Sem clientes e com R$ 15 no bolso
Nilson é um micro empreendedor individual. Trabalha hoje pra pagar o rango de ontem. É o típico brasileiro que acaba pagando o pato pelas crises. Já passou por planos Collor e Bresser. Viu o dinheiro mudar de nome umas cinco vezes. Teve grana confiscada. Passou sufoco. Mas jamais pensou viver um momento como o que está passando. Com o vírus a solta, os clientes desapareceram. Sobre a mesa, projetos parados. Faturamento de mais de R$ 20 mil perdidos. Nilson está desesperado. Colocou uma corda amarrada com laço na garagem. Sim. Estava pensando em tirar a vida. Tinha apenas R$ 15 no bolso. Até a esperança em dias melhores não tem mais.
Do ramo de decoração, o micro empreendedor é apenas um exemplo do que vem acontecendo. Preocupado com o amanhã, decidiu vender o pouco que tem, hoje. Precisa comer. Precisa pagar a água, a luz e o aluguel. Então publicou nas redes sociais. Está vendendo o guarda roupas. A pia da cozinha. O vaso sanitário. Armário da cozinha. Ontem, uma família de Boa Esperança – nome sugestivo para o seu desespero – andou quase 60 quilômetros para visitá-lo. Eles compraram um forno elétrico. Deixaram R$ 250. Um alívio para Nilson, que tinha apenas R$ 15.
Nilson de Souza Heller tem 61 anos. É separado. Possui 3 filhos. Mora sozinho na casa alugada. Onde é também sua micro empresa. O aluguel vence esta semana. Ele não sabe de onde tirar os R$ 600. A sua angústia é grande. Pensa se guarda o que ganhou para comer, ou pagar parte do aluguel. Uma dúvida do tamanho do seu desespero. Desde que tudo começou, vem tomando uma infinidade de remédios para dormir. Tem pesadelos constantes. E teme que uma tragédia conclua sua vida.
No passado, ainda jovem, Nilson foi gerente de uma tv a cabo de Campo Mourão. Permaneceu lá até o ano de 2000. A vida seguia bem. Sem grandes problemas. Quando deixou o cargo, montou uma empresa de decorações. Mas ela quebrou em 2007. Depois disso, abriu com o filho e a esposa, outra. No mesmo ramo. Levaram juntos até 2016. Também neste período, cada um decidiu andar com as próprias pernas. Nilson continua com a sua. Sem clientes. Com tudo parado. Nervosismo é pouco para o que tem passado.
Na sua micro empresa, ele trabalha com divisórias. Forros de PVC. Persianas. Papel de parede. Pisos de madeira. Nilson não quer esmolas. Ele quer trabalhar. Precisa de clientes. “Acredito em Deus. Mas jamais achei que passaria por isso”, disse. Ontem, uma irmã levou comida. Sua geladeira está vazia. Nilson pede para que as pessoas o procurem. Não para oferecer dinheiro. Mas para adquirir produtos de sua empresa. Ele não sabe o que fazer nos próximos dias. Em tempo: a reportagem retirou a corda da garagem. 99806 – 9996 – Decor Casa.

