A última ironia
Para não perder o hábito, o senador Roberto Requião ao votar na convenção do PMDB realizada no sábado, 15, fez a ironia que certamente usará como desculpa para sua derrota: O Richa já votou?, questionou, referindo-se ao empenho do governo em favor do grupo que se antepôs a ele e elegeu o deputado federal Osmar Serraglio. Se admitir que a influência de Beto Richa foi decisiva para sua derrota no partido que sempre se curvou à
sua influência inegável mas, por vezes truculenta, vai admitir igualmente que o governador pode estar, 22 anos depois, vingando-se do que o hoje senador fez a seu pai José Richa. Os
de melhor memória haverão de se lembrar que em sua ascensão Requião pisou nos
companheiros que antes o ampararam. Deputado em 1982, já tentava na Assembleia bloquear a força de Ervin Bonkoski em Curitiba, advinda em grande parte de sua participação religiosa através as ondas da Rádio Colombo e de sua Oração da Ave Maria Nesse horário convocava a população católica da Capital à movimentada romaria anual em homenagem a Nossa Senhora de Guadalupe. Requião, agnóstico, fez de Ervin com sua Santa, vítima favorita de suas ironias. De forma grotesca.
Prefeito de Curitiba
Em 1985, com Ervin massacrado por ele, descarregou sua crescente força entre os esquerdistas do PMDB contra o Amadeu Geara a convenção para a eleição direta à Prefeitura de Curitiba, concessão da revolução. Vencedor, passou a José Richa, então governador, o influente deputado Aníbal Khury, prefeito Maurício Fruet e outras lideranças do partido, a responsabilidade de elegê-lo contra o mito Jaime Lerner. Richa e companheiros, fizeram das tripas coração para levar o deputado pouco conhecido à vitória por ínfima diferença. Prefeito, Requião impôs um estilo populista, a título de beneficiar os menos aquinhoados. Período tumultuado e que gerou alguns dos graves problemas vividos hoje pela capital. Anunciando em rede estadual a regularização de invasões, com saneamento e energia elétrica, fez a alegria de prefeitos interioranos que tinham sob suas responsabilidades famílias problemáticas. Despejaram-nas em Curitiba.
Secretário de Álvaro
Ao deixar a prefeitura, o já governador Álvaro Dias viu-se forçado pelos companheiros a abrigar Requião em seu governo. Novas agressões a companheiros, especialmente os secretários Haully e Rubens Bueno que alimentavam esperança de disputarem o governo com apoio de Álvaro. Em 1990 Requião alcança seu objetivo. Pelo PRN do presidente Collor concorria o deputado José Carlos Martinez; pelo PSDB, um desanimado senador José Richa, visivelmente cumprindo missão partidária. A primeira preocupação de Requião foi liquidar com seu patrono político. E nova ironia: para quem hoje lutou para recuperar a sua própria aposentadoria de governador, cassada por Beto, investiu contra Richa naquela campanha usando esse argumento: Richa já usufruía ‘uma gorda’ aposentadoria de governador. Foi o suficiente para que os 39% de preferência inicial com que o ex-governador e então senador tucano entrara na campanha, emagrecessem, a ponto de deixá-o fora do segundo turno.
Surge o Ferreirinha
O segundo turno da campanha de 1990, contra Martinez, com todo o poder que emanava de Brasília com um Fernando Collor ainda muito forte, foi vencida com a participação competente da ala dos gênios do mal de todas as campanhas. O golpe de misericórdia foi dado com o surgimento de um suposto personagem que remontava ao tempo em que a empresa de Oscar Martinez, pai de José Carlos, colonizara a cidade de Assis Chateaubriand, no oeste do Paraná. O suposto matador da empresa, encarregado de limpar os que não aceitavam ‘vender’ suas áreas foi entrevistado através de grande farsa montada pelos marqueteiros. Soube-se depois tratar-se de um motorista de caminhão devidamente caracterizado. Assunto que hoje deixa gente influente do setor corada de vergonha. Suficiente porém para garantir o resultado que atendia ao pressuposto de que, em eleição o importante é vencer, não importa como. Esse assunto foi detalhado em meu livro Paraná Político – De cabo a rabo em que contei reunião familiar feita para aprovar a validade de ir ao ar a farsa Ferreirinha. Diante da oposição dos parentes próximos, inclusive com o desmaio de um primo, Requião sentindo a força do episódio, sentenciou: vai ao ar! E foi! E ganhou o governo do Paraná para ele.
História longa,
E espaço curto. De tanto recolher inimizades em sua nau política, um dia o soçobro seria inevitável. Repudiado agora por gente que ele criou!
