Para evitar aglomerações no fim de semana, filas enormes em mercados na quinta
O decreto veio no início da noite da última quarta-feira: Supermercados não poderão abrir na sexta, sábado e domingo. A “ordem” caiu como uma bomba. E não deu outra. Hoje, durante todo o dia, filas e mais filas. Se evitar aglomerações era o objetivo, deu tudo errado. Um tiro saído pela culatra. Por toda a cidade, o distanciamento para adentrar aos mercados, não foi identificado, à risca, com um metro e meio. Pode ter sido tentado, mas não eficaz. Fiscais da prefeitura estiveram presentes em alguns deles. Mas a reclamação da população, foi geral.
Maria Alves está com 61 anos. Ela sempre evitou ir ao mercado, principalmente, por estar no grupo de risco. Mas hoje, não teve jeito. Com o marido trabalhando até a meia noite, as compras caíram no seu próprio colo. E ela não gostou. “É um absurdo o que está acontecendo. Porque a prefeitura não comunicou uma semana antes”, questionou. Para ela, além dos riscos, um sofrimento, principalmente, por ficar mais de meia hora na fila.
Com dois filhos pequenos, Simone Pires, 37, era a última da fila. Ainda não sabia quanto tempo ficaria ali. Segundo ela, teve que ir ao mercado para comprar o básico, como leite e frutas. “É um absurdo. Porque não informaram antes sobre o fechamento. Agora, 90 mil pessoas estão nos mercados”, disse. Para ela, além de um total constrangimento, ainda tem a sensação de pânico, que remete a filmes sobre o fim do mundo, quando as pessoas correm em busca de comida.
Diarista, Rosa Gabriel, 44, também estava angustiada com a fila. Ela foi as compras no lugar da filha, que trabalhava. Com um neto de dois anos, comprou leite, frutas e carne. “O básico para o fim de semana”, disse. Segundo ela, a ida ao mercado ocorre uma vez por semana. Coincidentemente, seria hoje mesmo. “Estou me sentindo em meio ao caos. Se o decreto fosse falado antes, a população teria se preparado melhor”, disse.
Nas redes sociais, o assunto rendeu muita insatisfação. Um juiz de Campo Mourão criticou: “Quarta feira: vamos fechar os supermercados na sexta, sábado e domingo para evitar aglomerações! Quinta feira: todos supermercados lotados, com filas gigantescas para entrar! Idéia de Jênio (com jota mesmo). Definitivamente, o Brasil não é para amadores. O “congestionamento” de pessoas foi verificado até mesmo em pequenos estabelecimentos do ramo. Não querendo ser identificado, um mourãoense disse se tratar de uma palhaçada. “Exigem lei seca. Mas hoje, os cachaceiros estão comprando bebida aos montes. Certeza que vai ter festa”, disse.
Questionado sobre a medida, o secretário de Saúde, Sérgio Henrique dos Santos, argumentou que, desde o início da pandemia, os mercados devem seguir regras – controle de filas, com distanciamento; uma pessoa apenas por família. E no interior das lojas, apenas cinco pessoas por caixa ativo. “Só isso já impede ter aglomeração dentro do mercado”, disse. De acordo com ele, as filas também são de responsabilidade dos comerciantes. “Mantendo a distância e usando máscaras, eu não vejo como risco em potencial de contaminação. Vejo risco se estivessem aglomeradas dentro dos supermercados”, argumentou.
“Culturalmente o brasileiro não sabe o que é um lockdown. Eu mesmo tenho no meu armário o suficiente para passar o fim de semana tranquilo. E ainda, os restaurantes e lanchonetes estarão funcionando como delivery”, explicou Sérgio. Segundo ele, por irresponsabilidade, as pessoas – não generalizando -, decidem ir ao mercado para comprar um trigo, por exemplo, para fazer um bolo no final de semana. “Infelizmente, o problema é cultural. Não tem o que fazer”, disse.

