Expansão da Coamo pode criar hub ferroviário em Cambé

A Coamo, maior cooperativa agroindustrial da América Latina, iniciou um movimento de expansão considerado histórico na região Norte do Paraná. A aquisição de quatro unidades agrícolas anteriormente operadas pela Belagrícola, somada a contratos de prestação de serviços em outras dez estruturas, marca a maior ampliação geográfica da cooperativa em um único movimento desde sua fundação. O investimento inicial foi de R$ 136 milhões na compra das unidades de Assaí, Bela Vista do Paraíso, Sabáudia e Cambé, ativos que pertenciam a um fundo imobiliário gerido pelo Grupo Pátria e que estavam arrendados à Belagrícola.

Além de ampliar a presença da cooperativa em uma região onde historicamente tinha pouca atuação, o projeto abre espaço para uma estratégia logística que pode transformar Cambé em um ponto de transbordo ferroviário para o escoamento de grãos da produção paranaense e do Mato Grosso do Sul. De acordo com o presidente executivo da Coamo, Airton Galinari, a expansão para o Norte Pioneiro surgiu como uma oportunidade estratégica. A cooperativa vinha concentrando seus planos de crescimento principalmente em Mato Grosso do Sul e em regiões do Paraná próximas às áreas onde já atuava.

Segundo Airton Galinari, a possibilidade de assumir estruturas já instaladas e bem localizadas mudou o planejamento. “Foi uma oportunidade, porque tem muita sinergia com as ações da Coamo. É uma região onde a cooperativa nunca atuou e que tem relação direta com nossos projetos logísticos e de exportação”, disse. A expansão também tem relação com a infraestrutura portuária que a cooperativa utiliza para exportação de grãos e derivados. A Coamo opera no Porto de Paranaguá e também desenvolve um projeto portuário em Itapoá, em Santa Catarina.

“Essa região do Paraná funciona como área de influência desses portos. Isso faz muito mais sentido logístico para nós do que, por exemplo, uma expansão para o norte do Mato Grosso do Sul, onde a melhor opção de escoamento seria o porto de Santos”, afirmou Airton Galinari.

Entre as quatro unidades adquiridas, a de Cambé ganhou destaque dentro do planejamento estratégico da cooperativa. Segundo Airton Galinari, a estrutura possui cerca de 30 hectares e está cercada pela malha ferroviária, condição considerada ideal para a implantação de um sistema de transbordo ferroviário. “Muito provavelmente, nós vamos implantar ali um transbordo ferroviário. A ideia é trazer a produção por caminhões até Londrina ou Cambé e, a partir dali, continuar o percurso em vagões”, destacou. O projeto, conforme o presidente executivo da Coamo, permitiria consolidar cargas vindas inclusive de regiões onde a cooperativa já atua, como o Mato Grosso do Sul, criando um novo corredor logístico de escoamento. “Essa integração rodoviária e ferroviária tende a reduzir custos de transporte e aumentar a eficiência da logística de grãos, principalmente para exportação”, explicou Airton Galinari.

Capacidade de armazenagem

De acordo com Airton Galinari, as quatro unidades adquiridas somam cerca de 217 mil toneladas de capacidade de armazenagem, ampliando a rede logística da cooperativa na região Norte do Estado.

A expectativa da cooperativa é utilizar as estruturas para receber a produção das próximas safras de soja e milho, além de oferecer serviços técnicos e comerciais aos produtores rurais locais. A proposta segue o modelo tradicional da Coamo: os entrepostos passam a oferecer assistência técnica agronômica, venda de insumos, serviços financeiros por meio da Credicoamo e apoio à comercialização da produção.

Além das quatro unidades compradas, a cooperativa também firmou contratos de prestação de serviços em outras dez estruturas que continuam ligadas ao processo de reestruturação da Belagrícola. Essas unidades estão distribuídas em duas regiões do Paraná: nos Campos Gerais (Tibagi, Teixeira Soares e Imbituva) e Região Norte (Tamarana, Londrina – Distrito de Irerê, Alvorada do Sul, Sertanópolis, Ibiporã, entre outras unidades próximas ao eixo Londrina–divisa com São Paulo).

Segundo Airton Galinari, nessas estruturas a cooperativa já mantém equipes operacionais. Cada unidade conta com profissionais responsáveis por assistência agronômica, classificação de grãos, operação de recebimento e atendimento a produtores interessados em se associar à cooperativa.

O presidente executivo comentou que o cenário que possibilitou a negociação foi a reestruturação financeira da Belagrícola. A empresa, tradicional distribuidora de insumos agrícolas fundada em Bela Vista do Paraíso, entrou em processo de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 2,2 bilhões em dívidas com credores e produtores rurais.

As quatro unidades compradas pela Coamo não pertenciam mais à empresa. Elas haviam sido vendidas ao fundo do Grupo Pátria em 2020 e estavam apenas arrendadas à Belagrícola, o que permitiu que fossem negociadas diretamente com a cooperativa. Para o fundo imobiliário proprietário dos ativos, a venda também foi considerada positiva, com retorno estimado de cerca de 15,7% ao ano sobre o investimento.

Expansão histórica

Airton Galinari informou que o movimento representa o maior crescimento territorial da cooperativa em um único momento, superando inclusive expansões anteriores no Oeste do Paraná. “Geograficamente, em número de unidades, é a maior expansão da Coamo de uma única vez”, afirmou.

Ele destacou ainda que a região Norte do Paraná passou por sucessivas crises envolvendo cooperativas e empresas do setor nas últimas décadas. “É uma região que sentiu muitos problemas com cooperativas e cerealistas ao longo dos anos. O produtor tem preocupação com a segurança Nas reuniões que fizemos, eles nem falavam de preço. Falavam de confiança”, observou. Segundo Airton Galinari, a proposta da Coamo é justamente oferecer estabilidade e previsibilidade para os produtores locais por meio do modelo cooperativista.

Fundada em 1970, a Coamo tem sede em Campo Mourão e reúne milhares de produtores cooperados, sendo considerada a maior cooperativa agroindustrial da América Latina. Em 2025, a organização registrou faturamento próximo de R$ 30 bilhões e segue ampliando sua presença logística e industrial no agronegócio brasileiro. A expansão no Norte do Paraná, aliada ao projeto de integração ferroviária em Cambé e aos investimentos portuários, sinaliza um novo ciclo de crescimento para a cooperativa — desta vez com forte foco em logística e originação de grãos.