Sem fantasmas. Mas com “espíritos” de porcos
Não. Ali, não existem fantasmas. Pelo menos, não se mostraram. O lugar bucólico, cercado por uma alta vegetação, longe de tudo, até parece cenário de um filme de terror. Mas, ao contrário do que muitos pensam, ao invés de espíritos, mostra apenas a tranquilidade da zona rural. Na verdade, enquanto a vida passa, o tempo se esqueceu daquele canto. Tudo continua como antes. Mas, com menos objetos, roubados por frequentadores do “mal”. E, sim. Se existem “assombrações”, são os vivos. Que, como “espíritos” de porcos, insistem em levar e sujar.
A propriedade faz parte do Sítio São João, localizada entre Campo Mourão e Mamborê. São três casas de madeira, antigas. Numa delas, a sensação é que algo aconteceu. E, os donos, saíram em fuga. Lá, ainda estão cama, cadeiras, armário, pia, fogão e até uma magrela. Outros dois imóveis, que se desmancham com o tempo, eram armazéns para soja e ferramentas. Ao redor, quatro velhas colheitadeiras. Um caminhão FNM, da Fiat. Restos de implementos agrícolas. Ferros. Pneus. Tudo o que não tem mais valor.
O conjunto de tudo o que restou, é exuberante. Um verdadeiro cenário hollywoodiano. E é por isso que inúmeras pessoas passaram a visitar o lugar. Um grupo de ciclistas de Campo Mourão é quem iniciou a descoberta. Durante as andanças ali, pausa para o descanso e as fotos. Conscientes, eles não deixam rastros de sujeira. E também não levam o que não lhes pertence. O problema, segundo Bores Elizeu Reifur, irmão do legítimo proprietário, é que outros visitantes, não os ciclistas, vandalizam o lugar. “Já roubaram muita coisa. Até uma antiga bicicleta do meu pai”, disse.
Bores conta que a propriedade sempre foi do pai, Genko. Mas ele morreu há 14 anos, vítima de Alzheimer. Desde então, os 50 alqueires foram divididos aos cinco filhos. O local, em questão, era a sede da fazenda, construída em 1983. Guardavam equipamentos, ferramentas e a produção. A casa era o abrigo de Bores e do pai. Morando em Campo Mourão, os dois passavam a semana lá. “Quando meu pai morreu, não retiramos nada. Isso porque os móveis já eram se segunda linha. Tudo permaneceu, até agora”, explicou. Mas com o tempo, muitas coisas foram levadas.
Restaram as lembranças de um passado de ternura e da figura do próprio Genko. Bores conta que somente o irmão pode decidir o que fazer. Mas, por enquanto, tudo deve ficar, como está. Apenas o velho caminhão Fiat não faz parte do cenário, legítimo. Conta que a velharia foi comprada há quase quatro anos, por meros R$5 mil. A ideia do irmão era cortá-lo, e revender as partes a um ferro velho. Enquanto isso não acontece, a relíquia permanece estacionada sobre uma quiçaça.
Tranquilo e harmonioso, o local transmite paz. Em silêncio, ouve-se o barulho do bambuzal se mexer. O som, em meio a mata e ao cenário, leva o visitante a relembrar um filme de suspense. Mas não há nada com que se preocupar. A não ser, com as Jararacas. Elas já foram vistas por alguns. Parecem ser as zeladoras. E não são pequenas, não. Fora isso, deve-se temer apenas aos vivos.
Bores
Bores é um dos cinco filhos de Genko. Com a morte do pai, ele ficou com dez alqueires, vizinho da antiga sede. E ali, mora com a esposa e quatro filhos – três meninas e um menino. “Os fantasmas estão na cabeça desocupada das pessoas”, disse. Aos 53 anos, é um sujeito gentil e bastante receptivo. Daqueles que da vontade de escutar a prosa, um dia inteiro. Sentado em uma das cadeiras de sua varanda, contou que seus avós chegaram ao Brasil, ainda aos sete anos de idade.
Vieram da Ucrânia, num tempo em que lá, a fome predominava – Holodomor. Para sobreviverem, rumaram ao Brasil. Aqui, o governo brasileiro fazia propaganda para atrair trabalhadores de outros países, à cultura do café. A chegada foi aceita. E por aqui, cresceram. E se disseminaram. Os pais, Genko e Ana – ela está com 82 anos – tiveram cinco filhos. Sempre trabalharam no campo. A família não proíbe a visita. Mas pede que não levem nada. E que não deixem sujeira.
Holodomor
Holodomor é uma palavra ucraniana que quer dizer “deixar morrer de fome”. O termo passou a ser empregado no contexto da história ucraniana para definir os acontecimentos que levaram à morte, por fome, de milhões de ucranianos, entre os anos de 1931 e 1933. A grosso modo, o holodomor, assim como o holocausto nazista contra os judeus, consistiu em um genocídio contra a população da Ucrânia, empreendido pelo comunismo soviético, que era liderado por Stalin.
A atrocidade de holodomor remonta às políticas econômicas que Stalin passou a empregar logo que assumiu o poder, em 1928. Uma das medidas empregadas consistia em controlar a produção de cereais dos países da União Soviética por meio da “requisição compulsória”. Ou seja, um artifício burocrático que obrigava os camponeses a fornecerem grande parte do excedente produzido para o Estado, a baixos custos. Seguiu-se, nos anos seguintes, a política de coletivização forçada das propriedades agrícolas, cuja administração passou a ser completamente racionalizada pelo Estado soviético.
A Ucrânia foi o país da URSS que mais demonstrou resistência a tais medidas. A autonomia cultural ucraniana e sua forte identidade nacional tornavam-na intolerável aos anseios dos soviéticos russos. A insurreição dos camponeses ucranianos contra as medidas de coletivização forçada e requisição compulsória de cereais obrigou Stalin a impingir medidas ainda mais drásticas do que aquelas que foram executadas em outras regiões.
Stalin, então, passou a traçar uma campanha antiucraniana com o objetivo de demonstrar o quão “nociva” era a postura desse país com relação aos anseios comunistas. Inicialmente, deu-se início a uma sistemática humilhação de intelectuais ucranianos, que foram submetidos a julgamentos vexaminosos e ridicularizações diversas. Houve também uma debelação de possíveis focos de organização antissoviética que pudessem irromper a longo prazo. Depois dessas medidas, Stalin passou a atacar o próprio campesinato.
Para fugir daquela realidade, milhares de ucranianos deixaram o país para tentar uma nova vida na América. Parte veio a América do Sul. E outra, para a do Norte.

