“Com que roupa?”

Vendo essas letras eu me pergunto se Noel Rosa não foi,

tanto quanto sambista, um cronista e um poeta.

Rubem Braga

 

    Na semana passada, mais precisamente no dia onze de dezembro, registra-se o centenário de nascimento de Noel Rosa, 1910. O título de hoje é uma referência a uma das mais conhecidas composições e que retrata a capacidade do Noel de compor a partir do cotidiano que vivera ou que conhecia como bom observador, um legítimo cronista carioca e brasileiro, com ele tudo dava bom samba. A música Com que roupa? ele fez quando a mãe dele, que queria evitar que o filho fosse boêmio, escondeu as suas roupas para que ele não saísse para as noitadas de gandaia: … Eu hoje estou pulando como sapo/Pra ver se escapo desta praga de urubu/Já estou coberto de farrapo, eu vou acabar ficando nu/Meu paletó virou estopa e eu nem sei mais/Com que roupa?/Com que roupa que eu  vou/Pro samba que você me convidou?

    Noel Rosa nasceu e viveu no mesmo chalé da Vila Isabel, bairro importante do Rio de Janeiro. Por causa de problemas no parto, Noel teve o queixo defeituoso, o que não afetou em nada do seu humor sempre acentuado, o modo do bom malandro em viver. Certa ocasião, ao ser perguntado sobre a criatividade esmerada em compor sambas que imediatamente virariam sucesso, disse ele: A vocação é necessária até para se dar o laço na gravata.

    Ele cantou os muitos bairros do Rio de Janeiro, então capital da República, também nas suas letras figuram personagens da cidade, expressões típicas brasileiras como joão-ninguém, joão-teimoso, maria-fumaça, dama do cabaré, o agiota, o bicheiro, a operária da fábrica, o pão-duro, o guarda civil. Nas mesas dos bares que frequentava eram todos eles fontes de inspiração, caixinha de fósforos, o guardanapo, os muitos goles de cerveja com os quais alegremente saudava a vida, ele compunha com imenso prazer e criatividade. E, por falar em bar, outro samba gostoso de escutar é Conversa de botequim:

    Seu garçom faça o favor de me trazer depressa

          Uma boa média que não seja requentada

    Um pão bem quente com manteiga à beça

    Um guardanapo e um copo d’água bem gelada

    Feche a porta da direita com muito cuidado

    Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol

    Vá perguntar ao seu freguês do lado

    Qual foi o resultado do futebol

    Se você ficar limpando a mesa

    Não me levanto nem pago a despesa

    Vá pedir ao seu patrão

    Uma caneta, um tinteiro,

    Um envelope e um cartão,

    Não se esqueça de me dar palitos

    E um cigarro para espantar mosquitos

                           [,,,]

    Vá dizer ao seu gerente

    Que pendure esta despesa

    No cabide ali em frente

                        […]

    Em 1937, no dia quatro de maio, Noel de Medeiros Rosa morreu aos 27 anos, vitimado pela tuberculose. É relevante considerar o fato de Noel ter morrido muito jovem, mas mesmo tendo pouco tempo, pôde criar sambas que estão sendo sempre regravados. Ele continua sendo muitíssimo respeitado e admirado, por Pixinguinha, Tom Jobim, Chico Buarque de Holanda, Paulinho da Viola. E no tempo de Noel foram grandes os intérpretes das suas geniais canções: Aracy de Almeida, Mário Reis, Francisco Alves, Marília Batista, Luís Barbosa, Sílvio Caldas e Almirante, além do próprio Noel.         

    O jornalista e grande cronista Paulo Mendes Campos, em 1954, ao escrever na revista Manchete, se referiu assim a Noel Rosa: Noel Rosa na música popular brasileira pode ser ou não o mais psicológico, o mais poético, o mais harmonioso, o mais romântico, o mais realista, o mais ritmado, etc.; indiscutivelmente, ele é apenas o maior compositor popular brasileiro.

 

Fases de Fazer Frases (I)

    A velhice não vem com o tempo, ela é o próprio tempo.

Fases de Fazer Frases (II)

    Tudo pende. Pede. Depende. Dê, pende.

Fases de Fazer Frases (III)

    Quando se conhece bem o caminho não existe receio de despir os pés.

Olhos, Vistos do Cotidiano (I)

    Não é difícil chegar a seguinte conclusão, a iluminação pobre, pouca e sem criatividade em Campo Mourão deixa claro a falta de interesse e visão do poder público e dos comerciantes. As iniciativas são mais particulares, ainda que válidas, pecam pela falta de harmonia.

Olhos, Vistos do Cotidiano (II)

    Maurício de Souza, criador de história em quadrinhos, dos personagens como a Mônica, Cebolinha e Cascão, agora faz parte da Academia Brasileira de Letras. Voltando no tempo, em que estudava a oitava série, lembro-me de uma professora enfatizando ser necessário ler todos os clássicos da nossa literatura, e frisava ela, nada de ler gibis!. Eu lia gibis, não deixei de ler naquela época, só tratei de evitar que ela soubesse. Puro preconceito, não importa qual seja o caminho, estimular a leitura a ponto de torná-la um hábito cotidiano é o mais importante, e as histórias em quadrinho têm qualidade também na boa argumentação. Chegou a vez de Maurício de Souza ter o reconhecimento dos velhos acadêmicos, pois na criançada e juventude de há muito que todos o apreciam.

Reminiscências em Preto e Branco (I)

    Quando as distintas senhoras e respeitáveis donzelas usam anáguas, o recato era transparente.      

Reminiscências em Preto e Branco (II)

    Antigamente virgindade era tabu. Hoje a moçada só não sabe o que é tabu e a virgindade ficou de lado.