Embaraços

Basta-me um pequeno gesto,

feito de longe e de leve,

para que venhas comigo

e eu para sempre te leve…

– mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída

das montanhas dos instantes…

– palavra que não direi.

 

[…]

 

E, enquanto não me descobres,

os mundos vão navegando

nos ares  certos do tempo,

até não se sabe quando…

– e um dia me acabarei.

Cecília Meireles – Timidez

 

Ao escrever, sempre desejo que elas duas estejam presentes comigo. São doces e irresistivelmente femininas, envolventes, sedutoras. O meu prazer é contemplá-las ao mesmo tempo em que me entrego inteiramente.

Ao poder escrever, a solidão já está comigo. Acompanha-me e se põe silenciosamente, aliás, o silêncio dela é o ideal que desejo escutar. Com a solidão tenho aprendido que só não significa estar sozinho e sim na minha companhia, nos tornado agradáveis e cúmplices desta convivência. É com a solidão que posso ouvir a minha consciência e dialogar com o meu pensar. Solidão que me abraça, abre os meus olhos ou fecha-os, traça o destino e o momento de rumar. Com ela medito, meço palavras, peso decisões.

Ao escrever, só posso colocar a razão e a emoção no papel – como agora – se a inspiração estiver comigo. Ela vem de uma maneira ou de outra e se apresenta. Por vezes abraço-a demorada e ternamente e, antes ou depois, olho bem para os olhos da inspiração, para eu ver o que ela me fará enxergar.

Converso com a solidão sem esconder nada da inspiração ou o contrário. Dialogo com as duas ao mesmo tempo. Existem momentos que apenas ouço em silêncio, bem atentamente a solidão e a inspiração, cada palavra que elas dizem, como também elas dizem com o espaço da ponderação colocada sem nenhuma palavra, palavra nem uma.

Ao escrever confundo se estou me revelando ou se estou me escondendo. A inibição e a timidez são características que eu tenho acima de tudo presentes quando um olhar de alguém é endereçado para mim, ainda mais se o olhar for exclusivo. Inibição e timidez chegam a ser empregadas como sinônimos. Porém, no sentido amplo das palavras elas possuem diferenças. A inibição é um embaraço momentâneo, existe mas desaparece, ainda que demore. A inibição do dizer e do agir, acaba-se dizendo e fazendo. Já a timidez é um acanhamento, um receio que pode se tornar tão forte que descamba para a covardia.

Ao escrever, chego ao final sem ter deixado claro porque hoje tanto escrevi e talvez sem nada a dizer. Explico agora na minha inibição que supera grandemente a timidez, tenho que dizer a alguém o que só eu posso e necessito dizer, de bom, de especial. Tive próximo e a chance de dizer, mas não disse. Deixei para depois. Até quando?

Ao escrever, solicito suplicando que a solidão leve com ela por um bom tempo a timidez que teima em me dominar. Ao escrever, apelo para que a inspiração leve para bem longe a inibição que insiste em me acompanhar.

 

Fases de Fazer Frases (I)

Eu não penso em você. És o meu pensamento.

 

Fases de Fazer Frases (II)

Ter um coração que não ama e não é amado é como ter um jardim sem flores.

 

Olhos, Vistos do Cotidiano

Veiculada maciçamente na televisão, a propaganda do governo federal é uma campanha que pretende estimular às pessoas a carreira de professor. Em várias línguas, tendo como cenários países desenvolvidos, as pessoas respondem qual a profissão mais importante e cada um responde no idioma delas: Professor.

Longe de desmerecer a iniciativa, de boa intenção, porém o verdadeiro incentivo para que alguém venha a se tornar professor e seguir a carreira é dar o tratamento digno à profissão, com salário e condições de trabalho, o que infelizmente está muito longe de acontecer. Tanto é assim que se fosse bom, não precisaria de propaganda, mais ainda apelativa.

 

Reminiscências em Preto e Branco

 Tela da televisão. Tela do computador. Tela do cinema. E a tua imagem? Quando posso tê-la? No reflexo do passado para tê-la no futuro.