Magnífico José Divino
“Zé Divino combateu o bom combate e guardou a fé. Ele foi nossa referência
na política municipal, nunca deixou o debate fluir sem sua sabedoria nas
horas certas. Nesse mundo de hoje, em que tudo acontece sem um
mínimo de conteúdo político, sensatez e sabedoria”.
Rubens Bueno – ex-prefeito de Campo Mourão
Campo Mourão despediu-se derradeiramente do maior líder comunitário da história, José Divino da Rocha, 83 anos. A casa dele não era apenasmente aberta para familiares, recebia amigos, promovia reuniões com moradores da Vila Urupês, encontros religiosos e os de caráter político-partidário, espaço acolhedor, legítimo.
A identidade da Vila Urupês tem a face do Zé Divino, desde o tempo que o citado bairro, um dos mais antigos e tradicionais, era periferia distante do núcleo urbano, mais que geograficamente, estava longe devido ao abandono pelo poder público. Sem galeria, saneamento, asfalto, iluminação pública precária, enxurradas, voçorocas, lama ou poeira. Apesar da evidente injustiça social, os desafios não intimidaram os moradores para a luta no sentido de uma nova identidade transformadora ampla e positiva.
Eles foram articulando uma coesão protagonista em razão do carisma de um homem de pequena estatura, prosa rica, prolífico em saber, seu Zé Divino tornou-se modelar para aqueles habitantes. Funcionário zeloso da Codusa, apelidado carinhosamente Mandioquinha, tinha planos, pensador, contemplava e agia a vislumbrar o futuro. Com notável intrepidez transpunha obstáculos com tenacidade.
Para justificar com sobra argumentativa, a história registra, a construção do Centro Comunitário Vila Urupês, é um dos mais insofismáveis exemplos, fruto do trabalho que ele esteve à frente como presidente da Associação. Antes, disputou uma eleição na qual existiu o interesse de derrotá-lo, já que se tornava uma ameaça para a então classe política dominante. É dessa conjuntura que surge também o hoje vereador Sidnei Jardim, que integrou a chapa (foi secretário), tiveram uma vitória avassaladora, derrotando a máquina da prefeitura.
Pouquíssimas cidades paranaenses e do Brasil têm um centro comunitário como o da Vila Urupês. Zé Divino proporcionou aos seus diletos moradores, que o sonho era possível realizá-lo. Foi pedreiro da referida obra, literalmente. Certa ocasião fui encontrá-lo, quando as paredes começaram a serem erguidas. De bonezinho, cigarrinho de palha, rosto com pingos da cal e massa, falava com natural e clara crença que a obra seria uma realidade.
Foi nessa época que ele conheceu mais diretamente o então secretário estadual da justiça, trabalho e ação social, Rubens Bueno, que assegurou a liberação de recursos para a Associação, notadamente para a citada obra. Relações de amizades que se tornaram laços fortalecidos por toda a vida. Respeito e admiração mútuas.
Rubens Bueno, autor da lei que concedeu o título de Cidadão Honorário do Paraná ao José Divino da Rocha, entregue quando Bueno já era parlamentar federal. O ato solene foi no Dia do Trabalhador, na Assembleia Legislativa, Casa então habituada – como aliás continua hoje – a conceder honrarias aos abastados economicamente ou da elite política.
Seu Zé passa a ser, formalmente, o que já era de fato e exemplar: Cidadão. Também foi agraciado com o título de Mérito Comunitário pelo então prefeito José Pochapski.
“José Divino da Rocha, um homem que não ‘afrocha’”, assim eu o saudava comumente, complementando, “o mineirinho de Bocaiuva” (município onde nasceu).
Voltando a referenciar a casa dele, lideranças políticas sempre iam visitá-lo, recebidas sempre para diálogos francos, leais, construtivos. Pochapski, Bueno, Tauillo, Douglas, para ouvirem dele lições fundamentais de sociedade, da política, da vida, provindas de um homem com um conhecimento invejável, sempre atento, concepções magníficas.
Aliás, Divino tem outro significado, além do bíblico: Magnifico, o que Zé sempre foi. Sábio, conduta ética tão cristalina quanto exemplar, são muitos os testemunhos a respeito dele quanto ao fato de jamais ter violado tais princípios, de nunca ter pedido benefício para ele. Um postulador das causas públicas, comunitárias e com a visão do futuro.
Além das palavras logo abaixo do título desta Coluna, do ex-prefeito Rubens Bueno, cabe citar outras manifestações, a começar da viúva dona Neuza: “Ele foi meu companheiro e amigo, sempre, a vida toda!” Para outro ex-prefeito Tauillo Tezelli, “Grande amigo. Companheiro de muitas caminhadas, me levou por toda a cidade, apresentando lideranças e defendendo direitos da população”.
“Tenho orgulho de dizer que comecei na política junto e através do seu Zé”, ressaltou o vereador Sidnei Jardim. E para o prefeito Douglas Fabrício, “uma liderança autêntica, homem de conhecimento e respeito, perda é irreparável”.
Fases de Fazer Frases
Mesmo quem seja dono, não se deve só ao destino entregá-lo.
Fases de Fazer Frases
Não confundamos: O osso do cachorro; com o ócio do chamorro.
Olhos, Vistos do Cotidiano
Continua repercutir a decisão do governador Ratinho Júnior (PSD) de concluir o mandato. Não concorrerá a presidente nem ao Senado. Oficialmente a decisão é pessoal e política, quer fazer o sucessor. Quem ele apoiará? Ratinho deseja derrotar o favorito, de acordo com pesquisas, Sérgio Moro, agora no PL.
A renúncia lembra outra, a de Álvaro Dias em 1990. Estava tudo pronto para o vice assumir, mas Ary Queiroz ficou surpreso com a reviravolta. Álvaro nunca mais governou o Paraná ou o irmão dele Osmar. Tentaram. Depois de quase 50 anos como senador, quer voltar para lá e pelo MDB, recém-filiado. Perdeu para o Moro há dois anos tendo ficado em terceiro naquela disputa.
Farpas e Ferpas
Se uma imitação é perfeita, então o original não é tal e qual?
Sinal Amarelo
Nem toda escolha é opção, mas toda opção é escolha.
Trecho e Trechos
“Correr não adianta, é preciso partir a tempo”. [Jean de La Fontaine].
“A vida não um doce de coco, mas tem doce e tem coco”. [Domênico Cierei].
Reminiscências em Preto e Branco
Retrato vivo humano na parede, sensação que ele nos olha.
José Eugênio Maciel | [email protected]
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