E se foram sem nos deixar

De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares
O sonho na boca, o incêndio na cama, o apelo da noite
Agora são apenas esta contração (este clarão) do maxilar dentro do rosto.
A poesia é o presente.

No corpoFerreira Gullar

Domingo anterior li a Coluna dele na Folha de S. Paulo, intitulada Solidariedade. Ferreira Gullar indagava o acúmulo de riqueza desejado e ostentado por muitos, para que alguém necessita ter a sua disposição milhões e milhões de dólares?

No mesmo domingo, dia quatro, aos 86 anos, morreu o artista, poeta, tradutor, escritor, polemista. Em duas ocasiões neste espaço escrevi sobre Gullar, quando completara 80 anos e por considerá-lo intelectual vivo mais importante do Brasil. Noutro texto sobre ele, também nesta Tribuna em 2014, ao integrar a Academia Brasileira de Letras. Sem desmerecê-la ele achava que não lhe cabia ser imortal. Pressionado pelo mundo da cultura, teve que aceitar.

É um dos autores brasileiros mais importantes do século XX. A concepção de vida, de barbárie e civilização, as ideias com a militância política nos levavam a refletir, saber e rever conceitos. Não era preciso concordar com Ferreira, no entanto, considerar e respeitar o seu pensamento. Quanto maior o espanto gigante era a veemência com humor e solenidade acadêmica.

O último de fato maior nome da literatura nacional. A morte dele representa o fim da poesia maior, como a de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Idealista e coerente com o que acreditava e defendia, tinha peculiar capacidade da autocrítica, como desfilar do PCB – Partido Comunista do Brasil. Teve que se exilar quando o regime era a ditadura militar. No exílio compôs o mais ousado, belo e famoso poema, em Buenos Aires, Argentina, a pedido do outro poeta maior Vinicius de Moraes, Poema Sujo, em 1975.

Indagado por alguém que duvidava que Gullar fosse de esquerda, (quem sabe de direita), Ferreira foi incisivo: Eu, de direita? Era só o que me faltava. A questão é muito clara. Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é     

Fases de Fazer Frases

Não perde a esperança quem nunca teve.

Olhos, Vistos do Cotidiano

É pura toda aquela que depura?

Reminiscências em Preto e Branco – Professora Laura

O mais profundo silêncio é a elevada maneira de homenagear, despedir-se derradeiro.

Simbolizar o silêncio é deixar a folha ágrafa.

Mas no papel em branco é transposto o luto, sem qualquer cor.

Ainda sem tê-las, uma sequer, neste espaço são imprescindíveis as palavras.

Ter que compor frases buscadas, extraídas no silêncio.

Alinhar e imprimir mensagem na outrora página em branco.

Serena é a palavra que apanho para imprimi-la.

Ela era serena, tom da voz calma a abrandar quem ouvia.

A expressão do rosto, olhos que acentuavam a descendência japonesa.

Ao falar, fazia pausas para melhor pensar, dizer, ouvir.

Tão serenamente chegava e se fazia presente, serenamente se retirava.

Éramos colegas de profissão e tínhamos a mesma formação, a Sociologia.

Fomos uma década inteira os únicos concursados no Quadro do Magistério do Paraná.

Quantos diálogos a respeito das Ciências Sociais, o conteúdo a ser ministrado.

Li vários livros graças à indicação dela. Falávamos dos autores, de teorias.

Atuamos nesses anos todos no mesmo Colégio, o Estadual de Campo Mourão.

A cordialidade, hábito próprio, agora é legado de e para a sensibilidade humana.

Amargamente tudo virado do avesso. Licenciada não mais regressou.

O ser e estar mansos tomados pela enfermidade. A batalha pela vida termina.

A brandura do coração, não pulsa mais, não prolonga o sofrimento físico.

Serenamente partiu à paz da eternidade. Silêncio suspenso pelo choro pranto.

Professora Laura Moriyama és agora saudade, 23 de novembro, aos 64 anos.