José Eugênio Maciel
VIDA VIZINHA, PERIGO. E EU COM ISSO?

                  Sou ligado pela herança do espírito e do sangue ao mártir, ao assassino, ao anarquista.
                                Sou ligado aos casais na terra e no ar,  ao vendeiro da esquina, ao padre,

                                                  ao demônio ao mendigo, à mulher da vida, ao mecânico,

                                                       ao poeta,  ao soldado,  ao santo e ao demônio.

                                                        Construídos à minha imagem e semelhança.”

                                                                       Solidariedade – Murilo Mendes

            A cada dois segundos, uma mulher é vítima de violência no Brasil.

            A cada dois segundos uma mulher é vítima, de violência no Brasil.

            A cada dois segundos uma mulher, é vítima de violência no Brasil.

            A cada dois segundos uma, mulher, é vítima, de violência no Brasil.

            A cada dois segundos uma mulher, é vítima, de violência, no Brasil.

            A cada dois segundos uma mulher é vítima de violência no Brasil.

            As vírgulas são para enfatizar. Servem também para pausas.

            Sem nem uma. Sem nenhuma vírgula a mesma frase é lida de uma única vez.

            Cada uma lida. Todas lidas. Segundos passados, a passarem, que passarão.

            Mulheres vítimas de todo o tipo de violência. Feridas doloridas, dolorosas.

            Dois segundos não é nada. De fato não é nada: mas é o tempo de agredir, matar.

            É ela a mulher alvo do uso/abuso violento, nunca que justifique. 

            Câmaras de segurança do prédio onde morava a jovem advogada de Guarapuava Tatiane Spitzner, evidenciam a barbárie do marido Luís Felipe Manvailer. Agressão física e moral. Dor constante, lancinante, cortante. Tomada de hematomas, sintomas. Esvaída. Ex-vida. Grito ecoando nos corredores, janelas, andares. Estirado na calçada. Tatiane sem vida. Cadáver ocultado da cena.

            Ninguém escutou os gritos? Ninguém passou pela garagem?

            Tapamos os ouvidos. Fechamos os olhos. Cruzamos os braços. Fazemos de conta que não temos “nada com a vida dos outros”, quando tudo pode estar acontecendo próximo da gente, vizinhos. Trata-se do antagônico das redes sociais, fofoca e intromissão na vida alheia como se a intimidade tivesse que ser exposta escancaradamente.

            Não se pode negar a ninguém em tempo algum, um pedido de socorro. Mais do que um princípio e fundamento morais, ele é também legal, previsto no Artigo 135 do Código Penal:   “Deixar de prestar assistência quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou a pessoa inválida ou ferida desamparada ou em grave e iminente perigo: ou não pedir nesses casos o socorro da autoridade pública”.

            Guarapuava retrata o Brasil do silêncio assombroso omissivo, conivente com um crime.   

            Tem quem que suponha, que a maior parte da violência contra a mulher ocorra nas ruas, ônibus, trens, praças. Na realidade quase 70 % das agressões ocorrem dentro de casa.

            Antes, durante, na hora ou pouco de depois ninguém viu. Como se a vida fosse a dos outros. Cada um que cuide da sua. Não tem como não observar, basta um corpo ferido ou já sem vida, aparecerem um bando de curiosos, gesticulam, comentam, se manifestam quando deveriam agir antes, solidariamente. São raras as exceções.  

            Gritos, cicatrizes, feridas, existem nas outras mulheres. Somos destinados a velar corpos,   rezar pelos outros.    

Fases de Fazer Frases

            Não se encerra com a última palavra. É com o último ponto.

Olhos, Vistos do Cotidiano

            Está longe de acabarem. Se não houver providências, se tornarão fatos e notícias corriqueiras: Causadores de acidentes de trânsito fugirem do local sem prestar socorro. A embriaguez, embora não seja a única causa, entram para as estatísticas do que poderia ser evitado.. Reminiscências em Preto e Branco

            “Em briga de marido e mulher ninguém deve meter a colher”. Mais que um ditado antigo, já antigamente deveria ser inaceitável. O ditado não caiu em desuso, menos falado mas muitíssimo praticado Brasil afora. Gritos de socorros são abafados ante o silêncio criminosamente omissivo.

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Por José Eugênio Maciel | [email protected]