Laura sai do hobby, enfrenta rotina de treinos e vira vice-campeã brasileira aos 12 anos
Em menos de um ano, a mourãoense Laura Botega Camargo, de 12 anos, transformou uma curiosidade de criança em uma rotina de atleta. Começou a pedalar há cerca de 10 meses. Influenciada pelo pai, entrou nas primeiras provas ainda sem experiência e, em sequência, foi acumulando resultados até alcançar o vice-campeonato brasileiro na categoria infantojuvenil.
A trajetória, curta no tempo e intensa no ritmo, exigiu adaptação rápida, disciplina diária e conciliação com a escola, algo que a família e a equipe apontam como o principal ponto de virada para a atleta. Laura conta que o ciclismo entrou na vida dela de forma simples, dentro de casa. “Meu pai começou com uma bike e pedi para andar. E foi indo aos poucos…”, disse.
A primeira bicicleta dela não foi comprada no impulso. Ao procurar a loja do Juliano César dos Santos Teixeira (diretor técnico da WK Team Ciclismo), ouviu que precisava ter certeza. “Inicialmente, o Juliano não me deixou comprar. Falou que eu tinha que ter certeza se eu iria gostar mesmo. Então me emprestou uma bike. Andei e gostei. Aí ‘fiz’ a cabeça do meu pai para comprar uma e não parei mais”, falou. Desde então, a rotina mudou. “Meus treinos eu cumpro de acordo com uma planilha elaborada pelo Juliano. Na escola, minhas notas estão boas. Estou me dedicando muito, tanto na escola quanto no ciclismo”, garantiu a atleta.

O treinador e atleta Werik Kauã Domingos, que vem acompanhando todo este processo, afirmou que, por ser muito nova, o início foi conduzido com cautela, sem pressão de rendimento. “A gente foi deixando-a mais livre no começo, ou seja, com treinamentos mais tranquilos para não pesar muito na cabeça dela.” Mesmo assim, o retorno veio cedo. “Só dela andar de bike, no natural, a primeira prova que ela foi, já deu um show. E aí a gente já viu o talento nela”, comentou.
Werik disse que a velocidade da evolução surpreendeu até quem está acostumado com competição. “Eu não esperava. Aconteceu tudo muito rápido. Com apenas 10 meses de treinamento, já conseguiu fazer o que atletas demoram anos para conseguir”, avaliou. Ele também apontou a constância como diferença. “Todo dia, faça sol, chuva, calor ou frio, ela está ali, fazendo os treinamentos certinho”, complementou.
Em casa, o pai Rodrigo do Carmo reforça que o projeto não começou como esporte, mas sim como passeio. “O intuito desde o começo era um hobby. Era só para ser um passeio com a família. Jamais passou em nossa cabeça começar com ciclismo para poder competir”, ressaltou. Ele disse que a mudança veio quando a atleta aceitou experimentar uma prova, mesmo com pouco tempo de bicicleta.

A estreia, segundo Rodrigo, foi em 27 de abril, em Ivaiporã, na Copa Cianorte. “Ela tinha pouco tempo de experiência. Pegou a bicicleta uma semana antes. O Juliano falou: ‘Vamos colocar a Laura em uma prova para ela saber como era.’” O pai lembrou a emoção da primeira chegada. “A hora que dá a largada até o final, a gente fica com o coração na mão. Mas a hora que vimos ela chegando em primeiro lugar, a gente ficou muito feliz”, lembrou. Depois disso, as viagens e as provas deixaram de ser exceção.
Vieram etapas estaduais, resultados em sequência e, em seguida, o Brasileiro. Rodrigo afirmou que a família não planejava disputar um campeonato nacional tão cedo. “Era uma coisa que a gente não esperava que fosse acontecer tão rápido”, frisou. Ele comentou que a filha, com poucos meses de prática, entrou em uma prova com atletas de vários estados. “Vieram crianças do Brasil inteiro. E a Laurinha entrou e ficou em segundo lugar. Ela foi vice-campeã brasileira”, relembrou. Rodrigo também destacou o peso simbólico do resultado para Campo Mourão. “Já fazia 22 anos que não tinha uma medalha para Campo Mourão nesse mesmo padrão que ela trouxe”, informou.
A atleta integra hoje a WK Team, equipe privada de Campo Mourão. O diretor técnico da WK Team, Juliano César dos Santos Teixeira, diz que, na base, resultados nacionais costumam ter construção longa, mas que com Laura o processo acelerou. “Com a Laura, foi tudo muito rápido”, pontuou. Ele afirmou que a equipe busca talentos há anos. “A gente faz esse trabalho todo o tempo tentando achar um talento. A Laura foi um presente que apareceu para nós.”
Para Juliano, o principal ponto é que o desempenho veio sem atalhos. “Tudo no natural, nada forçado”, enfatizou. Ele também reforçou que alto rendimento exige estrutura e dinheiro. “O incentivo do município deixa um pouco a desejar. O esporte de alto rendimento exige valores.” Ainda assim, citou apoio privado e planejamento. “Tem os patrocinadores que acreditam no nosso trabalho. A gente não está formando um atleta local. A gente está formando um atleta para o Brasil”, comentou.

A equipe também cobra desempenho fora da bicicleta. Werik diz que a escola é critério permanente. “A gente cobra bastante isso. Notas boas.” Laura confirma que se esforça para manter as duas rotinas e descreve o que mudou na cabeça dela desde que começou. “Não esperava que este hobby fosse se tornar uma paixão. Nem passava pela minha cabeça que eu ia me tornar uma vice-campeã brasileira”, disse. E completou: “A sensação quando subo na bicicleta é que esta é a minha paixão para a vida toda.”
Conquistas
Em 10 meses, a atleta somou resultados em provas regionais, estaduais e nacionais. As conquistas informadas incluem: 1º lugar na 1ª etapa da Copa Cianorte, em Ivaiporã; 3º lugar no Paranaense, em Foz do Iguaçu; 2º lugar em etapa da Copa Cianorte, em Cianorte; 2º lugar na 2ª etapa do Campeonato Paranaense, também em Cianorte; 2º e 3º lugares nos Jogos Escolares, em Toledo; 4º lugar na 3ª etapa do Paranaense, em Cruz Machado; 1º e 2º lugar em etapa do Paranaense, em Morretes; e 2º lugar no Campeonato Brasileiro, em Araucária, resultado que colocou Laura Botega Camargo como vice-campeã brasileira.

