Chuvas travam plantio da soja e ameaçam segunda safra de milho na região
As chuvas que paralisam o plantio da soja na região de Campo Mourão já ameaçam reduzir a área de milho na segunda safra. Com parte das lavouras ainda por semear, produtores temem perder o período adequado para o cultivo seguinte e já consideram substituir o cereal por outras culturas.
Em Campo Mourão, o produtor Gabriel Jort ainda precisa semear 40% dos aproximadamente 50 alqueires destinados à soja. O também produtor Armando Sambati Filho, que trabalha em um grupo familiar com propriedades em Piquirivaí, distrito de Campo Mourão, Luiziana e Araruna, está com cerca de metade dos 340 alqueires plantados. Ambos afirmam que, sem as interrupções provocadas pelas chuvas, já teriam encerrado ou estariam concluindo a semeadura.
O levantamento do Departamento de Economia Rural (Deral), vinculado à Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab), aponta que, na regional de Campo Mourão, o plantio da soja atingiu 70% da área prevista. Foram semeados 454,3 mil dos 649 mil hectares estimados. Nas propriedades em que o trabalho ainda não terminou, a preocupação é com o efeito do atraso sobre o restante do calendário agrícola.
Jort pretendia cultivar cerca de 80 alqueires de milho na segunda safra, mas já considera que não conseguirá manter toda a área planejada. Entre as alternativas, cita trigo, sorgo ou plantas de cobertura, como aveia e misturas de espécies. “Não vai dar para toda a área prevista, por causa do atraso”, afirmou. Segundo o produtor, a semeadura da soja deveria ter terminado nos primeiros dias de outubro. Com as paralisações, o planejamento para o milho terá de ser revisto.
Armando Sambati também teme que o atraso inviabilize o cultivo em parte das áreas. “Se atrasar o plantio, não consegue fazer o plantio do milho segunda safra”, preocupou-se. O receio é que a semeadura mais tardia exponha o milho ao frio e às geadas adiante.
Segundo Sambati, dos 340 alqueires reservados à soja pela família, aproximadamente 170 ainda aguardam semeadura. Ele informou que as máquinas estão paradas há seis dias e que, em um intervalo de dez dias, havia conseguido trabalhar em apenas dois. A família também reservou 25 alqueires ao milho de verão, mas ainda não havia conseguido plantá-los. Embora o Deral tenha registrado a conclusão da semeadura dos 10 mil hectares previstos para essa cultura na regional, o trabalho permanecia pendente nas propriedades da família.
O produtor comenta que, mesmo com a volta do sol, a retomada não é imediata. Segundo ele, algumas áreas precisam de aproximadamente dois dias para apresentar condições de receber as máquinas. Assim, uma sequência de quatro ou cinco dias de tempo firme pode resultar em apenas três dias de trabalho.
Gabriel Jort enfrenta a mesma dificuldade. De acordo com ele, seriam necessários três dias de sol para entrar na lavoura em condições adequadas. O plantio do milho de verão, no caso dele, já foi concluído. Os registros de chuva que o produtor mantém há 44 anos ajudam a dimensionar a situação em sua propriedade. Segundo ele, para se ter ideia, setembro acumulou 430 milímetros, superando a maior marca anterior para o mês, de 356 milímetros. “Se neste mês de outubro a chuva continuar, vai superar esta marca”, observa.
Os problemas também aparecem nas lavouras já implantadas. Jort relata o amarelecimento tanto na soja quanto no milho, além de atraso na aplicação de herbicidas. “A soja está amarela, o milho está amarelo”, descreveu.
O produtor afirmou que não teve problemas de erosão ou água empoçada em suas áreas, situação que atribui ao manejo da palhada. Nas propriedades de Sambati, porém, a chuva provocou erosões e há pontos em que a água está minando no terreno, segundo ele. O produtor contou que optou por uma semeadura mais superficial, considerando as previsões de chuva, e avalia que a decisão ajudou a evitar problemas maiores com as sementes.
O agente técnico do Deral, no núcleo de Campo Mourão, Paulo Borges, explicou que o excesso de água e a falta de luz afetam o desenvolvimento inicial das culturas. “As áreas já implantadas apresentam, em geral, desenvolvimento inicial satisfatório. No entanto, o encharcamento do solo pode provocar falhas de germinação, enquanto a baixa luminosidade retarda o crescimento das plantas”, observou.
Ele complementou que o excesso de chuva e os dias nublados podem prejudicar a fotossíntese, a aeração do solo, o desenvolvimento das raízes e a fixação de nitrogênio na soja, interferindo no desenvolvimento da cultura e em seu rendimento. Além disso, ventos fortes e episódios de granizo das últimas semanas causaram redução do número de plantas e desfolhamento em pontos isolados da regional. Até o momento, porém, não há indicação generalizada de necessidade de replantio.
Prejuízos nas culturas de inverno
Antes de dificultar a implantação da safra de verão, a chuva já havia causado perdas nas lavouras de inverno em algumas propriedades na região de Campo Mourão. Armando Sambati informou à TRIBUNA que sofreu prejuízos no trigo e na aveia, atingidos no período de colheita, com redução da produção e problemas de qualidade no trigo.
O quadro também aparece no boletim estadual. Segundo o Deral, a umidade elevada tem comprometido a qualidade dos grãos de trigo, com registros de peso hectolítrico, indicador utilizado na classificação comercial, abaixo do esperado, além de perdas de produtividade.
Nas áreas ainda não colhidas, a dificuldade de acesso das máquinas aumenta o risco de novos prejuízos. O departamento também registrou debulhamento de grãos provocado por granizo e condições favoráveis à ocorrência de doenças.
As dificuldades atingem também lavouras de cevada, triticale e aveia. “Os intervalos curtos de tempo firme restringem as operações e, no caso da cevada, a qualidade dos grãos tem dificultado o atendimento aos padrões exigidos para a fabricação de cerveja”, aponta o boletim divulgado pelo Deral nessa quinta-feira (15).
Apesar das dificuldades relatadas pelos produtores, o levantamento regional do Deral aponta que 98% das lavouras de soja já implantadas estão em boas condições e 2% em condições médias. A mesma classificação foi registrada para o milho de verão.
No Paraná, o Boletim Conjuntural do Deral, divulgado nessa quinta, informa que a soja da safra 2026/27 chegou a 39% da área prevista, de pouco mais de 5,7 milhões de hectares. O índice é igual ao registrado no mesmo período da safra anterior, apesar da paralisação dos trabalhos nesta semana.
De acordo com o departamento, a semeadura começou em ritmo superior à média histórica, mas perdeu velocidade com as chuvas de outubro. Em algumas cidades, o volume acumulado já ultrapassou a média esperada para o mês inteiro. O milho de primeira safra atingiu 90% dos 371 mil hectares projetados no Estado.

