Transição do analógico para o digital transforma o mundo dos jogos, mas não reduz a sua capacidade de nos trazer diversão

Até algumas décadas atrás, muitas atividades do nosso cotidiano ainda eram feitas de maneira quase completamente analógica. O pagamento de uma conta no banco exigia a ida até um caixa, levando consigo dinheiro em espécie para realizar a transação junto com um funcionário do estabelecimento, que depois teria que deixar o dinheiro guardado em um cofre. Esse dinheiro seria posteriormente depositado na conta do serviço que recebeu o pagamento ou transferido para outro banco. E mesmo quando a operação envolvia cheques, a necessidade do dinheiro físico ainda existia.

Muito foi sendo modificado a partir da popularização dos computadores e da internet. Atividades que antes eram completamente físicas têm revertido o curso e se tornado praticamente 100% digitais. A necessidade de ir até caixas eletrônicos para carregar quantias em espécie na carteira se reduz cada vez mais com a criação de serviços como o Pix para executar pagamentos de forma instantânea – uma mudança tremenda em comparação às práticas bancárias descritas anteriormente.

Claro que não é só o mundo de pagamentos e de bancos que tem visto tal mudança. O mesmo se vê no âmbito de diversões e distrações do nosso dia-a-dia. Fitas cassete, DVDs e outras mídias físicas perderam espaço para o streaming de filmes e séries. Rádios AM e FM ainda são relevantes, mas não são páreo para o streaming de músicas. E o mesmo se vê com jogos dos mais diversos âmbitos, desde os jogos de tabuleiro até os jogos de videogame, que também ganharam fluidez a partir da transição do meio analógico para o digital.

Jogos outrora analógicos são agora dominados pelas contrapartes digitais

O xadrez é um dos jogos mais conhecidos do mundo e também um dos mais antigos. Enquanto sua origem é disputada, sabe-se que já existiam “ancestrais” do xadrez na China no século II a.C. Mas é bem provável que a sua forma moderna tenha sido primeiro desenvolvida no Irã antes de se alastrar pelo resto do continente até chegar na Europa no século X.

A complexidade do jogo é um dos principais fatores que o mantém vivo até hoje e que faz com que sua comunidade de jogadores continue crescendo. Plataformas como Chess.com, que oferece gratuitamente aulas, áreas de prática e torneios para milhões de jogadores mundo afora, eliminando assim a necessidade de se ter um tabuleiro físico para que as regras do jogo sejam aprendidas, colaboram muito para que mais pessoas se interessem pela lendária modalidade.

Outra forma de jogo que também acabou ganhando formato digital em tempos recentes é o famigerado jogo do bicho. O jogo criado no antigo zoológico do Rio de Janeiro, que antes se localizava em Vila Isabel, tem hoje contrapartes digitais em uma série de plataformas online, como a Brazino777 e a Betmotion. Os jogos de loteria das desenvolvedoras Bgaming e Talismã combinam números e animais, mantendo-se assim fidedignos ao formato original do conhecido jogo carioca.

A transformação digital envolve também os jogos de cartas usando os baralhos franceses que se espalharam pelo mundo junto com as navegações europeias a partir do Oceano Atlântico. Enquanto ainda podemos encontrar pessoas jogando jogos como buraco e truco nas praças do Brasil, é bem fácil encontrar contrapartes online para estes mesmo jogos e muitas outras modalidades de cartas de baralho.

O mesmo se vê com os jogos de cartas colecionáveis. Recentemente, viu-se uma “febre” com cartas físicas de Pokémon, com streamers estadunidenses gastando quantias exorbitantes para ter a chance de conseguir cartas muito raras do “trading card game”. Entretanto, boa parte dos jogadores deste formato de jogo se encontram hoje em plataformas digitais – caso de Magic: The Gathering, com o jogo MTG Arena reunindo centenas de milhares de jogadores batalhando frente a frente regularmente.

Até os videogames, que são considerados o grande símbolo da transição definitiva de mídias do analógico para o digital, passaram por um processo semelhante. Os jogos que antes eram acessíveis apenas por cartuchos e discos, incorrendo em grandes custos para os donos de consoles, podem ser encontrados em lojas digitais oferecidas pelas produtoras destes jogos. Elimina-se, assim, a necessidade de guardar estojos e caixas com vários cartuchos e discos, algo que era prática comum no Brasil até a década passada.

Vê-se, então, que a transição do analógico para o digital envolve muitas esferas da nossa vida cotidiana, muitas vezes sem nem percebermos. E essa falta de percepção, no entanto, não é algo ruim. É, na realidade, sinal de que tais transformações estão reduzindo atritos e facilitando nosso percurso pelo mundo.