Dom Pedro II e o Paraná: Imperador já previa importância estratégica do Rio Ivaí
Em 5 de junho de 1880, em plena viagem pelo Paraná, o imperador Dom Pedro II registrou em seu diário uma observação que ecoa até hoje: “A viação é a principal necessidade do Paraná. Convém levá-la até as férteis margens do Ivaí. Aí é que se estabeleceram prósperos agricultores”.
O relato, feito de próprio punho, revela a visão estratégica de um dos maiores brasileiros de todos os tempos sobre a integração do interior do país e o papel crucial da infraestrutura para o desenvolvimento. O imperador defendia que estradas de ferro margeando o Rio Ivaí seriam fundamentais para impulsionar a prosperidade agrícola e integrar economicamente a região.
Já na República, a partir de 1900, surgiram os primeiros estudos para a construção de ferrovias ligando o Paraná ao Mato Grosso, passando por Campo Mourão — um projeto que, apesar de nunca ter sido concluído, demonstra a atualidade da preocupação imperial.
A visita de Dom Pedro II e da imperatriz Teresa Cristina ao Paraná, em 1880, foi marcada por intensas agendas oficiais e pelo entusiasmo popular. Entre os compromissos estavam o lançamento da pedra fundamental da estrada de ferro de Paranaguá, a inauguração da Santa Casa de Misericórdia e o anúncio da construção da penitenciária. O cortejo imperial mobilizou multidões por onde passou, gerando grande repercussão na imprensa de Curitiba e do Rio de Janeiro.
O historiador David Carneiro, em sua obra “D. Pedro II na Província do Paraná – 1880”, publicada em 1930, recuperou esses relatos a partir das traduções de Saint-Hilaire, das memórias de Ernesto Mattoso (“Coisas do meu tempo”) e do material jornalístico da época, especialmente do periódico O Dezenove de Dezembro, que dedicou quatro edições inteiras à cobertura da viagem.
Contrariando os boatos sobre uma suposta fragilidade de saúde, os registros destacam o vigor físico do imperador, que percorreu mais de 600 quilômetros em estradas de terra, enfrentando chuvas, lama, exaustão de animais e precariedade de infraestrutura. O trajeto incluiu cidades como Antonina, Quatro Barras, Curitiba, Campo Largo, Palmeira, Ponta Grossa e Castro. No retorno, a comitiva ainda passou por Lapa, Araucária, Morretes e Antonina, antes de encerrar a jornada em Paranaguá.
Para o historiador Jair Elias, a celebração do bicentenário de Dom Pedro II, em dezembro de 2025, é uma oportunidade de resgatar a atualidade de sua visão: “Dom Pedro II foi um monarca que enxergava além do seu tempo. Sua percepção sobre a importância estratégica do Rio Ivaí e do desenvolvimento ferroviário demonstra o quanto ele estava comprometido com o futuro do Brasil. Celebrar sua memória é reconhecer o legado de um dos maiores brasileiros de todos os tempos”.

