Tribuna Livre
Monólogo de um Réu

O Salão do Júri estava repleto de pessoas. Alguém acabara de ser julgado. O veredicto dos jurados foi de condenação. Seu nome? – Não interessava mais o seu nome; ali era chamado apenas de réu. É uma palavra que se originou do latim e pressupõe a culpa. Ela dói; magoa; mancha e denigre. O Juiz de pé, começa ler a sentença condenatória. Mas para o magistrado, era apenas mais uma sentença prolatada. O crime? Era um crime de homicídio, motivado por uma discussão de trânsito, que os jurados julgaram motivo fútil. Agora sim, interessava bastante: poderia ter sido evitado, poderia ter sido retirado após a batida dos carros entre réu e vítima, mas o sangue ferveu nas veias. A adrenalina ficara incontrolável. Mas agora é tarde. De nada adiantara o esforço do advogado de defesa. Mesmo assim, era-lhe muito grato. Só lhe restara o monólogo dos culpados, que travou consigo mesmo:

SIM, EU SOU O ACUSADO, desgraçado aos olhos da população; destroçado pela imprensa e recriminado nas ruas pelos olhares de soslaio dos que por mim passam, esgueirando-se pelo lado oposto;

ASSIM ACUSADO, sentado no banco da desolação, sem ter a coragem de encarar meus semelhantes, que hoje se reuniram para decidir o meu destino.

MAIS QUE ACUSADO, infeliz, humilhado, esperando a sentença final, tal qual um animal aproximando-se do matadouro para fornecer sua carne aos luxuosos banquetes sociais;

RÉU CONFESSO, prestes a perder a liberdade – bem sublime que só agora tanto valorizo, também tenho alma! E como ferem nela as palavras da acusação, os artigos da lei, o clamor da consciência, o martelar da culpa, o arrependimento e o peso da sentença;

FINALMENTE CONDENADO, neste momento, só tenho a frase da amargura para expressar meu sentimento: desejo que juízes, promotores, jurados, advogados, nunca estejam neste lugar, para não sentirem a solidão, o medo, o desprezo, a angústia e o pedido silencioso de perdão!

Crônica do livro “Histórias que eu não havia contado”, lançado nesta segunda-feira, 13, pelo advogado e escritor Antônio Sena, de Goioerê.