À mercê de tudo

Eles andavam sozinhos. Numa jornada solitária. Percorriam estradas e dormiam sob as marquises das cidades. Mas hoje, parece que se juntaram. Estão caminhando em bandos. Uniram a fome, solidão e o álcool. Dividem tudo o que ganham. São corporativistas. Cuidam uns dos outros. Mas num mundo de isolamento social, não ligam pra isso. Sempre foram invisíveis. “Se a gente morrer quem vai ligar”? pergunta um senhor completamente embriagado. 

Deitado num dos bancos da praça do Fórum, em plena sexta feira santa, quase não conseguia falar. Disse que o seu nome é Mota. Já tem mais de 60. A longa barba grisalha entrega a idade. Teria vindo de Curitiba. É um andarilho. Anda por todos os lugares. Segue as placas. Mas caminha sem direção. Aos pés do poder judiciário de Campo Mourão, não está nem aí para a pandemia. Está sem banho. Sem higiene. Sem proteção. Está vulnerável aos riscos do vírus. Com ele, apenas dois companheiros, um banco e alguns sacos com roupas. Antes da reportagem sair, ele havia caído do banco.

Alessandro Sales tem 29 anos. É de Apucarana. Mas não consegue ônibus para voltar. Estava junto com Mota. Sob os bancos da praça, muitos corotes de cachaça. Ela esconde a fome. Inibe o frio. Faz o mundo tornar-se menos preto e branco. Conta que vem dormindo na rua já, a quase um mês. Faz a higiene numa torneira da praça. “Não sou bandido não. Pode até parecer. Mas não faço mal a ninguém, senhor”, disse ao repórter. Ele também estava sem nenhuma proteção. Estava sim, a mercê de tudo. Pediu pra que o repórter ligasse a uma irmã. Ela tem carro. E poderia vir apanhá-lo. Ligou-se. Mas ela, a irmã, disse não querer vê-lo por perto. “É agressivo. Bate até na minha mãe”, disse do outro lado da linha. 

Um terceiro homem, aparentando 55 anos, não é morador de rua. Tem casa na cidade. Mas segundo ele, a mulher o mandou embora. Então, aproveitou as companhias para tomar o aguardente. Também estava sem máscara. Sem luvas. Sem nada. Não liga pro tal do vírus. “Deus cuida de mim”, disse. Mas chega ajuda. Um homem levou comida aos três. Tinha arroz. Salmão e até sobremesa. Tudo quentinho. Comida de sexta-feira santa. Um deles fala: “Olha, tem salmão. É comida de rico”. 

Além de invisíveis na praça do Fórum, também observou-se moradores sem teto na praça da Catedral. Eram pelo menos seis. Todos juntos. Também sem proteção. Outros foram vistos andando pelas ruas. Alguns dormindo sob marquises. Todos, sem exceção, estão vulneráveis. Escolheram por opção, as ruas. É o livre arbítrio. E estão sob a proteção de Deus.