“Invisíveis” não ficarão em casa
“Fiquem em casa”. A frase mais falada no momento de um país ainda confuso pela pandemia do Covid-19, não serve a toda população. Ela é barrada no caos social de milhares de “invisíveis” que habitam as ruas do Brasil. Uma parcela da sociedade não vista por governos ou pelas próprias pessoas ditas “visíveis”. Mas se eles não têm casa, para onde irão?
Em Campo Mourão, um trabalho realizado via município e Casa de Acolhida, retirou alguns moradores de ruas no último dia 18. Eles foram levados até o albergue e convidados ali a permanecer. Pelo menos, até que a epidemia seja controlada. Na Casa de Passagem recebem alimentação, banho e cama. Nada demais. Mas muito para quem nada tem. E, de certa forma, uma espécie de “Fique em casa”.
De acordo com Ana Cristina Gonzales Sanches, Presidente da Casa da Acolhida, embora algumas pessoas tenham sido levadas ao albergue, outras não aceitaram ajuda. E continuaram como estavam. Na rua. Mas agora a situação mudou. Novos andarilhos não serão levados ao local. É que os acolhidos estão em quarentena. De certo modo, protegidos pelo vírus. Agora possuem um teto.
Sanches explicou que a situação do coronavírus foi informada aos acolhidos. Por este motivo ressaltou-se a importância em não deixarem o lugar. “Não foram obrigados a ficar. Mas ficando, não podem sair. E se saírem, não serão mais acolhidos”, disse. Isso tudo para evitar a disseminação da doença entre os albergados e religiosos, que colaboram na administração. Pessoas que dedicam a vida a cuidar de pessoas.
A partir de agora “invisíveis” que chegarem a Campo Mourão, pelo menos por esses dias de epidemia, não serão mais recolhidos ao albergue. Na noite da última terça, um homem de 68 anos bateu no portão da Casa de Passagem. Pediu que entrasse. Não foi aceito. A recomendação é essa. Autoridades da cidade ainda não sabem o que fazer. Sanches explica que o município busca soluções. “Não temos como abrir exceções a outras pessoas, colocando em risco a saúde dos que já estão lá”. De acordo com ela, análises estão sendo feitas para verificar como proceder no caso de novos acolhimentos.
Carlos Alexandre Juncker, 34, é natural de Mariluz – cerca de 100Km de Campo Mourão. Mas está morando em Curitiba com a mulher e os filhos. Há 20 dias veio até a cidade buscar o benefício junto ao INSS para um acidente de trabalho. Além de não conseguir, passou a dormir nos bancos da praça São José. Estava sem dinheiro e sem um teto. Então buscou o albergue. “Estou aqui faz 15 dias. Não estou me adaptando muito. Mas sei dos riscos desse vírus aí fora. Vou ficar”, disse. De acordo com ele, hoje, são oito pessoas abrigadas no local.
Juncker já foi bóia fria, motorista, garçom. Longe da família e, isolado no albergue, ele ainda não acredita no que o mundo está vivendo. “Tenho uma família para sustentar. Tenho que trabalhar. Como vou fazer”? questiona. Mesmo “preso” na Casa de Passagem, ele sabe que é o melhor a se fazer. Juncker até pensou em deixar o local. Mas depois de refletir que tudo está fechado, buscar um emprego tornou-se uma angústia.

