourão de carroça, levavam arroz e feijão às cerealistas e aproveitavam a viagem para comprar mantimentos. As embalagens também eram diferentes. Produtos podiam ser embrulhados em jornal, enquanto sacos de açúcar eram reutilizados para transportar as compras.
Em 1967, Antônio adquiriu uma picape com tração nas quatro rodas para fazer entregas na zona rural. O serviço atendia famílias que enfrentavam dificuldades de deslocamento e nem sempre possuíam veículo próprio. Décadas depois, a realidade se inverteu. A maior parte dos clientes passou a chegar de carro, e o estacionamento se tornou necessário para o funcionamento do comércio.
Inflação levou comerciante à delegacia
Entre os períodos mais difíceis enfrentados pela empresa, Paulo aponta o Plano Cruzado, durante o governo José Sarney. Com a inflação e o controle de preços, os comerciantes precisavam seguir tabelas divulgadas pelo governo.
As alterações constantes e as diferenças entre produtos semelhantes geravam discussões. Paulo recorda que uma divergência envolvendo o preço de um sabonete levou representantes do supermercado à delegacia. Segundo ele, a empresa atravessou aquele período controlando os investimentos e evitando comprometer recursos além de sua capacidade financeira.
A maior mudança para a família ocorreu em 1990, com a morte de Antônio Marques Carreira, aos 52 anos, após um infarto. Paulo tinha 20 anos e já trabalhava no supermercado. Com a morte do pai, deixou os estudos para assumir novas responsabilidades ao lado dos irmãos Carlos e Marcelo.
“A falta foi muito grande. Meu pai e meu tio começaram juntos e caminhavam firmes. Mas a vida continuou. O pai se foi e a gente assumiu”, diz, ao lamentar a perda prematura. Paulo comentou que a família não cogitou encerrar as atividades. A decisão foi dar continuidade ao que Antônio havia iniciado e buscar a expansão gradual do negócio.
Atualmente, integrantes da terceira geração já participam da rotina da empresa. Além de Paulo e dos irmãos, trabalham no supermercado a esposa dele, Sandra, o filho Pedro e o sobrinho Victor. Essa relação também atravessou gerações. Paulo conta que há famílias nas quais os avós e os pais faziam compras no Carreira e, hoje, filhos, netos e até bisnetos continuam frequentando o supermercado. Muitos clientes se tornaram amigos e são reconhecidos pelo nome quando chegam à loja. “Temos clientes de três e quatro gerações. O pai e o avô já compravam conosco e, agora, vêm os filhos, os netos e os bisnetos”, relata.
Para Paulo, essa proximidade ajuda a explicar como um supermercado familiar conseguiu permanecer no mercado mesmo após a chegada das grandes redes. A presença dos proprietários na rotina da loja permite que pedidos, dúvidas e sugestões sejam tratados diretamente com a família. “A família sempre esteve na frente. Quando o cliente quer alguma coisa, ele fala diretamente com o proprietário. A maioria dos clientes a gente conhece pelo nome e pelo sobrenome”, afirma.
Duas histórias no mesmo caminho
O Carreira iniciou as atividades quando Campo Mourão tinha 16 anos de emancipação. Desde então, o município cresceu, ampliou a infraestrutura e modificou seu perfil econômico, educacional e urbano. A família acompanhou esse processo praticamente do mesmo ponto da Avenida Goioerê. O pequeno imóvel de madeira desapareceu, o balcão deu lugar aos corredores e as carroças foram substituídas pelos automóveis que hoje ocupam o estacionamento.
Para Paulo, a permanência da empresa só foi possível pelo relacionamento mantido com os moradores. “Temos que agradecer às famílias mourãoenses que sempre nos prestigiaram. Vimos Campo Mourão crescer desde as ruas de terra, quando a chuva trazia lama e barro, até a cidade urbanizada de hoje”, afirma.
Ao completar 79 anos, Campo Mourão reúne histórias de famílias que participaram de sua formação e escolheram continuar investindo no município. A trajetória do Carreira é uma delas: começou em uma cidade com poucas ruas asfaltadas, atravessou mudanças econômicas e tecnológicas e chegou à terceira geração no mesmo trecho da Avenida Goioerê.






