José Eugênio Maciel
Últimos puxar e empurrar

                        Devagar abri a gaveta/ um forte cheiro de flor/ tomou conta da sala

                        Na penumbra de um fim de tarde/ meu coração acelerou/ minhas mãos tremularam

                        (…)

                        Lembranças que ainda incomodam/ verdades que religam o passado/ ao presente onde                            sobrevivo à duras penas

                        Palavras vivas e libertas que saltam/ de dentro da gaveta cheirando a passado/ desnudando                    minha alma inquieta

                        Um frio me abate e num impulso/ fecho a gaveta tentando conter o instante/ tentando                               segurar as fugitivas lágrimas

                        Lágrimas de ousar, de ir além...

Às Escuras – Nídia Cintra

            O tema não é o desafio à esta última Coluna do ano. É a abordagem. Como expor o assunto previamente definido, e dele não escapar, instigando o escrevinhador aqui a encará-lo. Pautar-se por conteúdo original, evitar lugar-comum. 

            É sempre assim, não ter inspiração que se apresente e me acompanhe. Ela que me abandona antes de estar comigo, toda vez que chega esta data, última Coluna. São 29 anos a viver experiência de ter que escrever a respeito do último ato, no caso o 2017.

            Este último encontro do ano não poderia ser ignorado.  

            Diante do computador, sem vaga ideia, da cabeça vazia nada sai que valha digitar, a aparecer na tela com mínima criatividade.

            Levanto da cadeira subitamente, olho pela janela do escritório em casa. Depois a estante de livros. Nada enxergo. Pensamentos inexistem.

            Decido abrir uma gaveta. Mente vazia, sequer procuro por procurar. Idêntico jeito que abro a gaveta fecho-a. Quantas gavetas temos. Para que elas servem, sabemos. Como as usamos, conhecemos? Guardamos. Esquecemos o que está dentro delas, além delas propriamente ditas. O que é útil ou não, as gavetas sabem tanto ou mais do que nós.

            Caixa embutida em um móvel, desliza no abre e fecha. Nalgum momento (talvez este) é propício abrir a gaveta e olhar, observar, revirar o que tiver dentro. Organizar novamente para que objetos não fiquem no mesmo lugar. Noutra gaveta, seja o caso. Acaso arrancá-las, pô-las (lembram ampolas) de cabeça para baixo, fazer um monte.

            O que deve e como ficará guardado. Quais as gavetas com chave? Algumas cheias, outras nem tanto, e ainda as que estarão vazias, por quanto tempo?

            O tempo engaveta tudo e tudo ele desengaveta.

            2017, final breve, puxar todas elas, arrumá-las. Desfazer-se do que não precisarmos guardar. É necessário espaço para o novo. Empurrar ao e o longo do novo ano. 2018, novidade. Ainda.

            Único cuidado, evitar que gavetas emperrem. Tenham volume desnecessário. No puxar e empurrar, deslizem. 

            Continuarão sendo elas. Gavetas que impedirão que sejamos as mesmas pessoas.               

Fases de Fazer Frases (I)

            Só aviso, o persuasivo não é evasivo.

Fases de Fazer Frases (II)

            Homem prudente é um covarde às avessas.

Olhos, Vistos do Cotidiano

            Palavra chuva, do latim pluvia, sinônimo de pluvial. E quanto ela está caindo!

Caixa Pós-tal

            Toda manifestação do leitor desta Coluna é registrado, daí o subtítulo acima. Na íntegra ou síntese. Acrescento fatos relativos ao leitor, profissão, onde mora etc. Mas tem quem eu não sei nada e indago. Para não deixar de registrar, publico, mesmo assim. É ocaso a seguir. Vale ressaltar: a citação pressupõe agradecimento a cada um dos caros leitores. “Parabéns pela coluna, acompanho toda a semana”, escreve Vitor G. C.

Reminiscências em Preto e Branco (I)

            Vê-se melhor o novo tempo vir a partir do velho tempo que vai.  

Reminiscências em Preto e Branco (II)

            Tempo não tem lacuna. Lacuna é memória.