O piano silencia. A Dirce toca
A vida é um piano. Teclas brancas representam a felicidade e as pretas a angústia.
Com o passar do tempo você percebe que as teclas pretas também fazem música
Nicholas Sparks – A última música
A última vez que nos encontramos o sorriso era mais intenso que o habitual. Nem careceu de lhe indagar o motivo, a senhora logo disse, eu tenho um piano, estou feliz por poder tocar novamente! Nascida no dia sete de outubro de 1939, no último dia sete de dezembro acenou o último adeus, aos 74 anos. Dirce Brisola Galeano foi apaixonada pela vida, com todos os percalços, e não foram poucos. Amou os filhos Lílian, Ana e Carlos Alberto como maestrina notável. Mantinha amizades sólidas,solidária, compreensível, da palavra franca e leal.
A tia Dirce era um barato, para usar uma expressão dela, autêntica, como no jeito único de fumar (aliás, na casa dos meus pais, só ela tinha tal concessão) e não precisava de cinzeiro, improvisava por querer o pires onde punha a xícara de café bem forte e quente, bebia muitos goles durante a prosa naquelas tardes de domingo. Me penitencio, tia, por vezes achava o seu papo furado, (me valho de tal expressão que a senhora usava com frequência). Só com o tempo quando a minha vastíssima ignorância amenizou o suficiente para compreender que a senhora estava em uma outra dimensão, a constelação dos que creem na materialidade, no que é palpável, terreno, assim como a convicção no sobrenatural, elevada espiritualidade. E foi com o passar dos anos que fui capaz de compreendê-la, sem lhe fazer favor. Talvez, como dizia a minha mãe, irmã da senhora, (bela sempre foi a amizade de ambas) eu tinha que sair da sala porque tem conversa que criança de pés descalços não podem escutar, e eu nunca fui de ouvir atrás da porta. Tem um fato que sempre atraía atenção de meus irmãos, a tia Dirce me chamava de Dodé, embora o meu apelido seja Gudé. Nunca reclamei, era engraçado e certamente não afetava o carinho por por todos nós.
Passando pela rua onde a senhora morou por muitos anos em Campo Mourão, tem ainda aquela casa de madeira. Ela está em ruína. Como o tempo maltrata a gente. Reduzi a velocidade do automóvel, lembrança veio, a casa com o piano a tocar, a senhora ensinando ou observando atentamente suas alunas. O zelo e a dedicação marcaram a sua trajetória como professora de piano. Certa vez, a senhora ensinava a uma delas sobre Mozart, contando-lhe a vida do grande músico e as circunstâncias determinantes daquela composição. Tia Dirce, como os seus olhos brilhavam quando o tema era a música, clássica, popular, a boa canção, tudo imediatamente propiciava uma atmosfera de sons que encantam à celebração da vida. Em uma das visitas à casa da minha mãe, falamos sobre Villa-Lobos, Carlos Gomes, Beethoven, Piazolla, Ernesto Nazareth…
A felicidade da tia Dirce ficou novamente incontida e envolvente – eu apenas a vi de longe quando terminara o espetáculo – do grande mestre Arthur Moreira Lima, ocorrido em 2010 e que me levou a escrever um Artigo aqui, (15.11) intitulado Um piano deixando rastro, causou um comentário elogioso da senhora, o trecho que mencionara transcrevo abaixo, agora em vossa homenagem, agora no descanso perene. Agora quando tudo se finda, menos a lembrança de ti. Agora e sempre querida tia:
Após um dia inteiro de calor intenso, a noite veio com o céu azul tisnado dando sinais que iria chover. A temperadora da última quarta-feira caia, primeiramente com a brisa suave e em seguida ventos trazendo um friozinho saudável. Rapidamente e antes do horário previsto para iniciar o espetáculo os lugares estavam tomados. A ansiedade do público era mesclada pela aguardada e paciente espera. (…)… mas felizmente o que caiu foi somente a temperatura.
Além do ar livre, o local tinha um clima de educação e de cultura pulsantes e entrelaçadas, a avenida não tinha carros, ela era para aquela noite, transformada em chão destinado às pessoas que ali se reuniam. Cercadas por elas mesmas, circundadas pelo prédio da nossa Faculdade de um lado e de outro a Casa da Cultura e o Teatro Municipal, o local da apresentação de Arthur Moreira Lima não poderia ser melhor. (…).
Fases de Fazer Frases
Sofrer pelos outros é um consolo que atenua a dor deles.
Olhos, Vistos do Cotidiano (I)
Às pressas, a correria é sinônimo de atropelos para a conclusão dos estádios que sediarão os jogos da Copa. O ministro dos esportes Aldo Rebelo fez uma comparação brilhante (ao menos para ele), atraso é normal! É comum a noiva se atrasar e o casamento acontecer sem problemas! – enfatizou o ministro. A ilustrativa comparação não resistiu a contra-argumentação e foi dito: a noiva atrasa, mas a igreja já está construída faz tempo.
Olhos, Vistos do Cotidiano (II)
Em proveito do texto anterior, cabe lembrar antiga comparação. Quando duas pessoas por se pareceram muito, a pergunta é se seriam irmãos: É que o meu pai viajava muito! Aí tem a réplica: Enquanto o seu pai viajava, a sua mãe ficava sozinha…!
Reminiscências em Preto e Branco (I)
Bonita homenagem ao tio Miguel, um homem de muitos amigos e muitas histórias, histórias lindas, por sinal. Um homem que revela a sua vida através das pessoas. Basta dizer, Tio Miguel… e a reticência se faz colorida com o que salta da língua e dos olhos de quem a vai expondo.’Mas tudo passa, tudo passará’. Exceto os frutos que aqui plantamos e deixamos em forma de colheita farta aos que ficam. É o dizer do poeta mourãoense Oswaldoir Capeloto, alusão ao Artigo anterior, (Miguel, o tio de todos) homenagem Miguel Antunes de Oliveira.
Reminiscências em Preto e Branco (II)
No tradicional Cartório do Valdemar, uma máquina de escrever contrasta com a moderna luminosidade da digitação. Ela está à mão, como no passado, a passar pelos dedos que datilografam.
