Seguro, a jaez do Juarez

A despedida é um momento de tristeza em que corações

 se preparam para viver uma saudade.

(anônimo)

                 A morte é a escuridão no lugar da luz. É a última despedida. O fim da caminhada. O findar de um dia sem que o próximo venha a existir, jamais. É recolher-se com a consequente desintegração de tudo no plano terreno. A morte colocada essencialmente no infinito, saudade.

                Entretanto, a morte não é completamente ela em si como ruptura e vazio impreenchíveis. O legado é um todo do que foi vivido e compartilhado. Como a semente que desaparece para ceder o lugar do fruto. O fim da existência humana se torna retrato, e, mais do que ele, passa a  constituir a imagem vívida daquele que se foi, representada pelas realizações encetadas, a demonstrar que tudo tem significado, inclusive a morte como vida que não se pode e não se deseja esquecer de alguém importante, a nos fazer reviver, ainda que sem a presença companheira e edificante de outrora.

                O infausto golpeou certeiramente o coração da família do Juarez Piacentini, no último dia 19, e a mãe dele, falecida no dia oito, Auxília Trice Marchesi Piacentini, aos 88 anos.  Além da família, esposa, filhos espraiou-se profundamente o lamento dolorido do luto no grande número de colegas de trabalho, clientes e amigos.

                Sem se desvincular da terra natal, o Rio Grande do Sul, Juarez Piacentini se afeiçoou com o Paraná,  neste chão mourãoense, ao mesmo tempo natural como por desejo latentemente consciente. A procedência dos italianos abrasileirados na melhor estirpe, foi, no caso do Juarez, de origem humilde, a lida para o sustento, a formação do caráter e personalidade voltados para o trabalho honesto, sem esmorecer ante as dificuldades, por maior que fossem, e Juarez, guiado apenas pela mãe, trilhou tal caminho. O trabalho para ele desde menino se caracterizou pela satisfação de realizar, de produzir, de prestar serviço.

                Em Campo Mourão, atuando no ramo de seguros há mais de 40 anos, era símbolo claríssimo de confiança, a jaez que tinha no sentido da índole, amealhou um conjunto de clientes fieis ao longo de toda a sua profícua carreira profissional. Não eram poucos os que apenas assinavam documentos sempre plenamente confiantes no seu labor. E Juarez sabia que não era o nome das seguradoras, por mais sólidas, o que contava era o nome dele,  a confiança resplandecente,  Sempre foi um dedicado, probo e apaixonado pelo trabalho, aplicando irrenunciavelmente o jaez no sentido do caráter.

                Outra paixão era pelo lugar, a Campo Mourão que ele bem acompanhava, dedicava-se além do mister profissional, participando das iniciativas, com apoio, crítica, sempre e sobretudo com a firme convicção em defesa do desenvolvimento. Jamais ficou alheio, tinha ideias, a cidade era o espaço que também cultivava com denodo, espírito hospitaleiro a acolher todos que, como ele um dia, resolveram aportar nestas terras férteis.

                A paixão pela família proporcionou a todos os seus o amor, ofereceu-lhes o próprio exemplo da generosidade, respeito ao próximo, a capacidade de edificar a justiça social. Era atencioso,  gentil, humano e sensível, sabia ser, se necessário, franco e exigente voltado para a melhor das formações humanas, e os três filhos puderam desfrutar de tal educação, herança maior que eles tão bem assimilaram e cotidianamente aplicam.

                Lembro agora algumas das nossas últimas prosas, sempre atencioso, diálogo simples e elegante, era um bom interlocutor, sabia ouvir, era atento, bem informado, uma pessoa de visão singular. Aos 67 anos, o adeus ao Juarez foi uma forma de dizer-lhe, e a todos os demais, o quanto a vida dele foi marcante, abundantes em exemplos, luzes que hão de prosseguir a iluminar através das reminiscências o jaez no sentido do feitio e da têmpera humana extraordinária positiva.   

Fases de Fazer Frases

                Começa-se a saber da vida quando ela vai chegando ao final. Afinal, o que é a vida?

Olhos, Vistos do Cotidiano

                Com estardalhaço se noticia a apreensão de celulares e outros objetos nas delegacias e presídios. Para que serve a revista? O anunciado grande feito – o da apreensão – descobre-se na verdade a flagrante desídia.

Reminiscências em Preto e Branco – Sofia Florczhaka Casarin

                Outra família tradicional de Campo Mourão está impregnada pela ausência eterna a partir de agora. Aos 88 anos ela se transformou em saudade. Sofia Florczhaka Casarin era a senhora,  senhora da fé cristã inquebrantável. A senhora esposa, leal, companheira. A senhora mãe abnegada, que educou os filhos sem negligenciar na formação do caráter, se valia do puxão de orelha se necessário. Mãe amorosa, sempre estava com os braços e o coração abertos, generosa, capaz de abrir mão das suas vontades para atender a uma necessidade dos filhos, oito criados com a paz do espírito maternal. Aliás, para ela, os filhos, que parecidos com os netos, em momentos dados eram tão somente os meninos e meninas. Gostava de reuni-los em torno da mesa, do pão feito em casa, da comida com o sabor da confraternização. Conhecia a todos por meio do sentimento intuitivo ou concreto, era a melhor conselheira, vigilante, senhora de todas as horas, do acalento, segurança, da boa cumplicidade. Os 28 netos e 30 bisnetos significaram para ela a razão do bem viver, contemplando-os com o mais doce afeto de mãe, avó, bisavó.

                Simples na maneira de viver, chegou a Campo Mourão quando aqui não tinha nada estava tudo por fazer. O pioneirismo empreendedor principiou desde 1938, época de desafios,  derrubada da floresta para o fazer da madeira e construção das casas, destoca e cultivo da terra. Da água de poço ou de mina, luz de lampião, fogão à lenha. Da prosa do final de tarde após a lida,  dormir cedo para antes do sol raiar se colocar de pé para a faina. Adeus, senhora Sofia. Saibas que estarás sempre presente, a vossa história bela prossegue através da vossa descendência decente.