O balanço, o pé de amor… nem tudo foi embora
[…]
Oh que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!
[…]
Infância – Cassimiro de Abreu
A infância é terra firme. Nela a realidade é o que imaginamos conforme a criatividade do universo sonhado, perfeito. Na medida em que crescemos, a vida nos coloca num barco que, na meninice, sabemos, quando muito, que nossos pais detêm todo o comando.
Com o envolver do tempo, aquela terra que pisávamos maravilhosamente, se distancia cada vez mais a ponto de não mais a enxergarmos. E vamos, por imposição das contingências da vida, assumindo o leme, a navegar bem longe daquele porto seguro. O mar na sua calmaria ou nas águas revoltas, sob a luz do sol ou do luar, em todos os balanços da embarcação e do pulsar do coração, a infância é uma doce lembrança, inesquecível, ricamente edificante. Em nossas reminiscências podemos ancorar a nossa embarcação no cais do porto familiar das nossas origens, sempre que quisermos reviver o abrigo seguro, acolhedor da nossa infância.
É o que faço agora ao relembrar uma surpresa que meus pais prepararam para nós três (eu, apelidado de Gudé, o Euro, chamado de Rasbico e Enio, o Baixinho). Dos doze irmãos, nós três fazemos parte da suculenta raspa do tacho: o antepenúltimo, o penúltimo e o último.
Rasbico, Baixinho e eu voltávamos da aula, nossos pais nos chamaram para irmos até o enorme quintal (é o mesmo endereço, o quintal está lá, na Avenida Irmãos Pereira). Nossos olhos arregalam, corremos e nos sentamos imediatamente! O presente era um balanço feito sob encomenda, tão sob medida que para o Enio, o caçula, o acento era quase junto ao chão, para que as pernas dele pudessem naturalmente alcançar. Nem precisa dizer, brincamos a tarde toda, à noite também, o balanço nos levava às alturas, parecia que ultrapassaríamos o telhado da edícula (não tinha este nome pomposo como agora). Eloy e Elza, de saudosa e inesquecível memória, eram pais envolvidos pela nossa alegria, a deles também ao darem para nós certamente o grande brinquedo que nos acompanharia por anos.
O balanço ficava rente ao inesquecível pé de amora, era possível subir nele, mesmo quando a mãe gritava desçam já daí que eu vou arrancar as orelhas de vocês!. Ou vou dar uma camaçada de pau em vocês!
Então enorme, era uma aventura escalar o frondoso pé de amora. E quando era época, quanta amora, que não dávamos conta de comê-las, doces e capazes de manchar a roupa Mas, com o tempo, nós íamos crescendo e ele fazia o caminho inverso, foi vergando, o tronco ficara oco e ele secou, findando a doce amora da nossa meninice. Creio que foi a primeira vez que tive a noção da perda, a tristeza, pois achava que aquele pé tão forte e belo que nos fazia tamanha alegria, ao em vez de durar para sempre, um dia morreria.
Nossos pais viraram avós. Eles mandaram fazer outro balanço, desde vez cinco lugares, um para cada neto, os primeiros de uma tropa que faz tempo ultrapassa os trinta no total. O brilho nos olhos, o sorriso incontido de felicidade deles espelhavam na alegria fulgurante do Rodrigo, Alexandre, Rodolfo, Cecilianne e da Carolina (hoje no céu com os avós paternos dela, incluindo o seu Argemiro por parte da mãe). Os irmãos Rodrigo e Rodolfo moram em Curitiba, têm filhos e seguem altaneiramente bem sucedidas nas profissões e vida familiar. A Céci se formou recentemente em jornalismo estando há muito trabalhando promissoramente na área como locutora e apresentadora de programas de rádio na Capital. Alexandre é corretor e advogado, reside em Camboriú. Ele é irmão da saudosa Carol. São como nós, balançaram embalados por aqueles que nos ensinaram muito e são hoje lições maravilhosas a prosseguir no tempo com as gerações novinhas que trilham caminhos seus, no balanço fantástico da vida em termos de herança, passada adiante.
É sempre doce um balançar, de saudades, de orgulho, de amor.
Fases de Fazer Frases (I)
Só mesmo no dicionário todas as palavras estão em ordem.
Olhos, Vistos do Cotidiano (I)
O Bradesco presta atualmente através das suas mensagens publicitárias, uma belíssima homenagem aos nossos literatos, entre eles Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana e Fernando Sabino. Nas mensagens de saudação ao 2013, trechos – que aparecem com as palavras na imagem – e que tratam do tema, tornam a propaganda humana, bela e didática.
Aliás, ao mencionar recentemente neste espaço a produtora de cerveja Skol que usou a música do Roupa Nova, foi enfatizado aqui que o Brasil tem muito talento, tanto de compositor como de intérprete e o mesmo se pode dizer dos nossos escritores.
Reminiscências em Preto e Branco
Roupas envelhecem não pelo uso e sim pela moda. Sem desbotar e sem despontar.
