Quarenta anos depois, caso Robson Paitach volta à memória e ganha livro
Quarenta anos após o crime que parou Campo Mourão, a história de Robson Daciuk Paitach será relembrado agora transformado em obra literária. O crime, ocorrido em abril de 1986, marcou uma geração e permanece como um dos episódios de maior repercussão da cidade. A trajetória da família e os impactos do crime serão reunidos em um livro escrito pela escritora e membro da Academia Mourãoense de Letras de Campo Mourão (AML) Marlene Kohts, a partir de relatos diretos e reconstrução detalhada do ocorrido.
Na época, Robson tinha 11 anos quando desapareceu. Nascido em 1º de julho de 1974, em Campo Mourão, era filho de Demétrio e Leonília Daciuk Paitach, integrantes de famílias pioneiras do município. Era descrito como um menino loiro, de olhos azuis, educado e dedicado aos estudos.
Frequentou o Colégio Vicentino Santa Cruz e, em 1986, estudava no Colégio Estadual Marechal Rondon. No contraturno, fazia aulas de inglês na escola Fisk, na Avenida José Custódio de Oliveira. Também praticava judô e gostava de filmes de kung fu. Em casa, ajudava os irmãos mais novos e assumia responsabilidades incomuns para a idade.

No dia 11 de abril de 1986, foi deixado pela mãe na aula de inglês. Naquele dia, fez uma prova e tirou nota 9,7, a maior da turma. Terminou a atividade em menos de uma hora. Após sair da sala, não voltou para casa. O desaparecimento mudou a rotina de Campo Mourão, que até então era marcada pela tranquilidade. A mobilização pelas buscas a Robson foi imediata. Familiares, autoridades e moradores passaram a procurar pelo menino. Dias depois, a confirmação da morte toda a população ficou comovida com a situação.
Mais de 10 mil pessoas participaram de manifestações. A cidade parou. A dor vivida pela família também foi compartilhada pelos moradores da cidade. Ao longo dos anos, gestos de apoio marcaram essa trajetória, como serenatas em frente à residência e manifestações espontâneas de solidariedade.
“Eles oraram junto comigo, pediam que o Robson aparecesse. Com a nossa fé e a fé divina, ele chegou ao resultado que veio. Então eu só tenho que agradecer”, afirmou Leonília. Ela relembra que, durante as buscas, fez um pedido direto. “Eu pedia que Deus me entregasse ele, vivo ou morto. Já era o terceiro dia. Foi isso que aconteceu. Houve um trabalho muito grande comigo mesma, com muita fé e com as orações do povo de Campo Mourão”, lembrou.
Ao longo dos anos, a família optou por não transformar a dor em revolta. A decisão foi consciente. “Perdoei de coração. Não sou eu que faço a lei divina. Nós entregamos a Deus. Vivemos sem ódio, sem rancor”, comentou a mãe de Robson.
Segundo afirmou ela em entrevista à TRIBUNA, a decisão de contar a história em livro só veio décadas depois. Propostas anteriores haviam sido recusadas, revelou. A mudança ocorreu após conversa com familiares. “Eu sempre achava que não era a hora. Quando veio a proposta, conversei com meus filhos e entendemos que agora seria o momento”, relatou.
A produção do livro começou em 2024. A escritora Marlene Kohts, disse que o convite foi recebido como ‘missão’. “Foi um presente de Deus, uma honra. Mas também uma responsabilidade enorme. Não é só contar fatos. É entrar no seio da família, entender o que aquilo fez com eles”, comentou à TRIBUNA. A escritora revelou que a obra não se limita à cronologia do crime. “Uma coisa é narrar datas e acontecimentos. Outra é reconstruir sentimentos, entender a transformação ao longo dos anos. A dor não desaparece. Ela se transforma”, expressou.

Marlene disse que o processo exigiu entrevistas sucessivas e retomada detalhada do passado.
“Tivemos que voltar ao dia. Como a Leonília acordou, como foi aquela manhã, o que aconteceu hora a hora. Em muitos momentos tivemos que parar. É muito forte”, frisou. A escritora destacou que o livro também busca esclarecer versões distorcidas que circularam ao longo dessas últimas décadas. “Houve muitos boatos. A pesquisa foi feita com base em documentos, processos e entrevistas. O livro mostra como tudo aconteceu de fato”, informou.
Marlene disse que principal marca da história está na escolha da família. “Eles escolheram o caminho mais difícil. Não o da vingança, mas o do amor. Isso não foi discurso, foram atitudes ao longo de 40 anos”, observou, ao resumir a essência da obra em uma frase que abre o livro: “A maior expressão da fé é não ser vencido pela dor”.
A história também ganhou desdobramentos educativos. Em 2022, Leonília procurou o Museu de História, Imagem e Som Deolindo Mendes Pereira, onde entregou documentos e fotografias do filho, com um pedido específico: orientar crianças sobre prevenção à violência. A iniciativa resultou em ações educativas voltadas ao público infantil, com orientações sobre segurança, convivência familiar e riscos no ambiente digital. “Que os pais tenham diálogo com seus filhos, que olhem nos olhos deles, que tenham carinho. Filho é para o resto da vida”, afirmou Leonília.
A memória de Robson também permanece em espaços públicos. Um parque municipal e uma rua levam seu nome, mantendo viva a lembrança na rotina da cidade. O livro está concluído e deve ser lançado entre setembro e novembro deste ano, em Campo Mourão. “Não é uma história de dor apenas. É uma história de transformação, de aceitação e de fé. Isso precisa ser compartilhado”, ressaltou Marlene.
*Colaborou Jair Elias


