Simone Kehl transforma própria história em recomeço e volta à faculdade aos 46 anos

Conhecida em Campo Mourão pelos vídeos nas redes sociais em que compartilha disciplina, rotina de treinos e mensagens de superação, a confeiteira, influencer e atleta de fisiculturismo Simone Kehl iniciou neste um dos capítulos mais simbólicos da própria trajetória: o retorno à sala de aula. Aos 46 anos, ela começou o curso de Psicologia na Faculdade Unicampo, realizando um sonho que, por décadas, acreditou não ser mais possível. A decisão representa mais do que a retomada dos estudos. É o fechamento de um ciclo iniciado ainda na adolescência, quando a vida seguiu por um caminho diferente do planejado. Simone engravidou aos 14 anos e interrompeu a escola para cuidar da filha. “Naquela época, estudar deixou de ser prioridade. Eu fui direto para o trabalho e aquilo virou minha realidade”, relembra a agora caloura de psicologia.

Por muitos anos, a ideia de voltar a estudar sequer era considerada. “Eu nem digo que era um sonho, porque para mim era algo que já tinha ficado para trás. Nem ser magra, nem fazer faculdade pareciam possíveis”, conta. A vida adulta de Simone foi construída com base no trabalho. Ela atuou por cinco anos na Coamo, experiência que, segundo ela, foi fundamental para resgatar a vontade de concluir os estudos. Foi nesse período que terminou o ensino médio por meio de um curso de certificação, mas a jornada acadêmica parou novamente ali.

Simone se autointitula como a “confeiteira que virou marombeira”

Há 15 anos, ela e a filha passaram a trabalhar juntas como confeiteiras, atividade que se tornou profissão e sustento da família. “Nós crescemos juntas dentro da confeitaria. Hoje ela tem 30 anos e seguimos trabalhando lado a lado”, diz. O ponto de virada veio há cerca de sete anos, quando Simone iniciou um processo estruturado de emagrecimento com acompanhamento profissional. Depois de anos tentando métodos rápidos e enfrentando o chamado “efeito rebote”, ela encontrou na musculação um caminho de disciplina e autoconhecimento. “O físico evoluiu, mas a maior mudança foi na mente. Eu passei a acreditar em mim e isso mudou tudo”, afirma.

O desempenho nos treinos chamou a atenção de amigos, que a incentivaram a competir. A atleta decidiu levar o desafio a sério e, após um período de preparação intensa, conquistou o primeiro lugar em sua quarta competição. A vitória consolidou não apenas a carreira no fisiculturismo, mas também sua presença nas redes sociais, onde passou a compartilhar a própria história (https://www.instagram.com/simonemkehl/).

Foi a partir deste momento que nasceu a Simone influencer, uma figura pública que fala sobre autoestima, disciplina e superação. “Se eu consegui, outras mulheres também conseguem. Eu queria mostrar que a transformação não é só física, é mental”, explica. Outro detalhe que chama a atenção é que ela se autointitulou em sua página do Instagram como a “confeiteira que virou marombeira”. Maromba é como são chamadas no mundo da musculação pessoas com corpos muito musculosos.

Embora muitas pessoas sugerissem cursos ligados à área física, como Educação Física ou Nutrição, Simone sentia que sua curiosidade estava em outro lugar: na psicologia

Mas por que psicologia?

Embora muitas pessoas sugerissem cursos ligados à área física, como Educação Física ou Nutrição, Simone sentia que sua curiosidade estava em outro lugar. “O que me chamava atenção era o controle da mente. Eu queria entender isso para poder ajudar outras pessoas”, diz.

O desejo de cursar Psicologia foi amadurecendo ao longo dos anos, mas parecia distante por questões financeiras e pela rotina intensa. No final de 2025, ela decidiu que faria o possível para tornar o plano realidade.

Após mais de três décadas longe do ambiente escolar, Simone buscou uma instituição que oferecesse proximidade com professores e ambiente acolhedor. A escolha pela Unicampo foi influenciada justamente pelo perfil de turmas menores e pela atenção individual ao aluno, conta a caloura. “Eu sabia que teria dificuldade depois de tanto tempo fora da escola, então precisava desse acolhimento. E encontrei isso aqui”, relata.

O início do curso trouxe surpresas positivas. Simone conta que imaginava cansaço e dificuldade para conciliar rotina e estudos, mas a experiência tem sido motivadora. “Eu não vejo a hora de vir para a aula. É muito gratificante estar aqui”, afirma.

Simone reconhece que a nova fase exige organização. Ela divide o tempo entre a confeitaria, treinos, produção de conteúdo, tarefas domésticas e as aulas. O apoio do marido foi primordial para a decisão. “Antes de começar, sentei e conversei com ele sobre como seria nossa rotina. Ele me apoiou em tudo”, diz.

Outro fator que tornou a experiência ainda mais especial foi a decisão da filha de ingressar no mesmo curso. Mãe e filha hoje estudam na mesma sala, após anos trabalhando juntas. “Meu sonho acabou despertando o sonho dela. Ter ela ao meu lado é um apoio enorme”, diz, emocionada.

Hoje, Simone Kehl soma diferentes identidades — confeiteira, atleta, influencer e agora universitária. Ele é, na verdade, um exemplo de resiliência, coragem e inspiração. A mensagem que ela deixa para quem carrega sonhos adiados é direta e sincera. “Os sonhos não chegam de forma confortável. A gente precisa sair da zona de conforto e enfrentar as dificuldades. Mas nunca é tarde para realizá-los.”

A história da influencer que conquistou visibilidade falando sobre disciplina e transformação física ganha agora uma nova dimensão: a da educação como ferramenta de mudança. Um recomeço que, assim como seus vídeos, segue inspirando quem acredita que ainda há tempo para escrever novos capítulos na vida.

Para o professor Marco Antônio Fioni Berbel, do colegiado de Psicologia da Faculdade Unicampo, a trajetória de Simone reflete o perfil de muitos estudantes que buscam retomar projetos interrompidos

A instituição

Para o professor Marco Antônio Fioni Berbel, do colegiado de Psicologia da Faculdade Unicampo, a trajetória de Simone reflete o perfil de muitos estudantes que buscam retomar projetos interrompidos. Segundo ele, a Unicampo tem histórico de acolher alunos que voltam à vida acadêmica após longos períodos e oferece suporte para permanência e conclusão da graduação. “A gente sabe da extrema dificuldade que as pessoas têm em concluir os seus sonhos, principalmente quando se diz respeito à educação de nível superior, haja vista todas as dificuldades que estão presentes no dia a dia das pessoas. E a faculdade sempre proporcionou isso”, observa.

Professor Marco Antônio destaca que o curso de psicologia é o mais tradicional da faculdade em Campo Mourão, ou seja, o mais antigo. “O curso de psicologia da Unicampo já tem 15 anos e sempre se notabilizou por isso. Nós temos alunos desde mais jovens a mais velhos”, comenta, ao lembrar que a faculdade também oferece vagas tanto no modelo de ensino presencial quanto no EAD (à distância). “A Unicampo também oferece oportunidades de bolsas e condições especiais para novos estudantes, ampliando o acesso ao ensino superior”, ressalta.