A estrela solitária, três bandeiras e fim da picada
Lenta infância de onde
como de um pasto comprido cresce o duro pistilo,
a madeira do homem
Quem fui? O que fui?
Éramos. Outros pés, outras mãos, outros olhos.
Tudo foi mudando folha por folha na árvore.
E em ti? Mudou a tua pele, o teu cabelo, a tua memória.
Aquele não foste
Pablo Neruda – O menino perdido
Éramos meninos, Gudé, Rasbico e Baixinho. Ninguém é obrigado saber que são tais figuras, pois bem, eu os apresento, seguindo a ordem dos três últimos filhos dos doze que Elza e Eloy tiveram: Gudé, o mais velho dos três últimos, é este escrevinhador, o Rasbico é o Euro e o Baixinho (também na versão Nani) é o Enio, o caçula.
O nosso saudoso pai torcia pelo Botafogo e o time alvinegro jogaria em Maringá contra a então tradicional equipe da cidade, o Grêmio, apelidado de Galo. Lá fomos nós naquela aventura, estar com o pai numa viagem de Aero-Willys era o máximo. Imagino que tenha visto até então o maior Estádio, o Wille Davis. A vontade de chegar logo se mesclava com o nosso estado de ansiedade de assistir uma partida de futebol. Fomos escutando uma rádio AM e até hoje lembro o chiado que o rádio fazia por causa da tecnologia daqueles tempos, quanta saudade!
E por falar em rádio, quando já estávamos acomodados na arquibancada e com as nossas bandeiras que o pai tinha nos presenteado antes de comprarmos os bilhetes, Rasbico, Baixinho e Gudé agitavam as bandeiras, grandes para o nosso tamanho, enquanto o pai pagava pipoca e ouvia o rádio para acompanhar a partida. Lembro que o Grêmio era a sensação do momento no Paraná e o Botafogo era o atual campeão carioca. Era uma partida festiva, só o que eu me lembro.
Mexendo para lá e para cá as nossas bandeiras, nos três percebemos que uma emissora de Maringá mencionava os três meninos no meio da torcida do galo alegremente agitando as bandeiras do Botafogo! Foi também grande a emoção, éramos notícias, estavam falando da gente, inclusive da nossa coragem e alegria em meio a torcida adversária.
Terminada a partida, imaginávamos que apenas voltaríamos direto para Campo Mourão, mas o seu Eloy parou na Churrascaria Fim da Picada, tradicional estabelecimento da cidade-canção desde aqueles tempos. Nós com as bandeiras e sempre falando o que deu no rádio sobre a nossa presença, nos fazendo sentir celebridades, embora o termo sequer fosse pensado naquela época.
Sem zombar ou fazer penitência, nenhum dos filhos se tornou torcedor do Botafogo, aliás, ninguém na família. E tem um detalhe, o pai comprou as bandeiras porque nós pedimos. Apesar de gostar muito de futebol, o seu Eloy jamais quis ou exerceu qualquer influência para que torcêssemos pelo time dele. Era a estrela solitária. Sem remorso, eu considero o distintivo o mais bonito do futebol brasileiro, pela simplicidade, estilizada, bem como lembrar daquele que se não for é o mais próximo a ser comparado com o Pelé, o Mané das pernas tortas e dribles magistrais: o Garrincha. Lembro anos mais tarde a televisão, ao noticiar a morte do craque Garricha, vem à memória os olhos cheios d’água do meu pai ao saber da perda do mestre da bola, o gênio da camisa sete, campeão do mundo.
Depois de décadas sem título nacional, embora com frequência sendo campeão carioca, o que é sinônimo de grande prestígio em um Estado que tem Fluminense, Flamengo e Vasco, o Botafogo se tornou campeão brasileiro no final do ano de 1995, o mesmo ano que o meu pai faleceu (junho). Acho que o pai levou ao menos uma das nossas bandeiras e tratou logo de pedir pessoalmente a turma lá do céu para o Bota ser campeão.
Fases de Fazer Frases (I)
O mergulho em seu próprio ser é possibilita trazer à tona tesouros submersos.
Fases de Fazer Frases (II)
Não se deve ter receio de perder o caminho, mas no caminho se perder.
Olhos, Vistos do Cotidiano (I)
Duas pessoas se aproximam da marquise de um prédio no centro da idade. Chovia no momento, ao passarem, (uma com guarda-chuva e outra não) a que estava de guarda-chuva não deu espaço, obrigando a outra pessoa a se molhar mais ainda. Se faltou guarda-chuva, muito mais faltou bom senso.
Olhos, Vistos do Cotidiano (II)
Embora seja comum em outros concursos públicos realizados e previstos, o de Boa Esperança, informa o edital, prevê o salário de Pedreiro de R$ 598,87 (uma vaga) e para Pintor, um pouco menos, R$ 562,80 (uma vaga). Já para professor (uma vaga) o salário é de R$ 904,04, quase o dobro do de pintor ou de pedreiro! Também, quem mandou alguém querer estudar um pouco mais que os outros
não é mesmo?
Entretanto, tudo pode ser explicado: é lá na Boa Esperança que tem o prefeito que disse que biblioteca não serve para nada.
Reminiscências em Preto e Branco
É com o tempo verdadeiramente que se pode adquirir sabedoria. Dia desses, atravessando a Praça Getúlio Vargas ouço um senhor proseando com outro, provavelmente da mesma idade e, na simplicidade ele disse, a vida é tão boa, mas passa muito ligeiro E após uma breve reticência o outro completa, ligeiro e nós velhos ficamos devagar…
