Andou pelo país, guardou recordações, descansou feliz

Quando olhei a terra ardendo/Qual fogueira de São João/Eu perguntei a Deus do céu,/

Por que tamanha judiação/Que braseiro que fornalha/Nem um pé de plantação/

Por falta d’água perdi meu gado/Morreu de sede meu alazão/

[…]

Asa branca – Luiz Gonzaga – Humberto Teixeira

            Apenas afirmar que Luiz Gonzaga é um dos maiores nomes da música brasileira de todos os tempos é pouco. Na verdade ele é uma das bases mais bem elaboradas e sólidas em termos de cultura, grande compositor e intérprete genial.

            Tocando com mestria singular a sanfona, zabumba e o triângulo, o centenário de nascimento do Gonzagão, nascido na pernambucana Exu em 13 de dezembro de 1912, tendo falecido na capital daquele Estado, Recife, em dois de agosto de 1989, a contribuição inestimável que proporcionou como compositor, cantor e instrumentista está caracterizado no forró pé-de-serra e nas festas juninas. Sem deixar de ser o cultor da música do Nordeste, se tornou referência na cultura brasileira.

            Fui eu quem lançou o chapéu de couro no Rio de Janeiro. Naquela época, quando aparecia um filme de cangaceiro, muita gente via a minha cara no filme, afirmou em entrevista ao Jornal Pasquim, 1971. Mais do que conhecer Gonzaga, o Brasil inteiramente se reconheceu nele através das muitas canções que o povo canta junto sabendo de cor e salteado, dançando no embalo melodioso e ritmado sempre com efervescência.    

            Sociologicamente as letras dizem sobre o árido nordeste, onde sobreviver é predominante ante ao viver, a alegria está condicionada a fé e a utopia, quando o amanhã sintetiza a esperança da chuva que refresque e dê para plantar. Além do trecho transcrito abaixo do título de hoje, outra música sempre muito gravada é Xote das meninas, feita por ele e Zé Dantas. Começa descrevendo o cenário nordestino e fala da menina que vira moça deixando a boneca de lado para desejar e sentir amores: Mandacaru/Quando fulora na seca/É o sinal que a chuva chega/No sertão/Toda menina que enjoa/Da boneca/É sinal que o amor/Já chegou no coração… (…). E conclui com belo estribilho: Ela só quer/Só pensa em namorar/Ela só quer/Só pensa em namorar…/De manhã cedo já tá pintada/Só vive suspirando/Sonhando acordada. E aí se chega a conclusão: Que o mal é da idade/E que pra tal menina/Não tem um só remédio/Em toda medicina…./

            Obrigado a depender da misericórdia e vítima do abandono governamental, em Vozes da seca, a canção é atual em todos os sentidos: Seu doutô, os nordestino tem muita gratidão/Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão/Mas doutô, uma esmola a um homem qui é são/Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão/ e noutro ponto da canção exclama com notável sabedoria: Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage/Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage/Se o doutô fizer assim salva o povo do sertão/Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação/(…).

            Outra canção interpretada em coro pelas multidões e que já fez parte de um comercial de  uma marca de veículos,  a letra não está apenas bem acomodada no coração do povo, é sempre cantada com muita emoção, eis um trecho da A vida do viajante (dele com Hervé Cordovil): Minha vida é andar por este país/Pra ver se um dia descanso feliz/Guardando as recordações/Das terras onde passei/Andando pelos sertões/E dos amigos que lá deixei/ […].

            A agrura nordestina vivida por ele, de retirante ou de quem resiste à seca, somando-se a cultura rica, diversificada, nítida daquela região, Gonzaga universalizou brasileiramente o cantar crítico e alegre  com a nitidez sentimental legítima, una com a voz grave que lhe notabilizada singularmente, tudo um grande legado que não se tornou passado e prossegue vivo e vibrante.

            Autobiográfico, Gonzaga compôs em parceria com Humberto Teixeira Respeita Januário, é uma bem humorada e verdadeira passagem da vida dele, e Januário é o pai e naturalmente avô do Gonzaguinha, mencionado na letra para também respeitar Januário. Interessante é o Gonzagão retratar o retorno dele ao sertão, já como artista famoso e bem de vida, embora Januário seja o maior tocador de sanfona, insuperável, admite orgulhoso o Gonzagão: Quando eu voltei lá no sertão/Eu quis mangar de Januário/Com meu fole prateado/ …/E foi aí que me falou meio zangado o véi Jacó/’Luiz, respeita Januário/Luiz, tu pode ser famoso/Mas teu pai é mais tinhoso/E com ele ninguém vai, Luiz, Luiz/Respeita os oito baixos do teu pai/’…Tudo mundo foi ver o diabo do nego/Eu também fui, mas não gostei/O neto tá muito modificado/…/Qualquê, o nego agora tá gordo que parece um majó/É uma casimira lascada, um dinheiro danado/Enricou, tá rico!/Pelos cálculos que eu fiz deve possuir mais de dez conto de reis e vinte baixo/É muito baixo/…

Fases de Fazer Frases (I)

            O diferente é ser indiferente, como dar parecer sem aparecer.

Fases de Fazer Frases (II)

            Economizar palavras não quer dizer saber poupá-las.

Olhos, Vistos do Cotidiano

            O jovem Felipe terá que recordar mais esta nota de jornal para guardar  na pasta sobre a vida dele. Bem menino,, ele já foi notícia por aqui, por ter lido um determinado texto da Coluna. Agora o registro é por causa de ter passado em primeiro lugar no vestibular para enfermagem, para a incontida felicidade dos pais Valdir e Rosanida Sambati Bonete. Valeu, menino! 

Reminiscências em Preto e Branco (I)

            O disco compacto nem sempre causa impacto na saudade quanto os de vinil.

Reminiscências em Preto e Branco (II)

            O Dia Nacional do Forró, comemorado todo dia 13 de dezembro é de fato a melhor data, em alusão ao nascimento de Luiz Gonzaga: Tá danado de bom, meu cumpade/Tá danado de bom/Forrozinho, bonitinho, gostosinho, safadinho/Danado de bom/…