José Eugênio Maciel
Márcia, graças

“Mudaste o meu pranto em dança, a minha veste de lamento em veste

de alegria, para que o meu coração cante louvores a ti e não cale.

Senhor, meu Deus, eu te darei graças para sempre”.

Salmos 30:11-12

            Cai a chuva. Assim foi por toda a noite. Contínua, suavemente escorria pelos beirais, contornava obstáculos, preenchia vãos. Seguia ou fazia sulcos. Tocava, escorria  nas janelas gotas daquele aguaceiro na madrugada.

             A chuva da noite toda, a chuva do dia todo mansamente foi diminuindo até cessar, quando harmoniosamente todas aquelas águas foram seguindo seus leitos, córregos, rios e chegariam aos mares, oceanos. Assim como, então, o sol, naquele momento, provocava calor e luminosidade, fazia evaporar as águas. 

            É de manhã. Os raios solares eram tênues nas primeiras horas do dia, nuvens então carregadas e que delas caíram tantas águas, no cenário de luzes repentinos, trovões, relâmpagos. Diminuíra a chuva, mansamente até cessar. 

            O querido, amado esposo, sem deixar que toda a voz ficasse embargada, reuniu forças para a mensagem oral gravada nos grupos sociais: a notícia fúnebre. Ele declara o amor, rememora o que ela representa. Estava ele com a esposa como ambos foram um para com o outro, em companhia, sempre. Era só ele diante da amada, jaz. Estavam somente os dois tão juntos quanto separados, a partir de então,  entre a vida terrena e a eterna vida. Ele, a ficar nesse mundo, ela, em partida para o além. O professor Eleano Alves convida a todos para a despedida final, mesmo com toda a chuva.  

            Todos iriam se reunir, com toda a chuva que desceu e toda ela que voltasse.

            Águas que desceram do céu. Caíram na terra. Fazem o caminho inverso constantemente, com o verso de cada instante. 

            Elas voltam para ode estavam: o chão de toda a terra. Foram aos céus vindas das águas, bebidas pelas nuvens, de lá regressara. Se todos podemos ver as águas voltarem a terra como chuvas, quando elas sobem evaporadas, ninguém pode ver.

            Das águas descidas dos céus, deságuam bem vívidas. Ao subirem,  são elas invisíveis. Nem carece que a vejamos, pois a fé nos faz crer sem precisar ver. 

            A vida como chuva que dá vida. A tudo, cessa a sede, lava, enxágua, limpa, faz brotar, nascer, cultiva. Sobre ao céu para cair novamente.

            Márcia, você agora passou pelas nuvens. Chegou ao azul do infinito celeste, com os anjos, para ser, continuar o que se sempre foi, angelical. És também como as nuvens, no seu sempre de delicadeza, suavidade de gestos, intenções, ações, seguras, firmes, a ser, fazer, cativar, reconhecer e a enaltecer o bem que tinha, o bem que era. O bem que deixa  Foi o que ensinava e sobretudo o bem que inspirava e acolhia.

            A derradeira despedida, a reunir os pais, esposo, filho, demais familiares e amigos. Todos, muitos, colegas de profissão. Estávamos, ao sol. O mesmo sol que fez  secar, evaporar e só deixar os vestígios da chuva, não secaria nem enxugaria nossas lágrimas, elas encharcaram, mais do que os olhos, o coração de todos nós.

            Caiu a chuva. Ela cessou. Caia a tarde.

            Caíamos no indivisível pranto do adeus. Você não será esquecida. Seus exemplos edificantes de uma vida repleta de dignidade, bondade, conhecimento, brilho da menina, filha, moça, esposa, mãe, tudo sempre pleno de extraordinária vivacidade.

            Assim como eu, são muitos os testemunhos da sua sabedoria, do zelo profissional e compromisso com a educação na condição de pedagoga, se mantinha atualizada, propunha e contribuída para diálogos nobres e simples.

            Graça. Graça que era. Graça que é. Graça que será, sempre, Márcia.   Marcia Cristina Buzetti, é agora saudade, desde o dia 31 de outubro. Nasceu no dia 13 de janeiro de 1981. Casada com o professor Eleano Alves por doze anos, tiveram o filho Vinícius, apenas sete anos. 

Fases de Fazer Frases

            Sentimento maior não é o que se engrandece, é o que agradece.

Olhos, Vistos no Cotidiano

            Abandono de covas não esquecidas no Finados. Velas anônimas aos anônimos. 

Reminiscências em Preto  Branco

            É em vida o prenúncio da saudade quando ambas se encontram.

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Por José Eugênio Maciel | [email protected]