Miguel, o tio de todos
Aos 93 anos, Miguel Antunes de Oliveira, o Tio Miguel é agora saudade desde o primeiro de dezembro. Pioneiro, cantor do coral, das serestas, dançarino dos bailes, ser social pertencente a clubes, associações, homem com o arrojo a se juntar as iniciativas do bem comum. O senhor moço do positivo humor, impregnado pelo encanto à vida. Chamado carinhosamente e com reverência singular pelos sobrinhos de fato, Orlei, Tuta e Horiete, Miguel foi o tio de uma cidade inteira, das mais conhecidas e queridas pessoas de Campo Mourão, figura humana singular.
Ausente por motivos profissionais não estive no derradeiro adeus. Orgulhoso da amizade que tivemos, despeço-me evidentemente com tristeza, e por meio da republicação da Coluna (novembro de 2006) a vosso respeito, (ainda na manhã daquele domingo, o senhor me ligou para agradecer, leio tudo o que o caro amigo escreve, e por escrever sobre mim, fico faceiro! – disse-me emocionado, percebi pela voz embargada dele). Serás lembrado pela saudação fraternal tão peculiar e entrelaçadora.
TIO MIGUEL, SEMPRE ELE
Foram-se os amores que tive
ou me tiveram:
partiram
num cortejo silencioso e iluminado.
O tempo me ensinou
A não acreditar demais na morte
Nem desistir da vida: cultivo
Alegrias num jardim
Onde estamos eu, os sonhos idos,
Os velhos amores e seus segredos.
E a esperança – que rebrilha
Como pedrinhas de cor entre as raízes.
Lya Lufit (Secreta mirada, 1977)
Apego-me às palavras docemente distribuídas no poema da Lya Luft, transcrito acima. Conheço um homem que sabe, como poucos, cultivar alegrias num jardim de sonhos idos, com a esperança que rebrilha. Em Campo Mourão é a pessoa que mais tem sobrinhos e a cada momento tantos outros ele vai ganhando, uma adoção feita por iniciativa dele ou por parte daqueles que o adotam, bastando para tal um dedinho de prosa. O nome dele? Muitos até sabem, embora seja natural o esquecimento: Miguel Antunes de Oliveira. As amizades se solidificam externadas pelos apelidos afetuosos. E ele é o Tio Miguel.
Respeito, orgulho, admiração, generosidade, lealdade, humor, conhecimento, simplicidade, companheirismo, maturidade e espírito jovial são os principais atributos do tio Miguel. Antes, eu nunca tinha ouvido falar de Tangará, lugar catarinense onde ele nasceu há mais de oitenta anos, aportando neste belo pedaço do Paraná em 1959, fincando aqui suas caudalosas raízes pioneiramente empreendedoras. Ao se aposentar, aí é que passou a viver a vida, arranjando tempo ainda maior para uma boa prosa, contando causos para rir ou para refletir, geralmente as duas situações, narradas com peculiaridade encantadora e envolvente.
Homem sensível, consegue ser solidário sem jamais se abater diante das adversidades da vida, expressando gestos de desprendimento incomuns nos dias de hoje, marcados infelizmente pela correria desenfreada, individualista e desumana da dita civilização.
E como ele gosta da cidade e das pessoas, de estar presente nos inúmeros acontecimentos, cantando no coral, declamando, encenando no teatro, dançando com ternura a valsa esplêndida da vida, participando das serestas, uma pessoa que orgulha imensamente os seus numerosos amigos, seus diletos sobrinhos, que baita tio, não é Miguel?
Fases de Fazer Frases
Vida sem pejo é morte sem lampejo. E vida com lampejo é morte com pejo.
Reminiscências em Preto e Branco
Pouco antes do Dia de Finados e a propósito da data, o dileto amigo Gilmar Cardoso, ele sabedor que aprecio o poeta Mário Quintana, enviou o poema que abaixo transcrevo. O lirismo poético encaixa-se como homenagem ao tio Miguel e ao Mandela:
Inscrição para um portão do cemitério
Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce – uma estrela,
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
Ponham-me a cruz no princípio…
E a luz da estrela no fim!
Olhos, Vistos do Cotidiano
Antes ver e não poder contar, a contar o que não foi visto antes.
Reminiscências em Preto e Branco
O ideal da Paz acompanhou Nelson Mandela a vida toda, luta, conquistada com fim da segregação racial sul-africana. A paz como reafirmação perene do espírito e cotidiano. A paz que faz descansar eternamente o guerreiro que jamais esmoreceu. A paz que o acompanha na morte aos 95 anos, a paz fecunda como legado do maior personagem no mundo do século XX.
