O Valdir era uma pedrinha

O teatro é um templo, onde o palco é o altar e o ator é o 

sacerdote. E a arte é referenciada através do aplauso 

dos fiéis espectadores

Dilson de Oliveira Nunes

            Domingo passado o Teatro Municipal recebeu um grande público que trazia consigo a certeza que assistiria a um espetáculo de grande produção nascida da própria arte que pulsa vibrantemente em Campo Mourão. A Companhia Verve se tornou de há muito sinônimo de qualidade cênica, marca do nosso teatro, da nossa cidade e referência Brasil afora.

            Não me espere para jantar encantou o público, a plateia acompanhou vidrada a toda a peça, alternando risadas e silêncio. Não é surpresa mais, porém é preciso fazer o registro, Valdir Rocha, mostrou mais uma vez o quanto ele é um dos grandes nomes da dramaturgia. Integrado ao cenário mórbido ao mesmo tempo lírico e risonho, ele interpreta com a mais elevada condição do artista personagem na sublime expressão mambembe. Trajes de um morto/vivo, dialogando consigo numa espécie de ego diante do espelho da alma, caminha pelo palco com uma leveza cambaleante, passos trôpegos que fazem lembrar a genialidade do cinema mudo, do Carlitos, eterno vagabundo do bem, magistralmente encenado pelo inesquecível Charles Chaplin.

            As músicas, perfeitamente harmonizadas com o cenário e o personagem bêbedo, foram cuidadosamente escolhidas, e merece destaque a voz envolta da boemia de Vicente Celestino ou no tango sempre mítico do argentino Carlos Gardel.

            O público espontaneamente aplaudiu e levantou, demorada e prazerosamente expressando o seu contentamento. Terminada a apresentação e ao agradecer a todos, o Valdir agora era outro, humilde, atencioso, generoso e mesmo tímido, não parecendo por vezes aquele que há instantes encenava com singular competência e vívida paixão. Lembro do Valdir Rocha iniciando a vida teatral, dedicado, atento aos detalhes, sempre disposto a aprender. O Valdir que se tornou desde cedo ator profissional, servindo de exemplo em dois sentidos, o que pratica e o que conhece profundamente a teoria, o ator pela consagração do público e o ator diplomado. Conservando a alma de menino, o Valdir já foi pedrinha, virou rocha, é nome consagrado.

            A Verve não poderia ter feito melhor estreia, o Valdir teve a certeza ante a enorme recepção mourãoense, que o espetáculo irá ter em outros palcos grande acolhida, a altura de merecer o reconhecimento do público e o respeito da crítica, fruto do extraordinário brilho próprio do Valdir Rocha, que é também exemplo de caráter, inteligência, formação cultural erudita, popular ou de massa, teatralizada com a forma do real posto no palco com o brilho das luzes, brilho também daquilo que ele faz bem feito, o amor à arte.                        

Fases de Fazer Frases (I) 

            Horas que parecem nunca chegar são as mesmas a irem embora rapidamente sem se despedir.

 

Fases de Fazer Frases (II)

         Ênfase, frase frisada, como o dito bem dito, dito bendito.

 

Olhos, Vistos do Cotidiano (I) 

         Depois de muitos anos falando como quem conversa com os mortos, o diretor administrativo do IML – Instituto Médico Legal de Campo Mourão, Milton Scheibel finalmente poderá contar com dois médicos legistas, três motoristas e dois auxiliares, conforme publicou esta Tribuna na última quinta. O governo autorizou a contratação temporária e o Milton poderá ver a sua antiga de reivindicação de mais de vinte anos, finalmente atendida, fato que mereceu mesmo o devido registro.

 

Olhos, Vistos do Cotidiano (II) 

         A perambulação de políticos da região recentemente em Brasília, noticiada por vários meios de comunicação nos quais alguns deles apareceram posando garbosamente para fotos ao lado do Tiririca ou Romário não tem somente o lado bom, se é que tem mesmo. O lado certamente ruim é poder supor que a turma daqui não se deixou fotografar com Cristovam Buarque, Senador dos mais preparados e comprometidos com a educação, para citar somente um exemplo. É por isso que empregar o termo palhaçada não se deve fazer pejorativamente, pois é sempre indigno para o verdadeiro palhaço do circo e Brasília não pode ser sempre uma enorme tenda de lona armada, cenário para fotografias que não trazem qualquer resultado prático e positivo.

 

Olhos, Vistos do Cotidiano (III) 

         Um homem do Rio Grande do Sul ganhou na Justiça gaúcha em tutela antecipada o direito de receber gratuitamente o medicamento caverject 15 mg, utilizado no tratamento contra a impotência sexual, segundo noticiou dia 16 a Coluna do Ely. Ao ler a notícia e com todo o respeito ao magistrado, chama a atenção o sobrenome do juiz que concedeu tal direito, Inajá Martini Bigolin. É, Bingolin tem a ver com o objeto da ação judicial.      

 

Reminiscências em Preto e Branco 

         Bem antes o tempo tinha que ser lento. Era o devagar para divagar. O artesão criava a ovelha, esperava que ela crescesse, crescesse nela a lã que posteriormente era tosquiada. Depois da tosa, pacientemente eram feitos os fios. Era o tear a fazer a roupa. O homem só não tecia o tempo, deixava-se ser tecido no espaço dos sóis e das luas, sem perder o fio da esperança, do viver, do tecer como artesão da imaginação e do trabalho realizado, artícife do que vestia desnudado da pressa, só podendo ignorar o que não sabia antes que fosse descoberto.