Matheus, morto. Ricardo, solto
Era uma noite comum, como tantas outras. Estudante de Agronomia, Matheus Jackowski da Silva, ainda com 20 anos, voltava de uma atividade da faculdade na praça Getúlio Vargas, centro de Campo Mourão. Ao lado de dois amigos, foi convidado a tomar um chopp num bar próximo ao Centro Universitário Integrado. Uma celebração entre “chapas”. Os três se sentaram numa mesa, na calçada. Com a hora avançada, o pai de Matheus, preocupado, ligou em seu celular. Disse que iria tomar a “saideira” e retornar o mais rápido possível. Mas naquela noite, Matheus não voltou. Ele foi assassinado com uma facada na região das costelas. A lesão o levou antes mesmo de chegar ao hospital.
O crime aconteceu no dia 14 de maio de 2019. Uma segunda-feira. Logo após receber o telefonema do pai, o Cabo da Polícia Militar Cláudio Monteiro da Silva, Matheus deixou a mesa com um dos amigos. Foi ao interior do bar apanhar o último chopp. Era a “saideira” que havia prometido ao pai. Naquele momento, um rapaz abordou o terceiro amigo de Matheus, que continuou sentado à mesa. O sujeito pedia dinheiro e o incomodava. Foi então que uma discussão começou. Matheus e o amigo voltaram para separar os dois. Tudo ia bem. Até aparecer outro personagem na história: Ricardo Cordeiro Casarin.
Casarin trabalhava como garçom no bar. Segundo relatos, ele estaria de folga. Não era para estar ali. Vendo a “treta”, decidiu por conta própria apanhar uma faca da cozinha e usá-la contra dois, dos três amigos. Um deles foi atingido na barriga e se recuperou. Matheus não teve a mesma sorte. Uma das artérias foi cortada. Caiu e não mais se levantou. Naquela noite, a “saideira” foi realmente a última de sua vida.
Ricardo deixou o local e desapareceu. Poucas horas mais tarde, a polícia o encontrou. E ele foi preso. Permaneceu detido até o último mês. Mas acabou solto. E deve permanecer assim até o seu julgamento. Marcado para o dia 25 de fevereiro do próximo ano. A prisão preventiva foi revogada pela justiça. Alegou-se “constrangimento ilegal e excesso de prazos”. A família de Matheus não entende. E está revoltada. Cláudio, o pai, tem medo do réu estar a solta. Teme pelo filho mais novo. Pela esposa. E até por ele mesmo. “Não sei o que fazer se o encontrar por aí. Temo que ele possa fazer algo contra nós”, explicou.
Em seu depoimento à polícia, Ricardo alegou interceder junto aos três amigos para que deixassem o cara que os incomodava. Afinal, tratava-se de um conhecido seu. No fervor da discussão, teria escutado um deles falar: “tenho um negócio pra você lá no carro”. Este foi o momento em que apanhou a faca sobre uma mesa da cozinha. Quando foi até o veículo, recebeu chutes, sacando a faca e desferindo os golpes no “intuito de se defender”.
Dor
Desde a morte do filho, Cláudio, 45, e a esposa, Ana Paula, 41, apenas sobrevivem. Um sofrimento sem fim. Uma dor que não passa. Foram dias e noites de lágrimas. De angústias. Pesadelos. Sentem uma falta do que não pode mais ser preenchido. Um vazio do tamanho do mundo. Restou a esperança em uma condenação. E, quem sabe um dia, um perdão. Mas isso cabe apenas ao tempo dizer.
Ana Paula é uma mulher simples. Trabalha no setor administrativo da Acamdoze. Com a morte do filho, teve que se reinventar. Passou por psicólogos. Medicamentos. Deixou de sorrir. Noites em claro. Viu a escuridão. Mas juntou todas as forças, principalmente, em Deus, e está de pé. E ela só pede justiça. Nada mais que isso. Cláudio, é Policial Militar. Comandante da Patrulha Escolar de Campo Mourão. Toda sua vida atuou no combate às drogas. Faz parte do Proerd, um projeto com aulas em escolas sobre entorpecentes. Quis o destino que sua própria vida se contrapusesse ao que sempre combateu. Numa das audiências, o acusado de matar Matheus confessou ser usuário de cocaína.
Cláudio é um PM. Pela profissão, um guerreiro. Corajoso. Mas, com a morte do filho, viu que nada adiantava sua bravura. Nem mesmo a arma amarrada na cintura. Caiu de joelhos numa dor profunda. Recorreu a Deus. A um padre. Psicólogos. E, devagar, se levantou. Não está sendo fácil, revelou. Mas, vendo a soltura do acusado, há poucos dias, o abismo novamente se aproximou. “Parece que as leis não existem”, disse. No dia 09 de agosto, Matheus iria completar 22 anos. Pensando nisso, os pais prometem fazer uma caminhada. Um protesto contra a falta de justiça por Ricardo estar solto. A Lei dos homens nem sempre é compreendida.
Matheus
Matheus tinha 20 anos. E muitos planos. Primeiro queria concluir a faculdade de Agronomia. Faltava pouco mais de um ano. Depois iria morar no Mato Grosso. Lugar ideal para profissionais da terra. Desejava sua independência financeira. Queria provar aos pais que andaria com as próprias pernas. Era um sujeito determinado.
Antes de morrer, já trabalhava numa fazenda da cidade. Junto a isso, ganhava uns trocos fazendo aquários. Tinha paixão por peixes. Desenvolvia o projeto. Construía. Vendia os peixes. Há várias unidades suas espalhadas por Campo Mourão. Com a educação recebida em casa, virou católico. Sempre ia à igreja. Atuava também como uma espécie de coroinha. Um acólito. Segundo os pais, era um cara bacana com todos. Aberto ao diálogo. Não tinha preconceitos. Chegando até certo ponto, a ser inocente. Num resumo: um menino voltado ao bem.
Mas naquele 14 de maio, todos os planos imaginados por ele, acabaram. Restaram as lembranças. Fotos. Porta retratos. Ficou a saudade e o desejo de justiça. Uma justiça que, definitivamente, não o trará de volta. Mas que deve amenizar o sofrimento da família. E também resta a verdade de toda a tragédia: a droga levou Matheus.

