Tribuna Livre
Gandaia também é nostalgia.

A voz grossa do locutor, mulato magrela e desengonçado, anunciava: “Boate Sorriso apresenta hoje e todas as noites, Gold Star Balet”, e lá vinha um desfile de mulheres lindas, densamente maquiadas e com roupas sensuais, apresentar um espetáculo, naquilo que chamávamos de “Balet” e que era importante porque ‘vinha de fora”, num grupo imenso. Atendíamos à necessária consumação (de consumir) antes de consumar o que se pretendia consumar (de concretizar a relação sexual comprada).

A tal boate sorriso, naquilo que, na época, era o extremo da Rua Santa Catarina, antecedida por um tapume de taboas atravessado no meio da rua, que visava — que ironia — preservar ou separar a moral que ficava do lado de lá, daquela que deveria ficar do lado de cá. Para se chegar à zona boêmia era preciso transpor esse tapume através de um portão. O tapume fechava a rua. Tempos em que não existia AIDS e as doenças venéreas adquiridas eram curadas no balcão da farmácia, com duas ou três benzetacil ou, às vezes, com alguns comprimidos de antibióticos.

Era a famosa gonorreia (blenorragia), que era facílima de curar, ou aquela que chamávamos de “cavalo de crista” (HPV), que exigia médico e exames de laboratórios, cuja cura demorava mais tempo, com medicação mais intensa. No meio disto, uma profusão de outras pequenas moléstias que eram curadas “no grito”, ou seja, sem grandes cautelas. Mas que se curavam com relativa facilidade.

A orquestra que animava a “Boate Sorriso” era composta pelo “Zé Pinto” (marido de D. Lucrécia) na guitarra, mais uma bateria e um pistão (ou piston, para quem prefere o estrangeirismo) ou um saxofone. E, lógico[I1] , música do tempo das serestas e quando as músicas ainda tinham poesia. E, mesmo dançando com uma “mulher da vida” existia um imenso romantismo. E existiam boates de várias categorias sociais, desde as mais sofisticadas, destinadas a empresários e homens que detinham posses, até as mais humildes, numa fileira de casas que tinham as suas respectivas frequências, de acordo com a categoria. As últimas, onde terminava a rua, eram míseros casebres.

A mais chic era a D. Lucrécia. Sim, Dona, porque todos a chamavam assim. E era uma negra já de certa idade, mas muito respeitada por todos, tanto pelas mulheres, como pelos clientes da casa. E existiam os gigolôs, que tiravam proveito das mulheres que por eles se apaixonavam. Sim, porque puta também tem sentimentos e também se apaixona. E esses comandavam a atuação de “suas” mulheres, que, corretamente, dividiam com eles o dinheiro do comércio infame.

Na esquina que antecedia ao tapume havia um bar, onde se comprava maconha no balcão, sem muito cerimônia e sem muito segredo. As drogas comuns, além da maconha, eram as “boletas”, ou seja, os comprimidos de Pervintin, ou anorexil, (ou outras) que eram anfetaminas cuja estrutura química estimulava o sistema nervoso central e produzia mudanças de comportamento. Nem eram fabricadas clandestinamente, porque a sua venda não era nem proibida, nem controlada. Comprava-se livremente no balcão da farmácia.

No início, as mulheres se deslocavam em charretes especiais (com pneus e estofamento), adornadas com flores de plástico. Depois, passaram a se movimentar com o uso do táxi (que era chamado de “carro de praça”).

A ZBM, ou “zona do baixo meretrício” existia em todas as cidades, pequenas ou grandes, e seu tamanho, ou quantidade e qualidade, eram proporcionais ao tamanho das cidades. Foram desaparecendo gradativamente, tanto pela mudança dos costumes, quanto pelo surgimento da AIDS, que era doença incontornável e que matava. Hoje não mata, mas também não se cura. Mas antes de não matar o ser humano, acabou matando os bordéis. S prostituição de hoje está nas ruas.

A música dessas casas, assim como o romantismo com as mulheres que as frequentavam não desapareceu da mente dos saudosistas. E faz hoje, ainda que a moral diga o contrário, o romantismo nostálgico de muitos velhos.

Irajá Pereira Messias | [email protected]