José Eugênio Maciel
Decretado fim do Doutor e da Excelência

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro”.

Oswald de Andrade – Pronominais

            “Promover a desburocratização no tratamento e de eliminar barreiras que criam distinção entre agentes públicos no âmbito do Poder Executivo”, diz a nota sobre o decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro. A medida – assinada no último dia 12, começa a vigorar em maio, válida apenas no Poder Executivo – põe fim aos pronomes Excelentíssimo, Doutor, Vossa Senhoria, Vossa Magnificência, Ilustríssimo, Digníssimo, Respeitável.

            Tais tratamentos existem desde o Império e até agora mantidos no regime republicano. Foi Dom Pedro I que instituiu o tratamento doutor em referência a médico e advogado. Não por acaso, o ato do monarca foi assinado no 11 de agosto de 1827, dia do advogado. O hábito é arraigado nesse longo tempo, advogados, médicos, autoridades assim tratados, doutores.

            São muitos e principalmente acadêmicos que reagem contrariamente, não aceitam usar o pronome doutor para quem não defendeu teste alguma de doutorado.

            Outro decreto, do então presidente Fernando Henrique Cardoso, aboliu o muito digno/digníssimo, bastando o nome da pessoa e o cargo ocupado por ela, decisão coerente, já que o ocupante do cargo é digno dele, até prova em contrário. 

            Respeito hierárquico não se dá só pelo pronome, mas como a administração pública é formal, o decreto é indispensável, mesmo que possam perdurarem práticas de subalternidade.

            É inegável que tratamentos se estabelecem no uso comum e tem a ver com classe ou posição sociais. Alguém que atua em algum meio de comunicação logo é chamado de jornalista, quem escreve vez ou outra e até lança um livro “vira” escritor. Professor ou mestre “sem tem aos montes, em qualquer esquina”.

            A irreverência crítica do grande Oswald Andrade quanto a pronomes, logo abaixo do título hoje, certeiramente valoriza o modo e o conteúdo do tratamento pronominal, que não deixa de ser também bajulador, cada qual a seu modo.

Fases de Fazer Frases (I)

            Toda descendência importa decência.

Fases de Fazer Frases (II)

            Não se cultiva esperança sem sonho.

Fases de Fazer Frases (III)

             Mastigar a verdade é melhor do que engoli-la?

Fases de Fazer Frases (IV)

            Caso falte coragem para expulsar o medo, não tenha medo em aceitá-lo.    

Olhos, Vistos do Cotidiano (I)

            Em proveito do tema principal da Coluna hoje, um reitor, que se intitula marxista, corrigiu um acadêmico que o chamou apenas reitor, no mesmo instante advertido: magnífico! Igualdade no caso é mero discurso socialista.

Olhos, Vistos do Cotidiano (II)

            Enfim será posto semáforo à entrada do Lar Paraná, Campo Mourão: Sinal dos Tempos.

Caixa Pós-Tal

            O Baú do Luizinho, conceituado Blogue mourãoense, colocou na íntegra e agradeceu o texto principal da Coluna anterior – CAIXINHA, SÓ PODIA SER DELE, BELO – homenagem ao pai dele, falecido em março. No Blogue tem o registro fotográfico da família reunida, imagem sintetizadora de fraternidade deles todos. Não carecia agradecer.

Reminiscências em Preto e Branco

            Também em proveito do tema que abre a Coluna, indo ao tempo do império, os que nunca sequer tinham visto uma escola, nas senzalas escravos simplificaram o tratamento de senhor, senhora, diziam de modo simples, tão subserviente quanto doce, sinhá, sinhô.

            Né não, seu dotô?

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José Eugênio Maciel | [email protected]