Sociedade e Desenvolvimento
O Sebrae vai virar museu?

O museu pegou fogo. E quem se queima é o Sebrae...

Hoje peço licença para sair um pouco do tema da coluna e tratar de um assunto que tomou conta de parte da mídia na última semana. Aliás, não acho que saiamos tanto do tema, uma vez que trata-se de um atentado à maior instituição brasileira de fomento ao empreendedorismo: falo da proposta de criação de uma agência de museus que pretende utilizar cerca de 200 milhões de recursos oriundos do Sebrae.

Como todos já sabem, um incêndio destruiu grande parte do acervo do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, na Zona Norte do Rio, no domingo dia 2 de setembro. E, em apenas uma semana, sem sequer ter esclarecido as causas do incêndio, muito menos proporcionado um debate sobre o tema (conservação de patrimônio histórico-cultural), o Governo editou uma medida provisória na segunda-feira, dia 10, criando a Agência Brasileira de Museus (Abram), que substitui o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

Em meio a uma discussão sobre reduções de recursos e responsabilidades, causas e efeitos, Governo e Universidade se estapeavam trocando acusações, mas o Presidente Temer sacou mais rápido e deu o ultimato: assaltar o Sistema S e criar um novo cabide (ops), serviço, transformando o Instituto em Agência (agora sim!!) com recursos e gestão no modelo de Organização Social.

Interessante observar que ambos os lados reclamam que não foram ouvidos. Nem o pessoal do atual Ibram – que, aliás, tem sérias críticas ao modelo proposto; nem o pessoal do Sistema S – que vai entrar com os recursos.

Parece-me aquela típica solução mais desastrosa do que o próprio desastre. Só pra se ter uma ideia, na enquete da própria página do Congresso Nacional onde é noticiada a Medida Provisória (https://www.congressonacional.leg.br/materias/medidas-provisorias/-/mpv/134245) aparece uma avaliação de 5.956 opiniões negativas contra 169 positivas (dados de 16/9 às 20h).

Mas, além do atropelo que considero ter sido cometido com a decisão, cabe aqui ressaltar a importância de uma Instituição tão representativa do empreendedorismo e do apoio aos pequenos negócios como o Sebrae, embora a questão dos recursos do Sistema S volta e meia se encontra em debates.

Criado em 1990 pela Lei 8.029, o então Cebrae (com C) desvinculou-se do poder público e transformou-se em serviço social autônomo, passando a ter acesso aos recursos do chamado Sistema S, e tornou-se o responsável pelo atendimento ao segmento das micro e pequenas empresas, setor responsável por 12,2 milhões de estabelecimentos no Brasil atualmente.

O orçamento do Sistema Sebrae para 2018, segundo o Portal da Transparência da entidade, é de 4,5 bilhões, dos quais 3,1 são da chamada Contribuição Social. No entanto, segundo o mesmo portal, pouco mais de 26% do orçamento são gastos de gestão operacional e investimentos, sendo mais de 70% aplicados na operação, ou seja, reinvestidos no atendimento a seu público-alvo. Bem diferente dos gastos do governo.

Enfim, é claro que, como em qualquer instituição, possam haver ajustes e economias a fazer. Assim como na gestão dos museus também deve ser feito algo. A questão é porque fazê-lo de forma tão abrupta, sem quaisquer indícios de algum estudo mais aprofundado sobre o tema. E justamente utilizando recursos tão importantes para incentivar o empreendedorismo, que é significativo para fomentar a economia, gerar empregos e irrigar o próprio governo com mais impostos. Parece uma saída pela contramão.

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Carlos Alberto Facco - Secretário de Desenvolvimento Econômico de Campo Mourão | [email protected]

Capital Humano

“Quando o capital e a tecnologia são acessíveis a todos igualmente, o que marca a diferença é a qualidade do capital humano”. Tom Peters

Na coluna de 22 de agosto tratamos sobre um dos pilares de qualquer processo de Desenvolvimento sustentável: o capital social. Hoje, gostaria de tratar de outro destes pilares, tão importante quanto o primeiro: o Capital Humano.

Afinal, quem são os protagonistas do desenvolvimento, senão as pessoas que residem na localidade/região? Ou seja, os moradores de uma determinada região assumem seu papel de sujeitos de sua própria história. Então, em qualquer processo de desenvolvimento que se queira sustentável a premissa básica é a de envolvimento e capacitação das pessoas.

Porque para buscar o desenvolvimento, é necessário que as pessoas mudem seu status atual, através do crescimento de habilidades, conhecimentos e competências. Este conjunto de fatores vou considerar aqui como o Capital Humano.

Então, ampliar o capital humano significa investir em educação, principalmente, mas também em outros fatores relacionados à vida das pessoas, como condições de saúde, alimentação, habitação, segurança, entre outros. Pois a educação por si só, não consegue atingir seus objetivos se as pessoas não tiverem satisfeitas suas necessidades básicas.

Baixos índices de capital humano, obviamente, se traduzem em menores possibilidades de desenvolvimento. Se as pessoas não desenvolverem suas potencialidades, não será possível falar de desenvolvimento, cujo princípio básico é o de melhorar as condições de vida das pessoas.

O desenvolvimento não é um resultado somente do crescimento econômico, envolve relações humanas, e o desejo dessas pessoas em alcançarem uma melhor qualidade de vida para todos. O desenvolvimento depende da adesão das pessoas, elas precisam se colocarem como sujeitos do movimento. Então, a qualidade do processo de desenvolvimento depende diretamente da qualidade das pessoas, e de seu interesse e capacidade de aderir e contribuir com o processo.

Não é possível existir desenvolvimento sem que as pessoas tenham desenvolvido suas competências e qualidades. O capital humano passa a ser a principal fonte do valor. E este valor não está somente nos bens físicos, mas principalmente nos bens imateriais, como intelecto, tecnologias, conhecimento aplicado, etc.

Pessoas bem preparadas contribuirão com a boa governança do processo, melhorando a capacidade da sociedade de construir canais de participação, com níveis de representatividade, legitimidade e confiança entre o Governo e a sociedade organizada.

Um bom governo também depende das qualidade e compromissos dos governantes, mas sobretudo, da capacidade de escolha das pessoas que o elegerão.

E isto, indiscutivelmente, está relacionado com os níveis de empoderamento da sociedade, o que por sua vez depende dos níveis de capital humano e capital social.

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O PIB e você

“Um dos grandes segredos da sabedoria econômica é saber aquilo que se não sabe”. John Galbraith, economista, filósofo e escritor estado-unidense.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgou na última sexta-feira (31), o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no 2º trimestre de 2018. O resultado é que cresceu 0,2%, na comparação com os três meses anteriores, Em valores correntes, o PIB totalizou R$ 1,693 trilhão.

Desmembrando um pouco esse número, temos as seguintes variações:

  • Serviços: 0,3%
  • Indústria: -0,6%
  • Agropecuária: 0
  • Consumo das famílias: 0,1%
  • Consumo do governo: 0,5%
  • Investimentos: -1,8%
  • Construção civil: -0,8%

 

Na comparação com o mesmo trimestre do ano passado, o PIB avançou 1%. No acumulado em 12 meses, o PIB cresceu 1,4% em relação aos quatro trimestres imediatamente anteriores.

Diante deste cenário e em plena campanha eleitoral, como isso afeta a vida do cidadão? Algumas considerações de um administrador se metendo a economista:

  1. Observe que um dos setores avaliados para determinar o crescimento do PIB é o consumo das famílias. Ocorre que estamos vivendo um período de desemprego recorde e isso obviamente afeta diretamente este indicador. No trimestre encerrado em julho, 12,9 milhões de trabalhadores estavam desempregados no Brasil. E tem um outro indicador interessante: o chamado “desalento”, formado por aqueles que não trabalham, mas também não procuram vaga – esse número chegou a 4,8 milhões.
  2. Observe também que, exceto pelo setor de serviços, a atividade econômica continua dando sinais de recessão. Indústria e Construção Civil apresentaram variações negativas, e a Agropecuária não variou. A incerteza eleitoral e a baixa capacidade de investimentos do setor produtivo certamente são algumas das causas deste resultado.
  3. Um item positivo – aliás, o maior – é o consumo do governo: positivo em meio ponto percentual. Este é um ponto polêmico, e não é o objetivo aqui discutir o nível de gastos do governo. O fato é que esse indicador foi positivo no trimestre por conta do calendário eleitoral, que provocou uma antecipação de gastos e fez com que o consumo do governo fosse o componente de maior crescimento do indicador do PIB. O problema é que a eleição vai passar.... e não podemos esperar muitos investimentos com um déficit primário de R$ 17,82 bilhões só no primeiro semestre.

E já que estamos em época de avaliar propostas de governo, importa considerar que não haverá uma solução mágica, ou um salvador da pátria que mudará essa situação rapidamente. Embora os candidatos insistam em tentar nos convencer disso.

Uma politica fiscal austera, que permita conter os gastos do governo, aliada a uma agenda reformista, não são soluções simples de implementar. Necessitarão de apoio político e da sociedade, e principalmente de tempo, como em um campeonato de várias rodadas, onde o próximo resultado depende do desempenho imediato.

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A difícil missão da inovação no Brasil

“Tecnologia é qualquer coisa que não estava por aí quando você nasceu”. Alan Kay – cientista da computação.

As dificuldades e entraves enfrentados pelos inovadores no Brasil foi tema de uma publicação lançada em junho no auditório da Fapesp, em São Paulo. Trata-se do livro Novos Caminhos para a Inovação no Brasil, da economista Fernanda de Negri, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O trabalho foi desenvolvido com apoio da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) e do Wilson Center Brazil Institute, em Washington, a partir de entrevistas com parlamentares brasileiros e empreendedores.

No livro, a autora traz um levantamento sistematizado dos fatores que afetam a inovação, apontando três fatores principais – pessoas, infraestrutura e o ambiente. Os três são influenciados pelas políticas públicas, formando um ecossistema propício ou não para a inovação. O livro mostra que ainda falta muito no ecossistema brasileiro de inovação, seja nos três fatores principais, seja nas políticas públicas. Conclusão: é difícil inovar no Brasil.

Nas entrevistas com empresários, a economista ouviu argumentos de que inovação não depende apenas de financiamento e de instalações, mas também de um ambiente estimulante e dinâmico, onde as competências existentes possam prosperar e se desenvolver adequadamente. Há uma crença de que o Brasil tem competências relevantes em várias áreas, mas a burocracia dificulta que os conhecimentos produzidos nos ambientes universitários se transformem em novos produtos.

Algumas condições para a melhoria do ambiente de inovação foram apontadas na pesquisa de De Negri. Em primeiro lugar, capital humano. Nas se faz ciência sem pessoas. Depois, uma infraestrutura adequada para que esse capital humano possa produzir, incluindo aí instalações, equipamentos, etc. Cercando isso, uma regulação menos burocratizada e que proporcione que o conhecimento científico seja transferido para o setor produtivo. Para complementar, um sistema de propriedade intelectual que dê segurança e previsibilidade, para que os investimentos de risco sejam incentivados.

O último fator relacionado ao ambiente diz respeito à estrutura de mercado. O argumento é de que a competição é o motor fundamental da inovação. Uma economia fechada, com empresas protegidas de seus concorrentes, não tem incentivos para produzir inovação.

Outro aspecto interessante da publicação diz respeito aos investimentos públicos e empresariais em inovação. Somando gastos públicos e empresariais, o Brasil investe 1,27% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em P&D. Isso é bem menos do que a média dos países da OCDE, onde esse investimento representa 2,38% do PIB, mas está acima de países latino-americanos, como México e Argentina. “Mas, se os investimentos totais em P&D do Brasil não são tão baixos, os investimentos empresariais, que deveriam ser estimulados pelas políticas públicas, são menores do que em vários outros países e têm permanecido relativamente estáveis ao longo do tempo. No Brasil, as empresas respondem por pouco menos da metade dos investimentos em P&D realizados no país, o que totalizou aproximadamente 0,6% do PIB em 2014. Essa proporção costuma ser maior nos países desenvolvidos. Tomando a média da OCDE como exemplo, nesses países as empresas são responsáveis por quase 70% do investimento total em P&D, ou cerca de 1,63% do PIB”, conclui a autora.

Então, a melhoria das condições institucionais e sistêmicas, produzindo conhecimento de ponta ao mesmo tempo que incentiva as empresas para inovarem, através de um ambiente favorável e estimulante é o que poderá mudar este cenário no Brasil.

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Capital Social: um pilar do desenvolvimento local

"Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá em grupo." Provérbio Africano

Faça uma análise de qualquer projeto ou case de desenvolvimento local ou regional e encontrará um ponto importantíssimo e comum em todos eles: o Capital Social. Não estou falando aqui daquele Capital Social que aparece no Contrato das empresas, refiro-me à capacidade de relacionamento entre os atores da cidade ou região em prol de um objetivo comum.

Conceitos mais modernos de desenvolvimento, que suplantam o econômico, trazem a premissa de que, para ser sustentável, o processo tem que ser também integrado, endógeno e abranger a todos os envolvidos. Juarez de Paula, meu ex-colega de Sebrae, em seu livro Desenvolvimento Local Como fazer?, apresenta quatro pontos-chave para o processo se perpetuar: Capital Humano, Capital Social, Capital Empresarial e Capital Natural. Em síntese, significa olhar para as pessoas, para as relações entre elas, para o econômico e para a natureza.

Porém, essa teia somente se mantém ao longo do tempo se estiver ancorada nas relações entre as partes, o tecido, o Capital Social. Porque requer o crescimento dos níveis de cooperação e confiança entre as pessoas. Não há metodologia, processo, discurso ou recurso suficientes, se não houver a participação efetiva e o empoderamento das pessoas.

Já tivemos em nosso município várias tentativas de criar movimentos para pensar o futuro, criar projetos de longo prazo e trabalhar pelo desenvolvimento sócio-econômico local e regional. Todos tiveram sua importância e contribuição, e alcançamos avanços importantes. Na minha modesta opinião, o fundamento de sustentação destas e de quaisquer outras iniciativas passa pela constituição de um Capital Social forte, seja institucional, de lideranças ou das pessoas envolvidas.

Durante muitos anos trabalhei com projetos de Desenvolvimento Local em dezenas de municípios, e vi muitos planos excelentes acabarem no fundo das gavetas. Mas também pude ver projetos medianos alcançarem resultados fantásticos baseado no engajamento, comprometimento e entusiasmo de pessoas que assumiram o protagonismo e fizeram as coisas acontecerem.

É mister, portanto, que se constituam redes de cooperação e ajuda mútua, onde a confiança e a solidariedade sejam os princípios norteadores. Precisamos deixar um pouco de lado o paradigma da competição. Em quaisquer aspectos, ao olharmos somente para a “lei do mercado”, a “lei do mais forte”, ou até aquela famosa “Lei de Gérson”, não é possível avançar com sustentabilidade. Após certo ponto, as relações se deterioram, as lideranças se enfraquecem, o processo míngua.

O novo paradigma é o da diversidade, flexibilidade, interdependência, cooperação e parceria. Estas são as condições de sustentabilidade dos sistemas complexos. Basta olharmos com uma visão sistêmica, ou seja, olharmos o todo, na sua complexidade e no dinamismo da relação entre as partes, que vamos constatar que nada está isolado, tudo faz parte de uma densa teia de relações, uma grande rede. Essa rede deve ter seus nós bem apertados, firmes, não pode se romper. E, caso haja o rompimento de um nó, os outros devem ser fortes o suficiente para manter a teia.

“Portanto, o capital social é essa teia, esse tecido, essa rede de conexões, que quanto mais forte, mais capaz será de gerar desenvolvimento sustentável. O capital social é o produto da confiança e da cooperação entre os atores sociais, que lhes confere organização, capacidade de participação e empoderamento. O desenvolvimento, de certa forma, é produto do capital social”, cita Juarez de Paula.

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Um movimento a favor do futuro

Na última sexta feira, dia 10, realizou-se na Acicam um encontro cujo tema principal foi a discussão de Estratégias de Desenvolvimento Local. A partir da apresentação de diversos exemplos de municípios que criaram projetos de longo prazo a partir de movimentos sociais organizados, lideranças mourãoenses tiveram a oportunidade de perceber a importância de assumir o protagonismo e trabalhar em conjunto para a construção de um futuro mais próspero para o município e região.

Após uma série de provocações do Secretário Estadual Silvio Barros, principalmente chamando a atenção para as novas tecnologias emergentes e seu impacto no planejamento das cidades, foi a vez da apresentação de um dos mais emblemáticos exemplos de organização social em prol de um projeto de desenvolvimento que eu conheço: o Codem de Maringá.

Num segundo momento, uma parte mais técnica apresentada por executivos dos Conselhos, trouxe boas práticas adotadas por Conselhos já constituídos em municípios Paranaenses.

Meu objetivo aqui é trazer algumas reflexões e considerações sobre estes movimentos e as lições aprendidas por eles.

Em primeiro lugar, é necessário que os envolvidos com o planejamento da Cidade, sejam do poder público ou da sociedade organizada busquem saber quais serão os desafios do futuro, as tecnologias que estão a surgir e como elas afetarão a vida das pessoas na cidade.

A partir de um grupo de pessoas comprometidas com o território é que um projeto dessa natureza começa. Normalmente surge num momento de crise, como foi o caso de Maringá, que viu sua economia fraquejar em meados de 1990, o que fez as lideranças se moverem para mudar a realidade da cidade e não terem que mudar de cidade.

O compromisso com a cidade deve ser acompanhado da parceria entre o movimento da sociedade civil organizada com o poder público. O movimento social deve ser auxiliar dos poderes constituídos e não mais uma instância reivindicatória. A cumplicidade entre essas forças é condição sine qua non para que o desenvolvimento aconteça. Porque serão forças complementares. Nas situações em que o poder público não pode agir, seja por questões de caráter legal, burocrático ou político, é onde a sociedade entra. O contrário também é verdadeiro. Cada um contribui com sua parcela de responsabilidade.

Um outro aspecto que gostaria de destacar é a condução do processo propriamente dito. As lideranças devem cuidar para ter uma metodologia de trabalho, que agregue pessoas, não crie concorrência com outros conselhos ou movimentos existentes, e que permita a participação construtiva daqueles interessados em contribuir. Gerar pequenos resultados no curto prazo é importante para manter a motivação do grupo.

Usar experiências anteriores do município, buscar benchmarking em outras regiões com projetos semelhantes, harmonizar a competência dos envolvidos e das entidades que representam são cuidados importantes para a manutenção do movimento.

E, complementarmente, um bom diagnóstico, que demonstre a “realidade real” e que permita uma expansão dos conhecimentos das pessoas acerca de seu ambiente é fundamental. Como disse Albert Einstein, “nós não podemos resolver um problema com o mesmo estado mental que o criou”, então é necessário ampliar os horizontes, entender as razões das dificuldades pelas quais passamos, e avaliar com clareza as potencialidades que deverão ser exploradas para a consecução do objetivo comum.

Por ora, a última observação diz respeito à necessidade de recursos para viabilizar os estudos e uma equipe técnica. O comprometimento de lideranças voluntariamente é importante, o conhecimento dessas pessoas é um diferencial importante, mas chegará o momento em que será preciso contratar profissionais, empresas, estudos que subsidiarão as decisões e ações do Conselho.

Campo Mourão iniciou o movimento e criou seu conselho, o Codecam. Com o apoio da administração pública e de diversas entidades, inicia-se este importante processo de pensar além de mandatos eleitorais, visando projetar uma Campo Mourão mais forte, sem perder a capacidade de acolher a todos e promover um desenvolvimento sustentável, humano e contínuo. É imprescindível neste momento inicial que superemos os egos, prelevemos os erros, e caminhemos juntos com os olhos no futuro que sonhamos para nosso município.

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Aceleração de Empresas

Um conceito relativamente novo no mundo do empreendedorismo no Brasil, especialmente no campo de empresas de tecnologia, é o de Aceleração de Empresas.

Mas porque empresas podem ou devem ser aceleradas? O que é acelerar uma empresa? Que benefícios isso traz?

As primeiras experiências de aceleração de empresas surgiram no EUA (sempre eles) em 2005, ligadas às startups – empresas de tecnologia.

O modelo utilizado se baseava em investir cedo nos projetos, aportando um pequeno capital e oferecendo um programa para ajudar as empresas a chegarem do ponto A ao B de maneira mais rápida. Mentores e investidores fechavam o resto da equação, apoiando os empreendedores com a sua experiência e capital.

Em 2007 o movimento se expandiu para a Europa e em 2011 chegou ao Brasil. E então surgiram as Aceleradoras, empresas especializadas em oferecer esse suporte às empresas nascentes, de forma a buscar o desenvolvimento e rápido crescimento de startups, auxiliando-as a obter novas rodadas de investimento ou a atingir seu ponto de equilíbrio - quando elas conseguem pagar suas próprias contas com as receitas do negócio.

Um programa de aceleração, no entanto, não consiste somente em aportar capital. Aliás, é cada vez mais evidente que o capital não financeiro, o chamado capital inteligente, tem efeito tão ou mais positivo na consolidação da empresa.

Além do recurso financeiro, um programa de aceleração deve conter:

Acesso ao Mercado - uma rede de relacionamentos com grandes empresas, por exemplo. Permite-se, dessa forma, que as empresas aceleradas tenham acesso a oportunidades de negócios em seus mercados.

Acesso a Investidores - A apresentação a investidores pode ocorrer tanto de forma coletiva, quanto de forma individual, durante ou após o programa de aceleração, de forma a permitir que startups com diferentes necessidades de capital e em diferentes setores consigam captar.

Mentoria - De forma a complementar os conhecimentos e a experiência do empreendedor, o programa pode oferecer um quadro de mentores diversificado, contando com outros empreendedores mais experientes, empresários e especialistas em temas específicos. O mentor é um guia, um conselheiro, alguém com vasta experiência profissional no campo de trabalho da pessoa que está sendo ajudada. A mentoria é talvez a ferramenta de desenvolvimento profissional mais importante, e consiste em uma pessoa experiente ajuda outros menos experientes.

Workshops - Todos os empreendedores das empresas aceleradas recebem inúmeros treinamentos e capacitações, geralmente abrangendo áreas como inovação, desenvolvimento ágil, marketing, aspectos jurídicos, finanças, negociação, oratória, captação de investimento, entre outros.

Benefícios com Parceiros – algumas aceleradoras contam com uma série de parceiros que oferecem serviços e descontos para as empresas aceleradas, o que permite a elas economizar recursos.

A Secretaria de Desenvolvimento Econômico tem um projeto para a criação de um Centro de Inovação, que contará com espaço de coworking, espaços para incubação e um programa de Aceleração. Já existem alguns projetos de aceleradoras públicas com bons resultados, e a intenção é lançar a novidade em Campo Mourão também.

Por outro lado, fizemos em 2017 uma adaptação do conceito de Aceleração de Empresas para atender aos Micro Empreendedores Individuais – MEI´s atendidos pela Casa do Empreendedor. Com resultados bastantes satisfatórios, a versão 2018 do programa está sendo lançada nos próximos dias. O objetivo do VOA MEI – Programa de Aceleração para Empreendedores Individuais – é oferecer a oportunidade de ter acesso a informação, mentoria, crédito e capacitação para transformar seu negócio e buscar um patamar mais alto de empreendimento.

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Um ano de desafios

“A política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes.” - Winston Churchill

No final de 2017, falava-se muito entre o empresariado que 2018 seria um ano difícil. Copa do Mundo e Eleições normalmente tumultuam o ambiente econômico no Brasil e fazem com que as empresas e os investidores segurem o ritmo.

Bem, passada a Copa do Mundo, que afinal foi um pouco mais curta para nós do que o esperado, entramos no segundo semestre com a perspectiva eleitoral.

Se o primeiro semestre não demonstrou grande reação da economia, a perspectiva é que até as eleições de outubro o país pare de vez.

O Congresso Nacional está em recesso, e são poucas as chances de que, após o seu término, os deputados e senadores voltem a um ritmo de trabalho condizente com o que o país necessita. Pelo contrário, a probabilidade é de que saiam a seus redutos eleitorais a caça dos votos.

Com isso continua o marasmo que tomou conta de 2018. Nenhuma votação importante, nenhuma reforma significativa, decisões tomadas sob a pressão do eleitoralmente correto, nada de ações que possam desagradar eleitores.

Então, enquanto os Governantes Federais e Estaduais estão de olho no poder a partir de 2019, você, empresário e empreendedor, passa por mais um período de grandes desafios para se manter no mercado.

Além das questões de ordem legislativa e executiva ficarem estagnadas, há ainda uma grande incerteza em relação ao próprio processo eleitoral e seu desdobramento – leia-se resultado das urnas.

A economia encontra-se numa encruzilhada, pois ainda é muito incerto o cenário eleitoral. A começar pela própria elegibilidade de Lula, que pode ser decidida em mérito final somente após as eleições. Ou seja, se ele puder ser candidato, poderá, em caso de vitória, tomar posse? Num cenário desses, quem arrisca empreender ou investir no país?

Mas, ainda que resolvida a questão do líder do PT antes do pleito, há ainda muitas incertezas quanto ao perfil do candidato eleito, bem como seu poder de liderança para fazer acontecer as reformas necessárias.

Um vencedor de características reformistas, vencendo a eleição com um percentual de votos significativo e maioria no Congresso pode levar o país a enfrentar mais rapidamente suas agruras e avançar nas questões mais urgentes, como a reforma da Previdência, por exemplo. Este cenário poderia levar o país a um patamar de crescimento do PIB de 3% ao ano, indicam alguns especialistas.

Por outro lado, com um presidente conservador eleito, o mercado pode sentir um cenário antirreformista instalado, o que segundo os analistas, poderia causar um efeito negativo forte. A avaliação é de que a economia brasileira teria maior percepção de risco, podendo levar a uma desvalorização do real, aumento de inflação e juros, afastando ainda mais investimentos e crescimento econômico. Neste cenário, o PIB não cresce mais de 1% a.a., indicam economistas.

Um exemplo que ilustra essa situação é uma entrevista da diretora-geral da Sephora no Brasil, Flávia Bittencourt, no site UOL Economia. Segundo a executiva, a abertura de novas lojas no país vai ficar para 2019. Apesar de afirmar que acredita no país, opta pela cautela na hora de decidir a expansão da rede.

Infelizmente, é o que temos para esse período. É uma realidade para muitas outras empresas. Precisamos agir com prudência, mas em perder o otimismo. Acima de tudo, buscar as melhores opções para as eleições, pensando no interesse coletivo e no melhor para o país. E acreditar que teremos a partir de 2019 um país melhor para nós, nossas empresas e nossas famílias.

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Qual é o papel do Poder Público na geração de emprego?

"O primeiro passo rumo ao sucesso é dado quando você se recusa a ser um refém do ambiente em que se encontra" – Mark Caine, jornalista

É comum em épocas de campanha os candidatos prometerem gerar emprego. Mas qual é o papel do Poder Público na geração de vagas de trabalho? A não ser que o prefeito contrate gente para trabalhar na Prefeitura, que é a única forma direta de atender a esta promessa, as outras formas serão sempre relacionadas a dar condições e motivos para os empreendedores fazerem isso. Seja através de novas contratações para as empresas que já existem, seja através da criação de novas empresas no município.

É notório que o Brasil de forma geral tem um ambiente hostil para o empreendedorismo. Enorme carga tributária, legislação ultrapassada, burocracia excessiva são, entre outros, fatores que afastam qualquer motivação para empreender ou contratar mais colaboradores.

Além disso, criou-se ao longo do tempo uma visão de que é um excelente negócio ser funcionário público. Emprego estável, em geral com carga horária menor do que o setor privado, bons salários, aposentadoria integral, e outros atrativos levam cada vez mais pessoas a quererem fazer um concurso público.

Percebemos isso quando vamos fazer palestras ou apresentações da Secretaria nas Faculdades ou Escolas de Campo Mourão. A cada 100 jovens, 95 pelo menos não pensam em empreender. E 90 querem fazer concurso.

Mas, voltando ao tema principal, cabe ao poder público mitigar estas dificuldades para permitir que cada vez mais pessoas possam trabalhar e obter renda, seja através do emprego, seja através do empreendedorismo.

Para isso criam-se políticas públicas de desenvolvimento econômico. Em Campo Mourão, estamos trabalhando com a revisão e ampliação da Lei das Micro e Pequenas Empresas. Foi criado, em novembro de 2017, o Comitê Gestor Municipal das Micro e Pequenas Empresas, com a missão de fazer implementar no município as prerrogativas legais de incentivos às ‘MPEs” já existentes no Brasil desde 2006, com a criação da Lei Geral federal.

Um dos principais aspectos relacionados ao trabalho deste Comitê é a criação do chamado “ambiente mais favorável” para empreender. Com iniciativas de desburocratização, simplificação de processos, acesso a crédito, entre outros, espera-se que as pessoas consigam iniciar e manter seus negócios, gerando mais empregos.

De acordo com o Sindicato das Micro Empresas de São Paulo – SIMPI, em média uma micro empresa gera 7 empregos diretos e 15 indiretos. São números como estes que nos fazem acreditar o caminho para uma economia mais sustentável passa pelos pequenos empreendedores.

Outra iniciativa que tem gerado bons resultados é a Casa do Empreendedor. No primeiro semestre de 2018, foram atendidas quase 4000 pessoas, e criaram-se 357 novos micro- empreendedores. Numa conta rápida, se metade destes novos empresários tiverem um auxiliar, o que é permitido por lei, teremos mais de 500 pessoas que saíram da fila do desemprego e estão gerando sua própria renda.

Precisamos de pessoas que queiram transformar seus sonhos em realidade, através do empreendedorismo. Mas precisamos de Políticas Públicas que não obstruam esse desejo. Cabe ao Poder Público e às entidades de apoio criar condições de desenvolvimento de novos negócios e ampliação daqueles que já estão no mercado.

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Política x gestão pública

O Brasil progride à noite, enquanto os políticos estão dormindo. Elias Murad

Neste texto, vou me permitir usar o vocábulo “Política” como sinônimo da Política Partidária, essa que nós vemos diariamente nos noticiários, essa dos acordos de poder. Então, para efeitos desta coluna de hoje, não estou falando da Ciência de Governar, nem do conceito aristotélico de homem político.

Isto posto, o que vemos é um descrédito quase unânime com a política. E desde os manifestos de 2013 as decepções só crescem. Na sequência do movimento das ruas veio a Lava-Jato, e cada nova operação deflagrada traz uma nova lista de políticos envolvidos em algum esquema de propina, financiamento de campanha, desvio de recursos públicos, etc, etc.

Ocorre que estamos prestes a realizar uma Eleição de enormes dimensões. E, ao meu ver, o momento é muito mais delicado do que outras eleições pelas quais passamos. Primeiro, porque a enxurrada de delações, denúncias e operações envolvendo os políticos atuais e ex-ocupantes de cargos públicos criou uma espécie de desconfiança generalizada da sociedade, não se distinguindo neste meio os bons e maus políticos. Depois, esse desgaste generalizado dos políticos leva a população em geral a não querer aprofundar debates, muitas vezes simplesmente porque “não quer saber desses políticos”.

Este segundo aspecto é facilmente perceptível quando observamos a superficialidade de debates em torno de projetos importantes para o País, o Estado ou o Município.

Cada vez mais comum é o cidadão colocar “no mesmo saco” os políticos profissionais e os gestores públicos.

Se quisermos superar as agruras do momento atual e buscar iniciar um novo ciclo de desenvolvimento para o Brasil, é necessária uma reflexão mais profunda quanto ao perfil dos ocupantes de cargos públicos.

Lembro quando o João Dória se elegeu prefeito de São Paulo, e não perdia uma oportunidade de dizer que não era político, e sim gestor. Claro que se tratava de um embuste, tanto que largou o cargo rapidamente para se candidatar a governador. Mas a tentativa dele naquela época era justamente descolar da figura do político profissional e tentar emplacar a imagem de um gestor público.

Mas, diferente do exemplo do ex-prefeito, temos nas diversas instâncias de poder pessoas com alta capacidade de gestão. São profissionais capacitados que colocam seus conhecimentos e experiência ao bem do público, cuidando de Ministérios, Secretarias, Procuradorias, Educação, Desenvolvimento Econômico, etc.

Como citei, esses profissionais podem e devem contribuir para um debate firme e de qualidade, produzindo ideias e projetos capazes de produzir resultados de longo prazo ao País.

Estamos em um momento que exige reformas estruturais em diversos aspectos. Deixar esses debates ao sabor dos acordos de poder entre partidos, ou das trocas de favor entre lideranças dos poderes legislativos e executivo é a receita certa para a catástrofe.

A manutenção da democracia e a chance de mudanças só se dará através do voto. Dizer que não quer saber de política, não querer participar de debates, não ouvir gestores públicos competentes, é terceirizar seu futuro e o futuro do país. Não exercer sua opção é deixar os outros optarem por você.

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