Tribuna Livre
Em 2018, vamos de vice

O brasileiro não gosta de pensar em vices. Somos um povo ligado ao futebol, acostumados ao topo das competições, e falar em vice é remeter ao segundo lugar. O termo de fato não é bem-vindo no mundo esportivo, mas quando se trata de Política, os vices são mais importantes do que o eleitor costuma pensar.

Em uma leitura recente, deparei-me com a notícia de que o Vice-Prefeito de Campo Mourão, Beto Voidelo (PPS), pediu demissão da Secretaria de Ação Social. Oficialmente, o discurso é de que se limitar a uma única secretaria o deixava “meio preso”. Eu próprio já fui Vice-Prefeito da cidade e sei que as relações no gabinete nem sempre são simples. Afinal, é comum que se enxergue o vice como mero suplente, o que é uma definição limitada – e que pode impor limites aos vices. Exercer o posto de vice é participar ativamente da campanha. Não raro vemos um candidato ao cargo executivo como pessoa experiente e mais velha. Ao seu lado, aparece a figura mais jovem e disposta a assumir o front no caso das necessidades. O vice precisa estar em sintonia com o titular, participando das reuniões e auxiliando nos momentos de decisão ao mesmo tempo em que se apresenta como contraponto, alicerce para ponderações.

Desconfio que o pedido de demissão de Voidelo pode refletir algo mais profundo. O que de fato ocorreu no gabinete que levou ao afastamento precoce? Disputas internas são frequentes, muitas delas resolvidas com algumas concessões, outras desencadeando rompimentos. Alguns titulares enxergam sombras perigosas em seus suplentes, ameaças ao cargo. No meu mandato, recordo que o Prefeito raramente se afastava da Prefeitura, sempre alerta, como quero-quero protegendo o ninho. Tinha medo de um “golpe”. Nossas discordâncias se avolumaram ao decorrer do mandato, as limitações que me eram impostas se tornaram claustrofóbicas, o que desencadeou o rompimento da nossa aliança. Constatar esse cenário é uma ilustração de como, na Política, a tropa de choque é uma e a de ocupação, outra. Se durante as campanhas as alianças entre as equipes são firmes, todos jogando juntos como em uma partida entrosada da nossa Seleção, na hora de governar, os vencedores costumam dar poder aos seus próprios apadrinhados. Nessa equação, o vice acaba sendo posto para escanteio.

Em tempos recentes, a imagem do vice em nosso país remete também ao atual Presidente da República, Michel Temer (PMDB). Sua ascensão ao cargo executivo mais alto do país não foi pacífica ou isenta de polêmicas. Parte do eleitorado da ex-Presidente Dilma Rouseff (PT) desaprova que seu vice tenha assumido a presidência – grande parte do eleitorado da oposição tampouco assume relação de plenos amores com o Presidente. Mas, ao votar na chapa de Dilma Rouseff, o eleitor tinha conhecimento que o cargo de vice era ocupado por Temer – escolhido para que se firmasse a então aliança entre PT e PMDB. Estamos diante da prova de que o brasileiro não se atenta para o cargo de “suplente”? Retornando ao cenário local de Campo Mourão, os eleitores mais atentos recordarão o ocorrido entre Rodrigo Salvadori (PSD) e a ex-Prefeita Regina Dubay (PR). O que começou como uma bela eleição para Dubay e oportunidade para Salvadori, acabou em desentendimentos e até mesmo declarações abertas à Imprensa por parte do vice contra a Prefeita. Na eleição seguinte, concorreram um contra o outro e ambos acabaram derrotados, enfraquecidos pelas disputas internas.

Mas o cargo não é rondado apenas por experiências malsucedidas. Há casos de vices prósperos. Cida Borguetti (PP) é exemplo de fortuna. Como Vice-Governadora do Estado do Paraná, participou ativamente do governo de Beto Richa (PSDB), e não esconde a pretensão de se candidatar ao cargo de Governadora nas eleições de 2018. O Governador deve apoiá-la, tanto como ela o apoiará na corrida pelo Senado. Em Campo Mourão, Tauillo Tezelli atuou como um vice leal ao Prefeito Rubens Bueno (PPS), em um mandato sem tempestades, o que lhe valeu o apoio de Bueno e o levou ao cargo de Prefeito em 1996 e à reeleição em 2000, além do mandato atual. E na presente gestão da Prefeitura de Curitiba as relações entre o Prefeito Rafael Greca (PMN) e seu vice, Eduardo Pimentel, também parecem correr bem – se permanecerem pacíficas, Greca conta com um ótimo cenário para administrar a capital com tranquilidade. Será que podemos dizer o mesmo de Campo Mourão frente ao acontecimento recente? Afinal, a Política é feita do compartilhamento de ideias, do diálogo entre visões diferentes e de alianças firmes. Brigas internas na administração são sinais de que algo não está bem alinhado e podem ser catastróficas para o futuro de uma cidade, estado ou país.

O ano que entra é de eleição. Para além dos cargos executivos e legislativos, é importante que o eleitor se atente aos vices das chapas dos seus candidatos para Presidente e Governador – sem se esquecer das eleições para Prefeitos em 2020. A informação é primaz no momento de escolher aqueles que devem ditar os rumos do Brasil pelos próximos quatro anos. E se, em pleno ano de Copa do Mundo, tudo que o brasileiro quer é evitar o vice, na Política, fugir dessa palavra pode ser ignorar um importante agente de transformação na vida de todos os cidadãos.

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Namir Piacentini